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ARESTAS

ARESTAS

Isto não é publicidade!

Quando tudo parece estar virado do avesso, a perplexidade invade-nos com o silêncio das palavras. Enquanto continuam a fazer de nós ruminantes infatigáveis de imagens e ébrios confundidos de sons, vamos engolindo vertiginosamente e esquecendo quase irremediavelmente um léxico profuso e diverso. Deve de ser essa a grande mudez dos nossos tempos!

Estamos tão habituados às imagens que por vezes os nossos olhos cansados esmagam-se nos ecrãs dos nossos computadores e televisões, nos painéis sabiamente colocados nas bermas das estradas, nas fachadas dos prédios, no papel dos jornais e revistas dizendo-nos que já não há esforços a fazer, tudo está tão disponível que quase nem precisamos ver. É assim que o cérebro confundido já não liga, já não funciona com a devida atenção, com aquela presença rápida sempre tão necessária a uma sociedade atenta.

Entre todas as outras imagens que evidentemente passaram por mim houve uma que me marcou. Há alguns dias atrás, estava a tomar café depois de ter almoçado. No repouso de mim, naquele momento em que a digestão toma conta do nosso estômago, vazei o açúcar na chávena e fiquei com a embalagem na mão. À partida, o que via na embalagem, não era nada de muito diferente de todas as outras publicidades de que sofremos os ataques contínuos, mas neste caso devia de estar particularmente sensível, receptiva, ou desprendida de qualquer dever, ou solicitação para questionar-me sobre o que realmente via, sobre aquilo que me davam a ver numa simples embalagem, aquela que podem admirar nesta reprodução frente e verso do pacote de açúcar.

Trata-se de uma publicidade para um dos festivais estivais, neste caso, como podemos ler no pacote, o festival de Paredes de Coura. Verificamos que este encontro musical tem o patrocínio da Heineken, logo não é de estranhar a presença das cápsulas de cerveja dentro do ninho, ou no canto inferior esquerdo da outra imagem. Quanto à presença do ninho, dos ovos e do pássaro, não sei, não descodifiquei, mas deve de haver alguma explicação. Do outro lado, vemos umas colunas revestidas de uns enormes chapéus encarnados com pintas brancas. Estes chapéus são de cogumelos chamados amanita muscaria. É uma espécie de cogumelo que cresce aos pés de algumas árvores como os choupos, os coníferos, pinhos e pinheiros, no final do Verão e sobretudo no Outono sobre terras tanto calcárias como cristalinas. O seu chapéu vermelho vivo pode atingir entre 6 a 20 centímetros de diâmetro. Pela informação que recolhi é uma espécie venenosa produzindo um tipo de intoxicação que provoca distúrbios nervosos, ou ainda um estado de ebriedade aparente, etc. Não é um cogumelo perigoso, mesmo assim depende sempre das quantidades ingeridas. Esta espécie de cogumelo é consumida em Itália impunemente. Era e ainda é em certos sítios utilizada para matar moscas. A substância tóxica que só sendo consumida em grandes quantidades no homem produz o efeito acima descrito é contudo mortal para as moscas. Dizem que se coloca açúcar nos chapéus e que este atrai as moscas que ao entrar em contacto com a substância tóxica, morrem.

Aqui é que fiquei abismada. Como noutras circunstâncias, senti o engano, a inconsistência, a contradição dos nossos tempos. Pois, uns dias antes, tinha lido um artigo num jornal nacional a lamentar o uso e abuso de drogas e álcool nos festivais de música estivais e isto agora era para mim a prova irremediável de uma manipulação. Na verdade, a única coisa que me incomoda, não é tanto os jovens felizes por poderem fazer a experiência dos cogumelos, porque não me compete julgá-los, mas é esta publicidade tão óbvia ao consumo de “drogas” num determinado espaço. O que me toca é esta associação tão evidente entre um espaço frequentado pelos jovens, onde durante o verão podem conviver e ouvir música e, ao mesmo tempo, as políticas económicas do nosso pais associadas às lamúrias divulgadas na imprensa relativamente ao comportamento dos nossos jovens.  Isto é apenas só mais uma pequena prova que toda a ética é um deserto e que apenas os negócios prevalecem. É simplesmente escandaloso! Agora é preciso acordarmos para este tipo de abusos, pois aquele(s) que conceberam a publicidade não são inocentes, assim como a marca de açúcar que aceitou colocá-la nos seus pacotes.

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