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ARESTAS

ARESTAS

Cesrencontres avec eux, 2006

Ces rencontres avec eux (Quei loro incontri)- filme Italiano- 2006- Dialogos filosoficos de Danièle Huillet e Jean-Marie Straub- uma adaptação de um texto de Cesare Pavese;

Uma belissima reflexão sobre os homens, os mortais e os deuses

Muito mais para dizer depois

(desculpem os erros ortograficos...não sei bem co,o funciona este teclado)

Até breve

A Pensão do tio de Abdel (6)

Ao lado de Helena, Pedro caminhava pensativo. Como é possível segurar esta mão, tão pequena e macia, com tanta certeza. Esta mão que sempre esteve na minha, esta mão quase prolongamento da minha mão. Numa tarde, como é possível ficar com tantas incertezas? São minhas as incertezas? Da Mão de Helena, Pedro passou a pensar no corpo de Helena. Quando se partilha a intimidade dos corpos, das peles, há sempre algo mais, há sempre uma proximidade que nos dá o direito de questionar? Será bem assim? Enquanto continuava silencioso, Helena caminhava ligeira. Pensava no jantar, em casa de Miriam. Que doçura esta rapariga. Tantas diferenças e ao mesmo tempo tantas afinidades. Helena continuava maravilhada com o encontro, sem se aperceber do tormento de Pedro, sem perceber que as afinidades resumiam-se ao corpo e ao deslumbramento que Miriam provocava de forma quase sistemática e consciente em certas pessoas. Quando passaram à frente da loja, Muhammad observou e acompanhou de longe o percurso dos cinco jovens como se estivesse a relembrar um passado longínquo, como se soubesse o que ia acontecer. Este olhar intrigava frequentemente os habitantes de Larache, mas com o tempo habituaram-se.

O jantar passou-se de forma agradável. Abdel continuou a falar de si, da sua vida futura, da sua família, mas sobretudo dos seus grandiosos projectos de viagens e do seu sonho de vida no estrangeiro. Pedro parecia estar interessado nesta questão e procurava tentar ajudar Abdel com sugestões, enquanto Nicolau brincava com as crianças, procurando nelas o brilho dos olhos do miúdo que lhe falara do jardim das Hespérides. Depois do jantar, Miriam agarrou a mão de Helena e desapareceram juntas. O mundo das mulheres era um espaço aparte e quase proibido. Comiam e dormiam separadas dos outros.

Muhammad fechou a loja e pôs-se à janela. O dono da loja vivia em Larache há muitos anos. Ninguém sabia ao certo donde vinha, nem o que fora o seu passado, mas todos o aceitavam sem questionar. Tornara-se um homem importante. De súbito, uma luz intensa iluminou os seus olhos e lembranças antigas foram reavivadas, coisas voluntariamente esquecidas chegaram à sua memória com uma nitidez absoluta.

Como agora, estava no posto da polícia, 50 anos atrás, quando o interrogaram. Lembrou-se das exactas palavras que pronunciara. Não sei o que se passou naquela noite, fazia um calor intenso, era mais uma noite de insónias, vim à janela, cruzei os braços no parapeito e perdi-me na completação da noite. Chegara quase a hora da oração, vi o almude sair de casa e dirigir-se para a velha mesquita. Ainda era noite. Há anos que vivo aqui em Larache, tenho tido muitas insónias, tenho observado as pessoas que passam, que vêm e vão, os habitantes de Larache, os turistas... Naquela noite, vi as duas raparigas saírem em direcção à praia. Não fiquei surpreendido, porque fazia muito calor e elas pareciam conhecer-se muito bem, pois estavam tão próximas, pareciam felizes. Os seus corpos ajustavam-se a cada passo e riam como só amigas podem rir. Algo acontecera naquela noite que as juntou para sempre. Algo de indescritível, que ainda hoje não sei explicar. Por que razão foram até ao porto, não sei. Não, não as impedi. Como podia impedi-las de fazerem o que queriam? Como podia saber o que ia acontecer? Não sei mesmo. O que é certo é que os seus corpos foram descobertos, perto do mar, nas margens do rio, amarradas uma à outra por uns ténues fios de seda. Os fios teriam partido numa situação normal. Como era possível? Como resistiram àquela manhã de tempestade infernal? Pouco tempo depois de ter visto as raparigas, ainda era cedo de manhã, um dos rapazes apanhou um autocarro em direcção a Tanger, parecia exaltado, havia um brilho quase feroz nos seus olhos. Não podia ser nada de bom. Vi-o encontrar-se com um miúdo da Medina. Esperaram pelo autocarro e subiram juntos. Nunca mais os vi. Há uns anos apareceu aqui um jovem, a dada altura pensei que podia ser ele mas não, não tenho certezas, não posso dizer nada. Não há nada a dizer quando não se sabe.

Quanto aos dois outros rapazes, não sei.

Muhammad não quis continuar.

Colocou ambas as mãos na mesa, juntou-as e apenas acrescentou, não sei o que aconteceu naquela noite, só que isto relembra-me algo de parecido, algo que me acontecera há anos. Na noite em que perdi os meus amigos e na manhã em que acordei com a estranha sensação de não poder partir sem perceber o que tinha acontecido.

(Ana da Palma, Gazeta das Caldas, 22/12/06)

Fascínios (9)

 

 

“Pela primeira vez, no processo de reprodução das imagens, com (a fotografia), a mão encontra-se liberta de todas as tarefas artísticas mais importantes, que doravante ficaram a cargo do olho pregado à objectiva. E como o olho captura mais depressa que a mão desenha, a reprodução das imagens fez-se doravante a um ritmo tão rápido que chegou a seguir a cadência da palavra.”(Walter Benjamin, L’oeuvre d’art)

Até agora, em quase todas as imagens que percorremos, excepto talvez a imagem de Jürgen Nefzger, intitulada Sellafield, Grã-Bretanha, 2005, onde aparece uma mensagem social e política facilmente reconhecível, prevalecia o aspecto pura e simplesmente estético, antes dos outros indícios que sempre podiam vir por acréscimo, como por exemplo as implicações íntimas, os prolongamentos históricos, ou os aspectos sociais, que podiam transparecer nas outras fotografias. 

Está imagem de Otto Steinert (1915-1978) é, sem dúvida alguma, uma imagem bem diferente das outras. Não quero avaliar o valor desta fotografia. Pois falar do valor, hoje em dia, levar-nos-ia sobre outros caminhos que nos afastariam da imagem. Quanto ao que foi dito do valor no passado, por variadíssimos artistas de diferentes campos das artes, cada um pensando com as suas ferramentas, foi o seguinte. Segundo alguns, o valor de uma obra de arte reside fundamentalmente no seu poder de testemunho histórico, segundo outros o seu valor reside na sua perenidade, ou ainda, como afirmou André Breton, mais ou menos nestes termos, a obra de arte apenas tem valor quando estremece dos reflexos do futuro, ou do porvir, deixando-nos novamente com a velha ideia recorrente, que continua a ajudar a explicar tanto o artista, como a sua intenção, de um artista demiurgo e inspirado. Estas considerações acerca do valor de uma obra foram variando e oscilando com as mudanças sociais e tecnológicas que acabam sempre por configurar uma nova percepção.

O que nos resta desta imagem? Como perceber esta imagem? Vemos um transeunte em movimento, o seu vulto indica um tempo passado. Vemos uns cartazes,  onde podemos ler, inscrito em francês, « SIGNEZ » e « APPEL ». Tudo indica que a fotografia refere-se a um passado. Um tempo longínquo onde está presente um significado com uma certa importância no momento exacto em que a fotografia foi tirada e com um valor de registo hoje em dia. Pelo espaço em que identificamos a arquitectura dos edifícios podemos pensar que se trata de um sítio na Europa, o espaço destruído remete para algo diferente quando se encontra aliado aos cartazes. É fascinante como em certas fotografias, nada é deixado ao acaso, tudo se coordena de forma adequada para transmitir sentido. Todos os indícios funcionam perfeitamente, ajustam-se de uma maneira adequada. Nos cartazes podemos ver, ou melhor ler, que se trata de apelos. Podemos ler que são cartazes escritos em francês e só estes indícios poderiam ajudar a apontar para um determinado espaço e um tempo definido, pois toda imagem tem um Hic et Nunc, uma data. Pois trata-se de uma imagem tirada em Paris, no ano de 1950.

Esta imagem tem uma particularidade. Além de reafirmar pela justaposição, ou melhor pela co-existência de um plano em movimento, que corresponde à personagem, e um plano fixo, que corresponde aos cartazes afixados, neste caso como que duplamente afixados, uma intenção estética, também manifesta a sua intenção política, pois sabemos das mudanças e dos tumultos após a Segunda Guerra Mundial. No entanto, no primeiro plano, ou pelo menos aquele que se chamaria assim numa situação normal, vemos um vulto. Uma personagem em movimento. O seu próprio movimento parece estar de acordo com os cartazes do segundo plano. Por um efeito especial ligado à velocidade, o segundo plano que corresponde ao espaço dos cartazes torna-se como parte integrante do primeiro plano. O efeito de sobrepor dois planos que seriam, numa situação normal, dois planos distintos, parece produzir uma transferência de toda a “aura” contida na personagem anónima para o significado da presença dos cartazes. Este aspecto é realçado pelo simples facto que o último plano desempenha quase a função de pano de fundo (digo quase, porque não é neutro e também carrega indícios de espaço) por estar colocado entre um plano intermédio, uma parede branca que delimita um espaço em destruição/construção e um plano predominante e em destaque de forma tão clara e evidente. Assim, o tempo indica caminhos e outra forma de percepção, dado que para nós a imagem não tem o peso que tinha em 1950.

Nota: Mais imagens de Otto Steinert para ver aqui, num documento em PDF: http://www.upress.uni-kassel.de/online/frei/Bildteil.pdf                      

(Ana da Palma, Gazeta das Caldas, 15/12/06)

 

Ouvindo...

Vivaldi...

"Tecum Principium" Andante, contralto solo, orquestra

Tecum principium in die virtutis tuae, in splendoribus

sanctorum

ex utero ante luciferum genui te.

E...

"De Torrente" Andante, Soprano solo, orquestra

De torrente in via bibet:

Propterea axaltabit caput

Aí! Esquecia-me de isto que vai subindo, subindo...

"Sicut erat in principio", Allegro, Coro

Sicut erat in principio et nunc et semper et in saecula saeculorum

Que delícia!

Depois segue o Stabat Mater...

Nunca mais...

“Un récit? Non, pas de récit, plus jamais.”( “Uma narrativa? Não, não há narrativa, nunca mais.”)

 

 

Como é impossível contar?

Uma narrativa com princípio meio e fim? Algo estruturado que constitui uma história, algo que fora possível contar.

Impossível dizer com as palavras ditas ou escritas?

Impossível... sim

Só fragmentos aqui

Outros acolá

Seria fastidioso contar as coisas de forma cronológica, do princípio ao fim, ainda que exista um fim... existe um fim na narrativa em sí... só para o que é humano existe um fim...

 

Quando começa a narrativa ?

Quando acaba ?

Algo que permanece sem fim e sem princípio…

 

O autor apaga-se depois da narrativa

O autor não « cumpre » a narrativa. A narrativa é-lhe, como qualquer outra coisa e depois não existe. Depois, isto é,  uma fez acabada, acabou. Não há nem autor, nem narrativa.

Independentemente do leitor que fará o que lhe apetecer com a dita « narrativa ». O autor des- existe-se ao cumprir a narrativa.

Últimas palavras de "La folie du jour"

 

“On m’avait demandé: Racontez-nous comment les choses se sont passées “au juste”. – Un récit? Je commençais: Je ne suis ni savant ni ignorant. J’ai connu des joies. C’est trop peu dire. Je leur racontai l’histoire tout entière qu’ils écoutaient, me semble-t-il, avec intérêt, du moins au début. Mais la fin fut pour nous une commune surprise. “Après ce commencement, disaient-ils, vous en viendrez aux faits.” Comment cela! Le récit était terminé.

(…)

Un récit? Non, pas de récit, plus jamais."

 (Maurice Blanchot, La folie du jour, Paris, Editions Gallimard, 2002, p.29-30)

Primeiras palavras de "La folie du jour"

"Je ne suis ni savant ni ignorant. J'ai connu des joies. C'est trop peu dire: je vis, et cette vie me fait le plaisir le plus grand. Alors, la mort? Quand je mourrai (peut être tout à l'heure), je connaîtrai un plaisir immense. Je ne parle pas de l'avant-goût de la mort qui est fade et souvent désagréable. Souffrir est abrutissant. Mais telle est la vérité remarquable dont je suis sûr: j'éprouve à vivre un plaisir sans limites et j'aurai à mourir une satisfaction sans limites."

(Maurice Blanchot, La folie du jour, Paris, Editions Gallimard, 2002, p.9)

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