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ARESTAS

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Fascínios (2)

FoxTalbot.Wrack.1839.jpg
Sabemos que o punctum está fora-de-campo e fora-de-código. Lugar de singularidade e do referencial único, o punctum irradia e, o que é mais surpreendente, presta-se à metonímia.
E uma vez que se deixe envolver nas ligações de substituição, pode invadir tudo, objectos e afectos. Este singular, que não está em parte nenhuma do campo, mobiliza tudo em toda a parte, pluraliza-se (...) O punctum (...) induz à metonímia e é a sua força, ou melhor do que força, a sua “dynamis”, isto é a sua capacidade e a sua virtualidade.
(Jacques Derrida “As mortes de Roland Barthes” in Poétique nº47, Paris, Seuil, Setembro 1981, p.286)
“O que é exactamente a aura? Uma trama singular de espaço e de tempo: a aparição única de um longínquo, por mais próximo que esteja”
(W. Benjamin) Quais são os signos, ou os códigos que identificamos, ou que lemos, ou que procuramos dentro de nós quando vemos esta imagem? O que interessa nesta imagem, que cada um vai interpretar apenas com os seus dados e que remeterem para um sistema de códigos, ou sinais que acabam por se tornarem comuns? A imagem que nos é dada a ver, remete obviamente para um tempo e um espaço. O referente, isto é, o objecto fotografado, indica um tempo, nem que seja aquele tempo em que se encontrou sobre o papel sensibilizado, e um espaço que lhe são próprios, que desconhecemos e de que temos pouco conhecimento. Contudo, também remete para um tempo e um espaço que apenas nos pertencem, isto é, o momento em que vemos a imagem.
O que nos toca tão profundamente ao ponto de não poder, nem saber dizer porquê? Porquê tanto fascínio por uma imagem assim, deslocada, antiga, deslavada, semelhante à folha de um Outono longínquo encontrada por inadvertência entre as páginas de um livro lido uma única vez? Qual é o poder? Qual a tensão criada por esta imagem, aparente e inocentemente, sem importância? Há algo do real que se encontra nesta fotografia e, no entanto, o real está invertido. Será apenas pelo efeito de negativo produzido pela impressão da planta no papel? Trata-se do vestígio de algo real, mas um vestígio deturpado pela inversão. É um fotograma, uma imagem que nos foi deixada por William Henri Fox Talbot, em 1839, resultado do seu interesse ecléctico, onde podemos ver se juntar três campos, três áreas do conhecimento, que se cruzaram e se encontraram: a botânica, a química e as artes.
Esta é semelhante aquelas imagens que permanecem sempre únicas, e neste caso concreto, verdadeira e totalmente, irreproduzível. Trata-se de uma imagem apenas possível graças ao prodígio da luz. A luz, aquela que cria e destrói, aquela que, segundo Plínio, permitiu o primeiro desenho, baixo-relevo (escultura), pintura... Aquela que se retira, ou melhor, se transforma simplesmente, com um pequeno aviso prévio, que se inicia no tempo e que se desenvolve paulatina, mas irremediavelmente. A imagem muda pouco a pouco. A luz, que frequentemente associamos ao branco, enquanto não for fixada, torna tudo escuro, apesar de também ser luz. Não se trata aqui da velocidade que apaga, deixando a ausência de corpos na imanência da presença, ou da transparência, da luz, mas do fenómeno de enegrecimento. Um processo que produz uma imagem totalmente escura. Qual o efeito de tal imagem se a pudéssemos ver? A imagem acaba, aqui, pois dizem que com a luz está a sua morte. Portanto o pobre e desapontado espectador, ainda procurando dentro de si algum significado, poderia inventar a imagem que ficou escura. Poderia muito bem inventar a sua própria imagem, ou a planta que uma vez pouso no papel. Aqui encontramos a sua efemeridade transformada, dada a ver como vestígio de um real que não existiu, mas de que temos conhecimento.
O que acaba sempre por prevalecer não é tanto o que pretendia o fotógrafo William Henry Fox Talbot, mas a permanência da imagem. Não se trata do registo, posto que todos nós podemos efectuar este registo, podemos conhece-lo, sabemos do registo da planta, excepto se pensarmos no registo do próprio acto fotográfico. Reencontramos o princípio de conexão física, aquele que nos indica o passado do referente, neste caso a planta que não foi, mas de que temos conhecimento, ou daquilo que era. Sendo a impressão física de algo que era, surge então a procura do significado ao representar a planta tal como era na nossa memória A imagem também remete para o princípio de singularidade, ou seja, esta representação é única, entre elas se encontram alguns trabalhos de Talbot (Desenhos Fotogénicos) sobre as imagens obtidas por sedimento directo de objectos colocados sobre um papel sensibilizado ao nitrato de prata. Será que se poderá determinar um princípio de designação? Além do testemunho, o que chama a nossa atenção? O que cria o alheamento? O que nos é mostrado é o vestígio da sombra da planta. É a “dynamis” do punctum.
(Ana da Palma, Gazeta das Caldas,22/09/06)

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