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ARESTAS

ARESTAS

Aranhas e outras teias (7)

“She pulled the blind now. The clock began striking. The young man had killed himself; but she did not pity him; with the clock striking the hour, one, two, three, she did not pity him, with all this going on. There! The old lady had put out her light! The whole house was dark now with this going on, she repeated, and the words came to her, Fear no more the heat of the sun.”(Mrs. Dalloway, V.Woolf) Há manhãs, assim, letárgicas, que nunca acabam de chegar. O sol não jorrou directamente a sua lentidão alaranjada. O dia começou lentamente, arrastando a penumbra dos vestígios da noite, anunciando-se devagar. Primeiro, o horizonte desdobrou-se em fendas ligeiras e linhas opacas delineando as sombras dos raios do sol ainda por vir. Depois, a luz emergiu, como por magia, difusa, atrás dos fios de névoa cinzenta semelhante a um cobertor de lã deslavada e roída pela traça. Muito mais tarde, é que o manto pálido se desfez totalmente, no exacto momento em que o disco luminoso e amarelo saltou mais alto que a linha fictícia do horizonte, apagando todas as penumbras. Coisa impossível de ver na cidade, onde o horizonte do lado do nascente é constituído apenas por prédios atrás de prédios paralelos às ruas que se cruzam, se encontram, se perseguem ou se afastam, como pautas confusas e irregulares, onde apenas os homens parecem encontrar caminhos. Mesmo assim a flora metálica, estranha e imaginária, de antenas de televisão reflectiu a progressão lenta da alba.
Quando acordou, o dia ainda estava enevoado. As nuvens matinais migravam frequentemente para este lado da encosta revelando um espaço semelhante a um cenário de teatro, onde, de um momento para o outro, tudo desaba em luz e nitidez. Cada tempo tem as suas características, cada estação as suas revelações cíclicas e cada dia as suas repetições maravilhosas. Os acontecimentos da noite anterior pareciam não ter passado de um sonho. Quando se sentou à beira da cama, com os pés pendurados a 10 centímetros do chão, fixando uma fenda no soalho, pensou que nunca houvera alguém a bater a porta. Ao bater no chão, os pés fizeram estremecer a mesa à beira da cama. Dirigiu-se para a cozinha para preparar o pequeno-almoço. Ao abrir a janela ouviu o chilrear peculiar semelhante a um riso sarcástico, fora o primeiro melro da manhã. A chávena branca destacava-se sobre a toalha azul. Instalou-se à mesa com chá e torradas, mas de súbito, lembrou-se da carta que não lera. Levantou-se em sobressalto, mas reconsiderando este impulso, acalmou, amainou e domou a sua impaciência para se dirigir com uma lentidão exagerada para o quarto, medindo passo a passo a realidade. Regressou à cozinha com o envelope na mão. Abriu-o e leu:
Larache, 17 de Agosto
Minha amiga querida de sempre,
Sei que há muitos anos que não te escrevo, nem sei se ainda estás na mesma casa, mas o mais natural é que aí estejas.
Depois destes anos todos, depois de todo este tempo, no fundo, o tempo de uma vida, não sei por onde começar. Quando tudo é intenso e rico em acontecimentos é difícil contar. E não são só aquelas coisas que acontecem por fora, o que faria avançar a acção num livro, numa história, ou num filme, mas principalmente o que os acontecimentos, mesmo insignificantes, provocaram por dentro, que torna as coisas mais complicadas. Como se a vida, vivendo-a, se imiscuísse naturalmente no corpo deixando as suas marcas, sem que estas se tornassem palavras. Todos os laços irremediáveis com todas as memórias. Precisava de mais uma vida para te dizer pouco a pouco, sem seguir aquela ordem cronológica do tempo, para que saibas exactamente os pormenores desta minha vida, simplesmente porque a ordem cronológica acaba frequentemente por não deixar espaço para o resto. Presumo que teremos tempo para nos dar a conhecer novamente, pois minha cara amiga, volto para casa, devo chegar um destes dias à noite. Não te assustes se alguém te bater à porta. Queria dizer-te que o meu regresso consiste um pouco em libertar-te da tarefa que te deixei sem querer, a casa, as cartas, o gravador. Percebi que não tinha o direito de te pedir tamanho sacrifício. São apenas objectos da minha memória e terei de lidar com eles. Venho para te ajudar a vender essa casa, onde o tempo não passa e comprar algo mais alegre, uma casa perto de uma lagoa e do mar, com colinas para respirar e crianças para cantar.
Um grande abraço e até breve!
Sérgio.
(Ana da Palma, Gazeta das Caldas, 15/09/06)

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