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ARESTAS

ARESTAS

Aranhas e outras teias (1)

“Had she ever tried to convert any one herself? Did she not wish everybody merely to be themselves? And she watched out of the window the old lady opposite climbing upstairs. Let her climb upstairs if she wanted to; let her stop; then let her as Clarissa had often seen her, gain her bedroom, part her curtains, and disappear again into the background. Somehow one respected that – that old woman looking out of the window, quite conscious that she was being watched.”(Mrs Dalloway, V.Woolf)
Pegou nos óculos e sentou-se à janela. Abriu a gaveta de um móvel de madeira incorporado no vão da janela, onde estavam molhos de cartas organizados por maços com fitas de várias cores. Escolheu um maço envolvido com uma fita azul. Há muito que não recebia cartas, mas lembrou-se como era sempre tão agradável abrir a caixa do correio e descobrir os envelopes de vários tamanhos e cores. Dava-lhe sempre um prazer imenso receber uma carta, num envelope, com um selo, com palavras escritas no papel. De súbito, surpreendeu-se a imaginar aqueles que nunca vão conhecer o papel, aqueles que apenas terão páginas brancas virtuais, onde se inscreve a memória digital. Uma memória purificada, onde não existe nem rascunhos, nem hesitações; um registo de que só resta o estado definitivo da escrita, como único vestígio de palavras escolhidas, seleccionadas entre muitas outras, definitivamente, apagadas e perdidas numa memória inexistente, dificilmente, recuperável e que pode desaparecer num segundo, ou dissimular-se em pastas e ficheiros encaixados uns nos outros, como num abismo sem fim, naquela perenidade do papel que não se estraga, não amarelece, não guarda vincos, nem suporta emendas. No fundo, quando se trata de um texto definitivo pouco importam aquelas palavras que não foram escolhidas, mas, numa carta, todas as hesitações contam, porque todas transportam sentido mesmo as que riscámos desesperadamente para apagá-las, ou quase, do papel. Ficou assustada e feliz ao mesmo tempo. Abriu o envelope. Era o maço de cartas do Sérgio. Escolheu uma em particular, uma carta que parecia mais usada e que datava de 1964. Lembrou-se que no momento em que recebera aquela carta estava persuadida que o Sérgio se tinha enganado na data, mas não, esta como todas as que seguiram foram cartas perdidas nos correios que só chegaram vinte anos mais tarde, pouco tempo antes do desaparecimento do Sérgio no Petén. Desdobrou o papel e leu atentamente com um sorriso ainda óbvio e cúmplice, devido à lembrança do suposto engano na data e porque entretanto estava a viver no apartamento que ele tinha habitado 60 anos atrás. Começou a ler a carta em voz alta, como se fosse possível ouvir a voz daquele que a tinha escrito.
“Lisboa, 11 de Junho 1964, Querida amiga, depois de vários meses consegui comprar um apartamento nesta maravilhosa cidade. Foi um negócio perfeito, pois não estava à ser nada fácil conciliar o espaço que desejava e os preços que me pediam, mas está feito e podes desde já pensar em vir visitar-me. Sei que vais adorar. É um prédio antigo muito estreito, com janelas azuis. Ocupo os dois últimos andares e tenho uma vista sobre um edifício lindíssimo com um friso de azulejos feito de papoilas abertas, com um magnífico jardim que parece esquecido pelos homens. Da janela posso ver uma palmeira que carrega com ela um rebento de figueira (não te parece estranho uma figueira crescer aí?), uma nespereira com os seus frutos cor de laranja, mais atrás há um ginko (de que não consigo esquecer a folha em leque e de que guardo a memória de ter sido a primeira árvore a crescer depois das bombas atómicas sobre Hiroxima e Nagasáqui... É algo que nunca deveríamos esquecer! Como se houvesse uma esperanças depois do crescimento destas árvores) e uma série de trepadeiras. Daqui o jardim tem um aspecto selvagem quase abandonado, mas mesmo assim parece-me que alguém vem cuidar dele. Deste lado da rua, tenho sol toda a manhã. Do lado da cozinha, o sol da tarde ilumina um pátio com declives e patamares de plantas organizadas em torno de uma fonte. Sabes esta casa pertencia a uma velha solteirona que guardava tudo, ao ponto que nem tiveram a coragem de limpar quando me venderam o apartamento. Fiquei com todas as memórias desta mulher desconhecida. Se soubesse o trabalho que tive! O problema é que encontrei uma série de lembranças de que não me posso livrar facilmente. Fui trazendo as minhas coisas e juntando-as às coisas dela. Pouco a pouco, consegui limpar e esvaziar a parte de cima, o último andar, onde instalei o meu quarto, mas ainda tenho todo o resto para esvaziar, limpar e pintar. A casa não está propriamente suja, tem muitas teias de aranha, muito pó, muitos papéis e livros e, não sei bem porquê, mas custa-me deitar fora os vestígios deixados pela antiga proprietária. Precisava da tua preciosa ajuda! É pena não estares mais perto. Manda-me notícias, pois estou ansioso por saber como correm as coisas por essas bandas. Um grande abraço do teu amigo, Sérgio.”
(Ana da Palma, Gazeta das Caldas,9/06/06)

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