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ARESTAS

ARESTAS

Um dente, dois dentes, três dentes, quatro dentes, dois dentes...


UN LOT: UNE DENT SEULE

UN LOT: DEUX DENTS

UN LOT :TROIS DENTS

UN LOT : QUATRE DENTS

UN LOT : DEUX DENTS

(…) Dites-moi à quelle heure je dois être transporté à bord…

(Última carta de Rimbaud, 9/11/1891, Marselha)

 

Somos múltiplos, apesar de sermos um só ser e são tantos os livros que, por vezes, a resposta a uma simples pergunta como: “Qual é um dos livros da sua vida?”, torna-se difícil. Porque são tantos os livros que ecoam em nós. São tantos os poemas sobre os quais caminhamos quotidianamente, como um reforço de vigor e de alma para os nossos dias de todos os dias. São tantas as personagens de uma vida inteira que nos fazem descer do eléctrico como com o olhar e o sentir do Desassossego de Bernardo Soares numa gola de renda. São tantos os autores invisíveis, como no livro do autor sueco Jostein Gaarder, O mundo de Sofia, que por vezes nos sussurram algo ao ouvido. São tantos os instantes cómicos que nos levam às primeiras comédias, ou os momentos trágicos que ecoam Sófocles. Mas viver com livros é isso mesmo, é aquela coisa que nos faz, que faz de nós o que somos, como orientamos os nossos pensares, as nossas escolhas e como vivemos neste mundo.

Quando cheguei às Caldas ainda andei de bicicleta como em Paris, isto até ter filhos! Pois de bicicleta, a 4 km da cidade, com compras e sóis a dar os primeiros passos saltitantes, se bem que ao início os passos são mais parecidos com o deslizar de lesmas, ou o primeiro tropeçar em ziguezague e lateral de um cachorro, é impossível! Na subida do imaginário, recitava sempre um longo poema, o Barco Ébrio de Arthur Rimbaud de que Mário Cesariny fez uma tradução para português, Samuel Beckett para inglês... É fácil recitar um poema de bicicleta com o ruído da vida dos automobilistas, camionistas, autocarros, motorizadas e motos, ninguém nos ouve, ninguém nos vê, ninguém nos julga...tontos e coitadinhos!

Se houve um livro que marcou a minha primeira adolescência, aquela que nos abre todos os caminhos com 12 anos, momento crucial de mudança e de abertura para o mundo dos adultos, foi um livro de poemas, que ainda guardo com as páginas todas soltas e amarelas. É difícil falar da poesia, pois não há uma intriga, não há uma acção, não há uma história para contar com princípio, meio e fim, não há um possível desenlace, posto que isto tudo está contido em cada poema que é para nós. Pensei bem, pensei para dentro, porque não podia escolher sem ponderar e ser totalmente fiel. O livro que me persegue quase todos os dias no quotidiano, um dos únicos livros de que recito como uma lengalenga os versos sábios, geniais, eruditos, cantantes, com “um verbo acessível a todos os sentidos”, é este: Arthur Rimbaud, Oeuvres Completes, Paris, Gallimard Bibliothèque de La Pléiade, 1972. Arthur Rimbaud (1854-1891), poeta simbolista, amante de Paul Verlaine durante o tempo de um escândalo e de uma fuga para Londres, um tiro em Bruxelas, uma queixa feita, logo retirada, e um regresso desiludido. Aos 20 anos, Arthur Rimbaud parou de escrever poesia, mas foram muitas as viagens e as aventuras abortadas. Tornou-se comerciante em África. Dizem que vendia armas, cacos, trapos, que teve dois escravos ao seu serviço, um criado, Djami, a quem deixou o pouco que tinha...Depois de partir para África, a única coisa que escreveu, tirando algumas cartas à família, à irmã Isabelle, alguns artigos enviados para os jornais franceses desde Cairo, foram números descrevendo a sua mercadoria. Morreu com a irmã ao seu lado, pobre, desesperado e em agonia, após ter sido amputado de uma perna em Marselha e ver os seus outros membros pouco a pouco paralisados, a 10 de Novembro de 1891. Quando soube disto, repensei seriamente na minha vontade de carreira poética. Abdiquei. Pois ninguém quer morrer só, abandonado, pobre, miserável e no sofrimento. Com 12 anos, não sabia nada dos pormenores da vida do poeta, só mais tarde é que soube. Isto foi com 18 anos, então dediquei-me à leitura intensa dos mitos gregos e à audição atenta dos Madrigais de Monteverdi, para aliviar os estudos de medicina. Mas quando soube de todos os pormenores, inclusive dos poemas eróticos de Verlaine alusivos a Rimbaud, senti-me estranha. Pois, eu estava apaixonada pelos poemas e por uma imagem do jovem poeta. Era tão belo com o seu olhar translúcido de uma melancólica tristeza com reflexos de um saber anterior ao conhecimento, com aquela força de carácter indomável! Acreditem que aos 12 anos, era o meu amante secreto, o meu ídolo. Enquanto outras jovens adulavam cantores ou actores, eu amava secretamente um poeta! Era só meu, posto que mais nenhuma das miúdas lia Rimbaud aos 12 anos, ou então, tínhamos todas, secretamente, o mesmo amor! Acho que também nunca partilhei este amor secreto com ninguém (talvez naquele momento para não ter rivais!) a não ser agora convosco, porque entretanto o tempo passou, os amores mudaram, apesar de continuar a conviver com homens mortos, e sei que todos vão ser condescendentes e sorrir triste, irónica ou docemente!

 

Ana da Palma versão longa da Gazeta das Caldas

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