Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

ARESTAS

ARESTAS

Uma exposição, uma tarde...fotografias de Valter Vinagre

Imagem1bis.JPG
Uma tarde como esta, em que o frio se sobrepõe ao azul , estacionei o carro junto dos eucaliptos, enormes... Ainda o sol brilhava nas folhas cor de prata e entrei no espaço da ESAD. Determinada e segura fiz o percurso, entre seixos, até à entrada da galeria para ver a exposição de fotografias: Carta do Sentir, de Valter Vinagre. Entrei como se soubesse todos os caminhos, sem me atrasar, como se conhecesse todos os passos.
Num quadro branco, à entrada um excerto do texto que serve de prefácio ao livro . Lembro-me que as exposições organizam o seu espaço para começarem sempre por um lado, um lado pré-estabelecido, sempre o mesmo para todas, é como um código , mas não procurei saber. Deixei-me guiar. Dirigi-me para um banco, no meio do espaço, que acolheu o meu saco, enquanto me dedicava às imagens...
Viro-me e a primeira imagem que vejo é o coração suspenso na árvore e, mesmo atrás, a sombra inquietante semelhante a um corpo. Segue o tufo de erva que evoca o sexo de veludo de uma mulher, um sexo telúrico e belo e puro, ostentando aquela sensualidade que as ervas inspiram. Viro, novamente, os olhos para o coração suspenso ladeado por este tufo fértil, densamente poético. Lembro-me do percurso das imagens no livro e maior é a inquietação provocada por estas duas imagens lado a lado, confirmada pela presença do sofá desnudo. A paisagem de destroços e a colina, no último plano, seguem as curvas do sofá, como curvas de mulher. Há tantas curvas gastas neste sofá que acaba por mostrar o seu ventre prenhe e suas coxas redondas. São máculas profundas, estas manchas, quase invisíveis, que se destacam no sofá e que fazem eco ao vidro estilhaçado, como estilhaços de amor que nunca fora. Amor esmagado na terra junto das folhas de eucalipto e de mimosa, quiçá como pedaços de amor que nunca fora amor e depois do vidro frio, segue o sapato perdido na luta, perdido na fuga. Um sapato preto de mulher, entre ervas semelhantes a rosmaninho, revela os destroços da caminhada dolorosa que se confirma com a mala esventrada, terrivelmente, aberta e vazia, abandonada com tanta crueldade. É mesmo assim o fim de uma vida, de um sonho, de um amor que nunca fora amor?Regresso à mulher ausente, depois do sapato, é a mala de mão de senhora virada para baixo, esvaziada do seu conteúdo. Não queremos saber, esvaziada mesmo, a mala de mão de senhora está lá, toda aberta para o silêncio da caveira na erva e a doçura não resistiu a estas sombras de fumo. Tudo se esvai. Tudo é reduzido a cinzas. Cinzas é o que resta de amor que nunca fora amor. O tríptico das cinzas confirma o silêncio com os restos de tições, semelhantes a ossadas. Na circunferência adivinhada, que se prolonga fora da imagem, há uma história que se repete. A terra queimada, exibindo folhas caídas sobre os vestígios de um sacrifício próximo ou que avança a passos largos, anuncia o corpo queimado entre pele de árvore, cuja linha de demarcação se prolonga na fenda aberta. O horror começa com a cruz. O horror, cada vez mais delineado, segue com uma série de imagens de tamanho reduzido, onde o olho parece acercar-se do pormenor. Um marco assinala o tempo e o espaço, como uma cruz que aponta para o deíctico : aqui, que poderá ser em qualquer parte. Aqui e aqui e aqui também! Surge a boneca desmembrada, cabeça virada para trás, pendurada e de joelhos bem cerrados em posição de suplício, ladeada pelo peluche inocente, maculado de água suja que alguma vez limpou? Não. O arame farpado vem reabrir a ferida, esquartejando a boneca-mulher. Na curva do tronco está a dor, plástico e madeira corpo a corpo. Mais perto, a imagem do olho cego da boneca resiste, novamente, à doçura para anunciar a agonia das cuecas simples e brancas, pregadas ao chão, e dos colãs entre destroços. Aqui tudo acaba com as flores brancas, elas também, pureza amarrada na árvore. Como uma reiteração, outro marco anota o deíctico: aqui. Aqui onde o círculo de fogo poderia purificar, apenas restam os odores de um ritual sacrificial. As velas ainda estão a arder e nada acabou, tudo continua igual. Viro-me e vejo, num pilar, um túmulo-cama lugar de tortura. Do outro lado do pilar, como é de esperar algo, dou a volta, e surge a imagem, a primeira que não vi ao entrar, mas a primeira no livro, uma imagem a cores, poucas, mas são cores de uma cama desfeita, onde apenas a almofada esventrada esvaziada de lágrimas, de contos de amor que nunca fora ou de sonhos perdidos, e os lençóis em fuga relembram o que aconteceu ou o que começa.

Ana da Palma, Caldas da Rainha, Gazeta das Caldas,18 deFevereiro 2005

Links

ALTER

AMICI

ARGIA

BIBLIOTECAS

EDUCAÇÂO

ITEM SPECTO

VÁRIOS

Sapatos, Figas e Pedras

Arquivo

  1. 2018
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2017
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2016
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2015
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2014
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D
  66. 2013
  67. J
  68. F
  69. M
  70. A
  71. M
  72. J
  73. J
  74. A
  75. S
  76. O
  77. N
  78. D
  79. 2012
  80. J
  81. F
  82. M
  83. A
  84. M
  85. J
  86. J
  87. A
  88. S
  89. O
  90. N
  91. D
  92. 2011
  93. J
  94. F
  95. M
  96. A
  97. M
  98. J
  99. J
  100. A
  101. S
  102. O
  103. N
  104. D
  105. 2010
  106. J
  107. F
  108. M
  109. A
  110. M
  111. J
  112. J
  113. A
  114. S
  115. O
  116. N
  117. D
  118. 2009
  119. J
  120. F
  121. M
  122. A
  123. M
  124. J
  125. J
  126. A
  127. S
  128. O
  129. N
  130. D
  131. 2008
  132. J
  133. F
  134. M
  135. A
  136. M
  137. J
  138. J
  139. A
  140. S
  141. O
  142. N
  143. D
  144. 2007
  145. J
  146. F
  147. M
  148. A
  149. M
  150. J
  151. J
  152. A
  153. S
  154. O
  155. N
  156. D
  157. 2006
  158. J
  159. F
  160. M
  161. A
  162. M
  163. J
  164. J
  165. A
  166. S
  167. O
  168. N
  169. D
  170. 2005
  171. J
  172. F
  173. M
  174. A
  175. M
  176. J
  177. J
  178. A
  179. S
  180. O
  181. N
  182. D
  183. 2004
  184. J
  185. F
  186. M
  187. A
  188. M
  189. J
  190. J
  191. A
  192. S
  193. O
  194. N
  195. D