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ARESTAS

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A última fuga (3)

Tanta agressividade nas palavras quase cómicas que ouvira daquela mulher tão apressada e não havia ninguém no corredor para justificar tanta pressa, tanta raiva. Não havia razão nenhuma para dar lugar a estas palavras quase obscenas. Riu-se. Sentou-se na carruagem. Abriu a sacola de tecido colorido, pôs-se a ler o jornal. Como sempre, tudo seguia um ritmo e um caminho para a perdição. Virou as páginas e leu “Sexagenário morreu no momento da sua última fuga. Um homem de sessenta anos foi encontrado morto nas escadas do prédio, onde habitou durante 35 anos quando se preparava para a sua fuga anual(...) O coração não terá resistido.”As pessoas entravam e saíam da carruagem, ao ritmo rápido de uma manhã de um dia de semana. Devagar Valentim acabou de tomar o pequeno-almoço. Levantou-se da cadeira e dirigiu-se novamente para o quarto. Sentou-se à beira da cama. Como é o meu dia de hoje? não me apetece sair da semi-penumbra do quarto. Se pudesse ficar em permanência na meia escuridão e descansar, dormir sem dormir, de olhos bem abertos, mas no silêncio mais absoluto... olhar para o tecto e encontrar aí, na brancura do tecto, alguma resposta. Azia... tanta azia, só pode ser esta terra, esta cidade de loucos, sem tempo para pousar os pés no chão, devagar, mesmo devagar. Matilde... infeliz. Se tivéssemos vivido numa pequena aldeia qualquer, ou na terra, sim, mesmo lá na terra, a vida teria sido mais feliz...riria e teria amigos, muitos amigos, como nos tempos em que andava descalço pelo campo. Tempos desaparecidos, só não os esgotam a memória. Agora esta dor latente, esta azia... um futuro... fala-se de um futuro comum no amor, algo para construir juntos. O amor... Tivemos um filho. É assim que se constrói o futuro do amor? O que é a construção de um futuro no casal? Um filho? uma casa na terra? Que sei eu do futuro. Sei que vou morrer, como toda a gente... Deve ser isso, o nosso filho é o futuro. A Matilde deve ter razão. A Matilde fala em fazer a diferença... Fazer a diferença? O que é que faz a diferença? O amor? Que aconteceu ao tempo do carinho e da ternura? Sou igual, apenas mais velho, mais gordo, mas igual. O trabalho na fábrica não era duro, apenas a rotina tornava as coisas cansativas e fastidiosas. Hoje era dia de folga, mas, mais logo, ao fim da tarde, tinha que ir fazer a limpeza em três grandes escritórios com a Matilde. Aquilo sim era trabalho, mas ganhava-se bem, podia-se telefonar à borla e sempre se trazia uns cadernos, uns lápis, lapiseiras, canetas, borrachas para o Mário, além disso tinham direito a férias com vencimento e outras pequenas regalias no Natal. Era cansativo, sobretudo para a Matilde. Tem tanta força a Matilde, nem sei onde vai buscar tanta energia. O telefone tocou. Valentim? não te esqueças de vir ter comigo ao escritório... Não, não me esqueço... Olha, não te esqueças do detergente... está no armário... Não, Matilde não me esqueço... até logo... Sim, Matilde, até logo. Levantou-se. Puxou os lençóis, bateu levemente sobre a almofada, como para sacudir um pó inexistente, ou um sono que permaneceu na fronha azul. Olhou novamente para o tecto e pareceu-lhe tão baixo, tão próximo do chão, era quase impossível respirar. Lembrou-se de uma história que lhe contara um amigo há muitos anos, onde um apartamento vai diminuindo, diminuindo tanto que já nem tem espaço para deixar viver. Pegou num pequeno saco de viagem, por cima do armário. Coloco-o na cama. Abriu-o e sentou-se a seu lado. Valentim estava a pensar em quantos pares de meias precisará, quantas cuecas, calças... Partia por pouco tempo... duas semanas eram suficientes, quiçá nem isso. Três, sim... Parecia um bom número. Três pares de meias, três cuecas, um par de calças, duas camisas e uma camisola. Arrumou as roupas no saco e saiu de casa. Fechou a porta sem saber para onde ia. Antes de sair do metro, a mulher ainda jovem passou os olhos pelo jornal e leu novamente: “Sexagenário morreu no momento da sua última fuga. Um homem de sessenta anos foi encontrado morto nas escadas do prédio, onde habitou durante 35 anos quando se preparava para a sua fuga anual (...) Valentim Moreira vivia com a sua esposa e filho, mas sofria de depressões passageiras que o levavam a fazer fugas anuais de cerca de uma a duas semanas. (...) A família e os vizinhos já estavam habituados a estes breves desaparecimentos. A polícia não vê razões para investigar o caso e os resultados da autópsia foram conclusivos. O coração não terá resistido. Fora a sua última fuga.” (Ana da Palma, Gazeta das Caldas,26/05/06)

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