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ARESTAS

ARESTAS

A última fuga (2)

As primeiras portas bateram. Os vizinhos estavam a sair de casa. Olhou para o relógio. Já não era sem tempo! Estão atrasados. O ruído das botas nas escadas do prédio fê-la estremecer. Sempre o mesmo! A torrente do atraso do vizinho ecoava no prédio! Um esgar nervoso deformou o canto dos seus lábios, as rugas nos cantos dos olhos e entesou o pescoço de tal modo que tudo ficou crispado. O rosto e o corpo tenso e duro, tudo espelhava raiva. Espreitou pela janela com o mesmo esgar. Depois, abriu a porta do quarto. Estava escuro, Valentim ainda dormia. Dormia sempre, como se o sono o pudesse afastar da vida. Entrou, abriu a janela com um gesto brusco, quase violento, e começou a arrumar o quarto. Valentim levantou-se, silencioso e fugiu para a casa de banho. A sua única consolação era a casa de banho. Sentou-se na sanita e pós-se a fumar em silêncio. Quando ouviu a porta de entrada a bater, saiu, dirigiu-se para a cozinha. O café ainda estava quente e havia pão fresco. Ao longe ouvia-se as vozes surdas de uma rádio. Foi reencontrada ! O quê? O quê? O quê? Não, aqui não se trata da eternidade como no poema... que se lixe a eternidade! Matilde partiu à pressa para apanhar o metro. Ao sair do prédio, encontrou a vizinha, fez-lhe sinal e acenou um bom dia com a cabeça. Não tenho tempo para ouvir, nem as suas queixas, nem as suas lamúrias, nem os seus comentários, sobre o vizinho que chega sempre as quatro da manhã. Não tenho nada a ver com isso. Cada qual com a sua vida, eu fico com a minha e já me pesa bastante. Não importa, já sei o que se passa no prédio. Já sei que o Dr. Carlos deixou a mulher e os filhos, que a Maria anda perdida de bêbada de manhã à noite e que o gato da dona Estela mija por tudo quanto é sítio. Sei lá o que se diz de mim... mas esta mulher é perigosa... é mulher para inventar umas boas mentiras. Caminhava com passos breves e rápidos. Dirigiu-se para o metro. Ao mesmo instante, uma mulher ainda jovem caminhava pela rua, passou pelo quiosque Bom dia Senhora Amélia! Bom dia menina, o jornal? Sim...Obrigada. Ainda era cedo. Havia tempo para ir para o emprego devagar e ler o jornal antes de entrar. Desceu lentamente as escadas de entrada para o metro, lendo umas linhas no livro dobrado a meio, que segurava na mão esquerda. Um ar quente com cheiro a papel, metal e café emanava do corredor a percorrer antes da bilheteira... Matilde em pé perto da porta da carruagem em que se encontrava, prestes a pisar novamente o chão com amargura. Mais um dia. Mais um entre todos os outros. É sempre a mesma coisa...trabalho, trabalho... pelo menos, eu trabalho... não é como muitos que andam aí sem fazer pela vida, não é como alguns. Mesmo assim, nem sei como será a minha reforma. Tantos jovens desempregados, tantos outros a viverem à custa dos pais, à custa da sociedade...não era eu que os alimentava não. Ai se eu pudesse! As coisas não seriam assim, não! Acabava com os subsídios, com as drogas, com as depressões... é incrível agora estão todos deprimidos, todinhos! Se trabalhassem, se fizessem pela vida, se fizessem qualquer coisa em vez de pensar que tudo lhes é devido naturalmente, as coisas não estariam assim não. Nem sei. Quiçá não seja bem assim... sei lá, é difícil dizer o que é... é como se não houvesse nada a fazer... não, não há nada a fazer...nada a fazer, está tudo estragado... Mas eu! Eu fechava as torneiras dos subsídios e punha todos a trabalharem no duro! Tem que se passar pelas coisas para saber dar o devido valor ao que se tem... o que é que se tem...o que é que eu tenho?Tira daqui as mamas! Disse ao cruzar-se com uma mulher ainda jovem com um ar entontecido de sol. Alguma vez se viu um ar destes em pleno corredor do metro! Em pleno Outono! Alguma vez! Gostaria de ter podido lhe dar um empurrão. Há jovens que precisam de ser sacudidos. A vida aprende-se assim, com sacudidelas, com agressividade. Mas, o corredor estava vazio e em vez de uma cotovelada, apenas brandiu com uma voz cavernosa tira daqui as mamas! Depois destas palavras amargas, a mulher ainda jovem continuou a caminhar pelo corredor, sem pressa. Ainda tinha tempo de passar pelo mercado, de tomar um café e de seguir para o emprego. A cada passo um sorriso crescia nos seus lábios. (Ana da Palma, Gazeta das Caldas,19/05/06) Matilde continuava as suas vociferações íntimas contra tudo e contra todos. Todas as manhãs, chegava assim, cansada de tanta raiva, ao trabalho. Punha-se a trabalhar sem parar até à hora do almoço. Depois quando regressava, mesmo a seguir ao almoço, parecia estar ainda pior.

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