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ARESTAS

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A última fuga (4)

Como sempre, antes de sair, Valentim fechou as janelas, verificou o gás. Saiu e fechou a porta. As chaves entraram na fechadura com aquele jeito eterno, um movimento ligeiramente ascendente...nem muito alto, nem muito baixo...é assim uma vida, assim feita de momentos suspensos, apenas Matilde não percebe...só ela não quer saber que é mesmo assim...não serve para nada magoar-se, não serve para nada vociferar ódios, rancores, não serve para nada esta luta quotidiana...há que permanecer até ao fim, há que viver...são suas estas palavras, mas... por que será que não as percebemos da mesma maneira? Já não sabemos falar um com o outro, já não temos palavras... . agora são gestos, movimentos e ruídos... substituímos as frases. Mesmo assim, tento desesperadamente, mas... ela está sempre apressada e em vez de falar acabo por fazer ruídos, dá jeito fazer ruídos, dizer onomatopeias, não cansa, isso pelo menos não cansa e toda a gente percebe ...percebe? no fundo também tenho pouco a dizer, que dizer? Como dizer o que concebo cá dentro? Como lhe dizer que, apesar de tudo, falo com ela todos os dias? Deu duas voltas à fechadura. Ficou parado diante da porta, ainda com as chaves na mão, depois com o pé endireitou o tapete e sacudiu um cabelo da manga. Dirigiu-se para as escadas. Será que me esqueci da linguagem... algum dia falámos? será que chegámos a falar? De quê? não sei, não me lembro...não guardo nenhuma memória de ter falado com a Matilde...ao início não era preciso falar, percebíamos tudo sem dizer nada...no fundo agora também...quase...agora o que importa são aquelas coisas práticas e necessárias... os produtos para a limpeza, o lixo, o pão, as compras...tudo o que menos importa. Ai! é tão fácil ser preguiçoso com as palavras...mesmo assim, eu falo, pois aqui dentro sei falar. Se pudesse fazê-lo em voz alta...ela iria perceber? Será que ela iria perceber o que eu lhe digo? E... o que é que lhe diria? Ainda tenho algo para lhe dizer? Não sei, não importa... mas tenho ainda muito para lhe dizer...vergonha... sinto vergonha, tanta vergonha daquelas coisas que lhe digo em segredo, sinto medo da retaliação que faria se dissesse...se um dia chegasse perto do corpo distante da Matilde...e dissesse... minha princesa, vem descansa... anda cá, vou pentear o teu cabelo...olha vou esfregar as tuas costas... deixa-me espalhar o creme...Ai! até já posso ouvir o seu riso de escárnio, as suas palavras amargas, nada, não há nada a fazer... Ai Matilde, Matilde, porque fazes pouco de mim Matilde? Valentim pós as chaves no bolso do casaco com gestos estranhamente carinhosos e demorados, como se pudesse decompor cada instante do movimento, semelhante ao que faria uma câmara lenta. A mão entrou lentamente no bolso do casaco e deixou as chaves. Como sempre, parou um instante no patamar para ouvir os ruídos do prédio. Vida, ainda há vida possível, depois disto? Depois deste tempo todo? É bom ouvir a vizinha a chamar o gato com esta ternura, com esta dedicação. Matilde não gosta, nem do gato, nem da vizinha. Diz que é só mariquices, diz que não faz sentido tratar um gato como se fosse uma criança. Matilde diz que os animais não têm sentimentos como os homens; diz que sentem a fome, o calor, o frio e pouco mais. Não sei, porque vezes...sim por breves instantes, não me importava ser o gato da vizinha. Valentim começou a descer as escadas lentamente, podia sentir o peso do corpo em cada pé. Subitamente, o gato passou entre as suas pernas ao longe ouvia uma voz doce e carinhosa...bichinho anda cá, anda beber o teu leitinho...bichinho...bi...chinho... Valentim caiu, foi longa a queda, nunca mais parava. Caiu pelas escadas fora. Ao longe ouvia-se bichinho anda a mamã...anda beber o leitinho...onde andaste a noite toda? Olha para ti!
(Ana da Palma, Gazeta das Caldas 3/06/06)

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