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ARESTAS

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Sobre Infernos de Amor e de Morte

A leitura encenada de A Pluma é a minha charrua, título do futuro espectáculo que partiu de um texto de 1401, intitulado, O Lavrador da Boémia, de Johannes von Tepl , foi uma iniciativa inovadora e enriquecedora do Teatro da Rainha. Inovadora porque, nunca tive a oportunidade de assistir a tal coisa nas Caldas da Rainha, porque vi a forma como tal proposta pode aproximar os cidadãos num espaço de criação artística, onde o diálogo cria e gere ideias, onde se formam laços imprescindíveis para uma maior compreensão do mundo, como da relação entre o teatro e o espectador. Enriquecedora porque, saí com a nítida e duradoura sensação de ter participado a algo de bom e de produtivo. Crescemos sempre um pouco mais por dentro nestas ocasiões!

 Quanto à escolha do texto, penso que foi oportuna, porque são temas muito actuais que se encontram frequentemente deturpados na sociedade em que vivemos. A tradução de Isabel Lopes é como sempre perfeita. Há que realçar que se trata de um texto de 1401 e o trabalho do tradutor é uma labuta importantíssima ao longo do tempo e dos anos, é a única que pode dar a conhecer textos acompanhando a evolução dos tempos e da linguagem.

Quanto à escolha do tema, revela novamente a consistência da procura do Teatro da Rainha, porque mais uma vez é representativa das suas grandes preocupações, que além de conceber o teatro como um divertimento que é, procura dar pistas para pensar. Não saímos imunes, não saímos numa “bolha esterilizada e esterilizante ”. Saímos mais fortes e mais fracos como somos, mas com algo mais, algo profundamente nosso que foi questionado. Este último aspecto é o trabalho mais ingrato na nossa sociedade tão acostumada a sensações efémeras e virtuais, rapidamente assimiláveis, com um processo de digestão artificial e com o poder supersónico do desaparecimento, porque não interessa a ninguém pôr os cidadãos a pensar, apesar de ser o mais difícil e o mais intimamente gratificante.

Não penso que o teatro da Rainha precisa de demonstrar que sabe manipular e utilizar as novas tecnologias, simplesmente porque sempre o fez de forma harmoniosa e não me parece ser o aspecto pelo qual devemos exercer a nossa capacidade de julgar, simplesmente porque o uso de efeitos especiais podem abafar o verdadeiro trabalho do texto e aquilo que o texto deve provocar. Por isto tudo agradeço ao Teatro da Rainha.

Entrei num espaço em construção em torno de todas as afinidades, porque são tantos os amores do Amor, e todas as finitudes, porque são numerosas as mortes polvilhadas no nosso caminho para chegar até à nossa própria Morte: o Amor e a Morte. Tanto o Amor como a Morte são um dueto, em que apenas está presente a lembrança do Amor, e este canto está orquestrado de forma sensível, subtil e harmoniosa, nas relações entre o palco e o espectador. Estas são o diálogo entre o Lavrador e a Morte, respectivamente representado por Fernando Mora Ramos e personalizada e representada por António Durães, como um todo realçado pela música de Carlos Alberto Augusto, que se alia aos silêncios e às sensações produzidas pelo próprio texto de uma grandeza, justeza e de um poder arrebatador. A música alimenta-se de dois espaços em simbiose, tornando-os próximos, o espaço circular em que se movem os actores e o espaço em torno do círculo criado pelo cenário de António canelas em que se encontram os quadros de João Vieira e os espectadores.

Entramos nos círculos de Dante pela própria temática, como pela disposição do conjunto físico do cenário: um poço, um buraco, um precipício que durante a leitura não nos leva para o fundo, mas eleva-nos estranhamente, pelo poder e actualidade das palavras; uma disposição de quadros apresentados pela própria morte ao longo da representação que inicia o nosso olhar, orientado por um raio de luz, que nos indica o caminho da leitura da própria vida, tecida pelos fios das três parcas, subtilmente aliados e definitivamente cortados, segundo uma lei que não conhecemos e que não responde às leis do Amor. O texto introdutório aponta para a intertextualidade desde Dante a António Quadros pintor, passando por Neruda, remetendo para todas as outras possibilidades que cria o intertexto. Isto remete para a vida em geral, parafraseando um teórico francês Roland Barthes, o intertexto é isso mesmo, desde o livro, o jornal diário até ao ecrã de televisão e tecemos laços com o nosso quotidiano, o nosso viver, esses laços simultaneamente simples e complexos entre o Amor e a Morte. Foram tantos os homens que desceram aos infernos em busca do seu Amor. Pensámos em Orfeu, poeta cujo canto foi aniquilado na cabeça cortada. Orfeu que perdeu Eurídice com um simples olhar. É sempre injusto o desaparecer, é sempre injusta a Morte para o Outro. São círculos em espiral dos quais não se sai e em que a música e o espaço acompanham a respiração dos actores e dos espectadores de forma harmoniosa e sentida.

 

Ana da Palma, Gazeta das Caldas 25/01/08

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