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ARESTAS

ARESTAS

A última fuga (1)

“Sexagenário morre no momento da sua última fuga. Um homem de sessenta anos foi encontrado morto nas escadas do prédio, onde habitou durante 35 anos, quando se preparava para sair de casa (...) O coração não terá resistido.” (Jornal da manhã)
Matilde acordou com raiva no rosto. Deitada na cama de olhos bem abertos, eram quase seis da manhã. Mais uns minutos... não, já nem são precisos aqueles minutos deliciosos, antes de sair do calor da cama... a cama permanece fria, sempre fria. Sentou-se abruptamente, pós os chinelos e levantou-se. Foi directamente à casa de banho e colocou-se diante do espelho para se pentear rapidamente. Lavou as mãos, o rosto e enfiou a roupa automaticamente. Será minha, esta cara... não me reconheço, como é possível? Este cabelo branco, esta pele, estes olhos sem luz, mas cheios de lágrimas, sem as lágrimas do choro. Vamos ver...onde está a pelada do mês passado? Matilde pegou num pequeno espelho e procurou, entre as madeixas do cabelo, com dedos decididos no couro cabeludo. Está aqui! Parece que está a diminuir, mas ainda se vê. Como é estranho esta ilhota de pele branca sem cabelos... bom, não é bem sem cabelos... estão a crescer. É meu, este pequeno buraco? Tenho um buraco de pele branca, onde alguns cabelos estão lentamente a crescer... não, não pode ser meu e no entanto, sou eu... Saiu da casa de banho. Começou, logo de manhã, a movimentar os móveis. Ligou o aspirador. Estava muito atarefada. Movimentava-se numa raivosa eficácia. Arrastava os móveis pelo chão. Ruídos agudos e surdos misturavam-se ao arranque eléctrico do aspirador que Matilde ligava e desligava à medida que deslocava uma cadeira, ou um tapete. Dirigiu-se para a janela e sacudiu um pano dum gesto brusco e violento, como se pudesse sacudir toda a sua frustração. Tanto pó! Como é possível haver tanto pó? Há anos que o seu rosto tinha perdido toda doçura. Há anos que mesmo um sorriso não podia iluminar o canto dos seus lábios, os seus olhos e esta pele, que, apesar de todos os cuidados, apesar de todos os cremes nutritivos e hidratantes, que persistia em aplicar com um certo rigor, secara de vez... sim, hidratantes dizem eles, são todos milagrosos, sobretudo quando são apresentados por uma jovem rapariga bela, rica e sorridente num ecrã de televisão... Matilde aspirava o ar do sofrimento, limpava o pó do desespero e sacudia o pó do desprezo. Tornara-se numa alma complicada sem um único momento de sossego, ou de consolo, em que se podia vislumbrar uma hipotética felicidade. Felicidade simples, há muito que já não existia. Será que chegou a existir? Anos após anos, toda uma vida alimentada de dor, sofrimento, sacrifícios, dor, sofrimento, sacrifícios, anos após anos, sucederam-se sem espaço para outros sentimentos. Uma vida a criar, inventar e resolver conflitos, cansa! Uma vida a pôr-se sempre ao lado do sofrimento, caminhando sempre, lado a lado, com a dor de algo ainda por vir, uma vida a travar batalhas. Só, sempre só e contra todos. Dividir e batalhar sobre o sentimento de algo...algo profundo, aqui nas entranhas, é certo...mas o quê? Continuava arrastando o seu cansaço. Até estoirar dizia, até estoirar. Havia no seu entendimento das coisas um limite a alcançar. Quando era? Não sabia, mas uma coisa estava segura, ia acontecer com certeza, o tempo do fim acaba sempre por chegar. Preparou um chá e pão torrado. Sentou-se à mesa. Sozinha. Em casa, todos ainda dormiam. No quarto escuro, ainda escuro, Valentim de olhos fechados respirava levemente como para não desencadear a fúria próxima da porta, esta porta ainda por abrir e a luz ainda por ferir os lençóis. Estava longe o tempo dos abraços e dos beijos que lhe dera, pensava, enquanto Matilde lutava contra o pó, como contra todos, todos os outros, o medo dos outros, todos potenciais inimigos, todos a conspirarem contra a sua maneira de sentir intransmissível, inconfundível e inalcançável. Todos os dias, Matilde acordava com o sofrimento no rosto e quando se olhava ao espelho, se não delineava as marcas da sua vida miserável, passava o dia na dolorosa labuta de reencontrá-las. Todos ainda a descansar, todos ainda no calor dos lençóis... O descanso dos outros era para ela um motivo de irritação profunda. Como podem eles dormir, quando eu estou aqui, acordada, pronta para trabalhar? A que servem as lágrimas, quando já não há nada que valha mesmo a pena de chorar? A manteiga estava dura, o pão demasiado torrado e o chá demasiado quente. Acrescentou leite frio e bebeu. Olhou para as mãos, a textura áspera e usada da pele, as rugas...tantas as rugas... levantou-se rapidamente foi buscar uma bisnaga de creme e esfregou as mãos até ficarem quase suaves, macias e lisas. Nada, não serve de nada, todas estas substâncias apenas enganam o instante em que se esfrega as mãos, depois volta tudo ao mesmo. (Ana da Palma, Gazeta das Caldas,12/05/06)

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