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ARESTAS

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E a Memória?

Esta coisa da memória é algo que sempre nos toca. Chega até nós de várias maneiras, a vários níveis e como sabemos as nossas pequenas histórias inserem-se frequentemente numa outra história ainda maior, por vezes até se misturam à História.

Lembro-me... Tudo começou com a leitura de Proust, Sim! Não estou a delirar! Foi mesmo com Proust, que percebi e que juntei os dados. A minha avó era uma grande contadora de histórias, teve uma vida que lhe deu essa dádiva e tinha um verdadeiro dom de contadora efabuladora. Contava bem e sabia cativar todos os ouvidos pela emoção e o canto. Como é natural, frequentemente todas as histórias andavam em torno da vida dela, pois normalmente falamos daquilo que nos é próximo, daquilo que conhecemos. Mas um dia, quando fiz perguntas sobre o meu avô, já que ele era um homem do presente, pois falava pouco, mas tudo o que dizia tinha o peso do imprescindível. Foi assim que percebi uma série de coisas, que mais tarde me levaram a verificar que eram descendente de marranos. Isto tudo por causa de Proust!

 Até aos 15 anos passei todas as minhas férias de verão com os meus avós. A minha avó, uma mulher do norte de Portugal, daquelas mulheres de uma força, um poder, uma inteligência e uma sensibilidade extremas. Eu, menina parisiense assistia a todos os rituais ligados à terra, aos bichos, à comida com a maior curiosidade. Lembro-me que o momento em que se matava um coelho caseiro ou um carneiro eram momentos muito especiais. Vejo os dedos de feiticeira da minha avó procurar entre os músculos de uma das pernas traseiras dos animais e retirar uma coisa. Ela dizia um nome. Esse nome não o sei escrever, só me lembro do som das palavras e quando procurei no dicionário só encontrei bedum e bodum. Esse momento era de facto completamente mágico, lembro-me de me perguntar porquê, como é que ela sabia que aquilo que se devia retirar estava ali e porquê só ali, porque não noutro sítio, porque não na outra perna também? Pois quando somos pequenos temos aquela ideia estranha de que as coisas vêm aos pares., ou então são simétricas! Naquele tempo ela não me soube responder, não soube, só explicou as consequências, ou não achou importante ir ao encontro da minha curiosidade, ou então eu ainda não sabia fazer as perguntas certas, aquelas perguntas que fazemos de forma que indicam que estamos à espera, à escuta. Aquelas perguntas que levam o Outro a remontar na memória e a pensar a memória. Até porque há coisas que repetimos sem pensar no porquê, até porque no fundo não temos que pensar no porquê até alguém nos lembrar esse porquê. Felizmente houve Proust numa nota de rodapé, e foi aí que percebi todo o significado daquele “nervo” que se retira aos animais. 

Isto da memória chegou-me por causa do café literário, do dia 25 de Janeiro, no Pópulos para a apresentação do livro de Fernando Rosas, intitulado:  Lisboa Revolucionária, Roteiro dos confrontos armados no século XX. A história de Portugal é um assunto que me toca. Toca-me de perto porque tenho a noção e sei que foi por causa desta História que me fizeram atravessar o Rio Guadiana numa mula, que me retiraram a língua portuguesa para me dar outra que não era minha. Neste café literário organizado pela Loja 107, houve um momento em que me senti profundamente triste. A tristeza teve as suas raízes numa postura de esquecimento voluntário e colectivo face a uma memória que fazia sentido.

Quando a tristeza é tanta procuramos uma escapatória foi então que chamei a mim umas belíssimas palavras de um filósofo francês, Gilles Deleuze, que dizia algo mais ou menos semelhante a isto: ter boa memória é saber esquecer. Lembro-me que a primeira vez que ouvi estas palavras, fiquei surpreendida, e claro que não concordei! Porque fui ensinada na memória das coisas, foram tantos os poemas decorados e mais tarde as veias, os nervos os músculos e todos os seus pontos de fixação nos inúmeros recantos dos ossos! Mas não é só isto, normalmente associamos a memória precisamente ao contrário! Ter boa memória seria lembrar-se de tudo, absolutamente tudo. Frequentemente aplicamos estas palavras àquelas pessoas que se lembram de poemas inteiros, de todos os pormenores de um acontecimento, de uma história, da História etc. Pouco depois percebi as palavras de Deleuze, quero dizer, percebi-as da forma como faziam sentido para mim: há coisas que pertencem à nossa memória e outras não. Não há nada a fazer! Posso me lembrar em que livraria li um determinado livro e não me lembrar do tipo de carro que tive, há 10 anos atrás. A memória é selectiva e ainda bem! 

Mas a minha tristeza nasceu principalmente da memória do ser português que parece remeter sempre tudo à sua pequenez, que parece nunca dar valor àquelas coisas que verdadeiramente fizeram a nossa história, aquelas que fracassaram, aquelas que não são epopeias, mas que tiveram a sua importância.

( Ana da Palma, Gazeta das Caldas, 22/02/08)

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