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ARESTAS

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Uma tarde...com água (2): esbanjar...

Nas fontes, as decorações eram evocadoras e mostravam toda a carga simbólica ligada à água. Tanto a água como o fogo eram apresentados à jovem esposa no "atrium" da casa. A água era símbolo do lar, princípio de vida e de morte, renascimento e purificação. Em Roma, evocava-se a água salvadora de Remo e Rómulo, que, segundo Tito Lívio, na sua História Natural, foram salvos graças às águas cheias do rio. Uma história fundadora semelhante a outras. Neptuno, deus do elemento líquido e das coisas escondidas, também era representado nas fontes ou nos jardins. Apareceram cultos em honra das ninfas das fontes: “Fontanalia”. Tantos símbolos e tantas festas ligados ao poder da água e em honra dos que a dominaram. Fizeram-se jogos grandiosos onde a arte técnica e a riqueza permitiram simular o mar e dar lugar a esplêndidos espectáculos para o povo. César, Augusto, Nero e Tito, todos mostraram o seu poder nestes jogos, onde se recriavam as grandes e vitoriosas batalhas, ou onde se assistia a magníficos espectáculos. Antes de aparecerem os primeiros banhos públicos, o romano lavava, quotidianamente, várias partes do corpo, mas só tomava banho de nove em nove dias. Quando foram abertos os primeiros banhos públicos, no decorrer do século II a.C., eram instalações privadas, onde uma parte mais alargada da estrutura do edifício era destinada a ser frequentada pelos homens e outra, mais pequena, pelas mulheres. Nas termas do foro de Pompeia, a piscina central podia ser frequentada por ambos os sexos, no entanto, as mulheres preocupadas com a opinião pública não se mostravam nesse local. No século II a.C., com o aparecimento dos primeiros balneários nasceu uma verdadeira cerimónia colectiva: os banhos. Se os romanos utilizavam pouca água para a limpeza da casa e da roupa, que era reduzida ao mínimo, pelo contrário gastavam muita para a limpeza do corpo. O banho, que se tomava à noite, acabou por ser um verdadeiro rito, pouco relacionado com uma autêntica preocupação higiénica. Na época de Tito, as termas eram um local de prazeres e ao mesmo tempo uma espécie de "café" e de "clube". Horácio dizia que, no seu tempo, qualquer um podia lavar-se em troca de uma quantia mínima, ou seja, por uma quantia que ele menciona por "quadrante lavatum". Mas esta taxa, a "balneaticum" podia ser paga por um benfeitor, que deste modo dotava o povo de instalações gratuitas. As mais antigas termas foram construídas por Agripa e tinham por modelo as termas de Strabies de Pompeia. As termas de Agripa eram completamente gratuitas. Já no seu tempo, existiam 170 termas em Roma e por volta de meados do século IV eram mais de 1000. Com as termas, os romanos desenvolveram uma grande paixão pelos banhos quentes e este descanso quotidiano era para todos: ricos, pobres e escravos. Algumas eram edifícios monumentais e polivalentes que atraíam uma multidão ruidosa. Séneca oferece-nos uma descrição realista do que eram as termas na sua época: “Aqui estou, no meio de um verdadeiro charivari. Moro mesmo por cima de um estabelecimento de banhos, agora tenta representar-te como a voz humana pode exasperar os ouvidos. Quando os campeões do ginásio exercitam-se mexendo os seus halteres em chumbo, quando fatigam-se ou simulam que estão fatigados, ouço-os lamuriar-se, cada vez que deixam ir o sopro contido, são assobios, um arquejo dos mais azedos. Se por acaso, tenho a sorte de ter um banhista passivo que só deseja a fricção popular, ouço o ruído da mão que bate sobre os ombros com um som diferente quer bata com a mão em cova, quer com a mão plana. Mas, se por acaso, chega um jogador de bola e que se põe a contar os pontos que faz, é para mim o golpe de misericórdia. Sem me esquecer daquele que procura querelas, do ladrão apanhado com a mão na bolsa, do homem que descobre que tem uma bela voz no banho. E a piscina, o grande ruído de água remexida a cada mergulho. Além das pessoas que, em lugar de outra coisa, têm entoações naturais, imagina o depilador dando de enfiada um latido de falsete, para assinalar a sua presença, e só se calando quando arranca os pêlos da axila, fazendo gritar outros no seu lugar. Depois, há o vendedor de bebidas com os seus apelos de diversas tonalidades, o vendedor de salsichas, o confeiteiro e todos os rapazes de taberna, cada um com uma modulação de voz característica para vender as suas mercadorias.” (Continua...) (Gazeta das Caldas, 8/07/05)

Uma tarde...com água (1): Quem verifica a pureza da água sobre um bronze de Corinto?

A água necessidade e mito. A água tão natural como a vida, tão indispensável e agradável. Agora, chega-nos, de algures, pelas inumeráveis ramificações de tubos com o desprezível sabor a cloro, com a sua dureza e macieza que controlamos por filtros, sais e soluções químicas. Aí, nessas ramificações e nós, nos segredos das canalizações perdeu-se a sua simbologia e pureza. Mas, em contra partida, tornámo-nos aprendizes feiticeiros. Que mistério, estas ramificações e bifurcações de tubos percorrendo casas, prédios e cidades inteiras! Já nem importa de onde vem, jorra das torneiras naturalmente! Nos supermercados, todas as garrafas e garrafões ostentam pureza, limpidez... Tantos tamanhos, formas e marcas! Apresentam-se-nos numa panóplia plástica cuja transparência se quer engrandecida pelos rótulos sugestivos. Impossível escolher! Seria necessário um dia inteiro para ler os rótulos todos, e saber porquê escolher esta com mais cálcio, ou esta com menos sódio ou nitratos! Os romanos também procuraram ter uma água própria para o consumo. Percorriam montes à procura do sítio certo para construir e cultivar. Para esse efeito, seguiam métodos e critérios rigorosos, alguns deles definidos por Vitrúvio, parâmetros que nós, filhos pós-modernos - ou será que já nem isso somos? - não podemos jamais aplicar. Vitrúvio dizia que para ter a certeza que a água é pura, tem que se observar o estado de saúde dos que vivem nos arredores da fonte, observar a transparência e, que uma nascente é sempre mais poluída quando musgo e juncos crescem à sua volta. A fonte tinha que ter um débito constante de Verão como de Inverno. Era necessário determinar a altitude exacta e apropriada para obter água realmente saudável. Ainda segundo Vitrúvio, uma água de qualidade não deixa depósitos de limo nem areias, no fundo do recipiente, em que foi fervida, não deixa marcas ao escorrer por cima de um bronze de Corinto e é quando a água é mesmo pura que os legumes cozem mais depressa... Mais depressa, sim a mesma pressa que sempre procuramos e que agora apagou da nossa mente toda memória do tempo que cada coisa tem naturalmente... Quem verifica a pureza da água sobre um bronze de Corinto? A água que os romanos bebiam era água "pura"ou "aqua mera". O pequeno-almoço resumia-se a um copo de água e a uma lavagem rápida. A água fresca servia para acalmar os excessos de comida, que aparentemente eram frequentes, nos faustosos banquetes descritos por alguns autores, onde até regurgitar a comida e voltar a comer era comum, ou para resfriar uma bebida escaldante. Nos Anais, Tácito conta-nos como foi com água fresca que, normalmente, ninguém provava, que Britanicus foi assassinado: “ Uma bebida demasiado quente, previamente provada e inofensiva, lhe foi apresentada, sendo difícil de beber a essa temperatura, é-lhe adicionada água fresca. O veneno espalhou-se em todos os seus membros com uma tal rapidez que as palavras e o sopro lhe foram arrebatados ao mesmo tempo”. Quantos outros morreram assim de forma tão inesperada e tão rápida? Por isso, Nero só gostava de beber uma água previamente fervida e resfriada na neve à qual ele chamava "decocta". A água fresca era também adicionada ao vinho aromático que continha plantas aromáticas e especiarias tais como: tomilho, canela, hortelã, serpão, rosa, madressilva, louro, absinto, rábano silvestre, e açafrão, e que os romanos herdaram, de uma certa forma, dos gregos, porque estes, segundo parece, também lhe acrescentavam cal e água do mar! Além de terem água fresca à sua disposição, os romanos preferiam beber a água tépida: “aqua calda”. Era, geralmente, uma decocção de ervas aromáticas. Para terem água morna sempre disponível, eles dispunham de aparelhos às vezes bem complexos. Séneca, no seu livro Questões Naturais, descreve-os como serpentinas, espécies de esquentadores com uma série de tubos em espiral. Nunca cheguei a ver estes objectos mas deviam de ser extraordinários! Imagino as cozinhas ou as casas de jantar onde se instalava um pequeno lar especial, cujos mais simples se chamavam: “milliarium”, e tinham a forma de pequenos marcos. Que engenho! Que astúcia! A água serviu o prazer estético, inútil e refinado para o conforto e o lazer dos mais favorecidos. Fontes com cenários evocando ao mesmo tempo um templo, uma gruta e um arco de triunfo. A arquitectura e a escultura puseram-se ao serviço do elemento líquido. Viam-se peixes e máscaras cuspindo água, conchas e Vénus nascida da leve espuma do mar, que segundo alguns autores gregos, Vénus ou Afrodite (a grega) teria nascido da espuma dos órgãos genitais de Ouranos, lançados ao mar por Zeus. (Continua...) (Gazeta das Caldas, 1/07/05)

Uma exposição uma tarde...Antonino Mendes: “Scripta Memoriae”

Os quadros de Antonino Mendes levam-nos aos primórdios da aprendizagem da escrita e até a uma reflexão sobre a escrita e sua ligação com a pintura, através de traços simples feitos com tinta de china que evocam jogos de sombras, onde o segredo estaria não tanto nos contornos escuros, mas no próprio fundo do suporte. Afastei-me da pintura para aproximar-me da escrita, mas já para Paul Klee a escrita e o desenho eram coisas muito semelhantes. Há várias possibilidades para o título da exposição. A palavra scripta vem do verbo latino scribo que significa traçar, escrever. Esta palavra deu lugar ao nome ou substantivo neutro scriptum. É este que está inscrito no título da exposição e significa linha, ou doze linhas, ou escrito. A palavra não está no ablativo porque não tem acentuação, logo está ou no vocativo – o que é pouco provável – ou simplesmente no nominativo plural. A palavra memoriae vem do substantivo feminino memoria, que significa memória. Aqui poderia ser singular e estar no genitivo ou no dativo, ou ser plural e estar no nominativo ou vocativo – o que não é provável -. Eis então as possibilidades: com o genitivo teríamos “escritas (os) da memória”, com o dativo teríamos “escritas (os) à/ para a memória”, com o nominativo plural teríamos “memórias escritas”. Contudo esta última possibilidade não parece muito provável devido à ordem dos vocábulos, logo ficamos apenas com as duas primeiras possibilidades. Através da observação dos quinze quadros apresentados na exposição patente ao público no Atelier – Museu António Duarte, tentei optar por um, ou outro título, ou os dois! Os títulos das obras estão todos em latim. Todos estão relacionados com os primórdios da criação, da escrita, da vida. O princípio de tudo que arrasta consigo as palavras evangélicas de São João: “No começo era o verbo”. Há um provérbio romano, conhecido pelo mundo inteiro e utilizado como título para alguns quadros: VERBA VOLANT SCRIPTA MANENT, cujo significado é de forma breve e resumida: as palavras ditas voam, as palavras escritas permanecem. Este ditado permaneceu até aos nossos dias, mas com o tempo adquiriu um significado diferente. Para os romanos a palavra dita oralmente tinha maior poder que a palavra escrita, considerada como uma palavra morta, inerte, fixada sobre o suporte, logo pouco acessível, enquanto que a palavra oral espalhava-se e tinha maior impacto e poder. Agora, na época de grande democratização do livro, a palavra escrita, gravada é perene, permanece, dura, perdura e até voa. Por um lado, há a pintura como memória escrita no papel ou na tela com tinta de china, relembrando os primórdios da escrita com pictogramas, ideogramas passando pela escrita cuneiforme até às primeiras tentativas alfabéticas. Por outro lado, há a própria aprendizagem da escrita que passa pela manipulação da caneta, lápis, lapiseira, pincel, pena, ou cálamo. São os instrumentos que se apresentam como o prolongamento da mão e que evocam a dor no pulso, a tensão dos dedos no instrumento para traçar as primeiras linhas desajeitadas, tortas, os primeiros círculos, os primeiros quadrados e antes de tudo os “pauzinhos”, cuja arte consistia em alinhar linhas verticais de idêntico tamanho lado a lado, entre duas linhas ou pautas horizontais erigidas como suporte ou semelhante a pautas da escrita. Assim como antes da escrita alfabética havia a escrita cuneiforme, utilizada pelos Sumérios há cerca de 6000 anos, onde os símbolos já representavam palavras, antes da aprendizagem do alfabeto, há os “pauzinhos”. Juntando a representação aos títulos escolhidos para cada quadro, voltamos à escrita como ideia. À entrada, à direita, o primeiro quadro intitulado: Currente Calamo e, no prolongamento deste, a escultura: Scripta Manent II e I. Estas três obras parecem estar a “soletrar o pauzinho”na sua paciência de pau polido. Quanto ao início, o princípio de tudo, como o verbo, encontra-se no círculo, no oval, no ovo, linha que sempre começa e nunca acaba, o seu princípio juntando-se ao seu fim, que vemos nos quadros intitulados: Ab initio I e II, In Ovo e nos quadros intitulados Verba Volant I e II. Junto do verbo e da escrita há a pontuação que apesar de ter sido atribuída a Aristófanes de Bizâncio e de sempre orquestrar a fala, não era utilizada na escrita latina. Nos quadros, os sinais diacríticos são sinais separados, mas imprescindíveis para a compreensão da tecedura do texto, estes encontram-se nos quadros: In Aeternum e Ex Nihilo. São pequenos passos em torno dos quadros e se volto ao título diria “Escritos da memória”? (Gazeta das Caldas, 25706/05)

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