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ARESTAS

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Notas de leitura

Sobre:

Marc Crépon e Bernard Stiegler, De la démocratie participative. Fondements et limites, Paris, Mille et une nuit, 2007.

 

Um livrinho de 118 páginas sucinto e claro sobre um assunto, ou melhor umas palavras, duas, que têm vindo a inundar o nosso quotidiano revestindo uma proposta quase salvadora de não se sabe bem o quê, mas as palavras juntas parecem fazer sentido e são repetidas por aqueles que acreditam nesta nova fórmula. As duas palavras são: democracia participativa. Soam a tão pouco e a tanto ao mesmo tempo, juntas são ocas de sentido e na sua introdução a este pequeno livro, Bernard Stiegler sublinha o pleonasmo. É de facto assustador quando a palavra tão famosa, tão conhecida, aquela que fez o seu percurso, por vezes doloroso, no nosso mundo, nas nossas sociedades, isto é, a palavra democracia se associa a outra palavra que ao juntar-se de modo tão inoportuno vira tudo do avesso e faz nos pensar.

Como conceber a democracia participativa? Se é necessário acrescentar algo à palavra democracia quer dizer que algo lhe falta. Não há democracia? Ou melhor, já não há democracia? Quer dizer que aquilo que vivemos, já não é aquilo em que acreditamos? Num dicionário de filosofia democracia é muito simples, é apenas “o estado político em que a soberania pertence a todos os cidadãos, sem distinção de nascimento, de riqueza ou de capacidade”. Parece-me que esta questão tornou-se muito mais complexa, porque não podemos dizer que não vivemos num estado democrático e no entanto seria fácil encontrar os indícios do contrário.

Na primeira parte, introdução intitulada “Il n’y a de démocratie que participative. Bonnes et mauvaises raisons d’un pléonasme politique”Bernard Stiegler contextualiza o emprego da palavra por Ségolène Royal, dizendo que “não se trata de um conceito filosófico, ou político, mas de um conceito marketing”. Vejamos, a palavra democracia. Esta contém em si o povo e a decisão do mesmo, ou seja, se o povo decide quer dizer que participa de uma forma, ou de outra, são-lhe dadas as ferramentas legais para que possa participar, mas parece que outros tipos de ferramentas imiscuíram-se na vida do cidadão para o afastar da participação. Ora esta nova aliança remete para aquilo que temos verificado ao longo dos tempos, a abstenção, o abdicar de participar nas eleições, nas decisões por enojo, por cansaço daquilo que devemos referir como sendo, não a política, mas os partidos políticos. Não devemos esquecer que política vem também do grego politeia, isto é, a coisa pública, o que os latinos chamaram res publica e polis é a cidade grega, logo trata-se aqui de algo que remete para o habitante da cidade e para a sua acção no seio da mesma. O alerta de Stiegler é legítimo e já me causou alguma inquietação há uns tempos atrás, levando-me a contactar uns amigos para estarem atentos a tudo o que poderia ser suspeito de ir contra a nossa soberania. Bernard Stiegler põe em evidência vários pontos essenciais ligados à telecracia que identifica como sendo a ameaça de toda democracia e acrescenta: “ La démocratie participative, c’est ce qui constitue la condition de possibilité de ce que j’appelle moi-même un otium du peuple” (A democracia participativa é aquilo que constitui a condição de possibilidade daquilo eu próprio chamo o ócio do povo.) Esta ideia é bela e autêntica, posto que na verdade esses momentos de ócio podem constituir verdadeiros momentos de cidadania, mas o problema é que estes momentos de ócio são contaminados e deturpados por aquilo que o autor identifica como sendo as “indústrias de serviços” que acabam por apagar o limite entre otium e negotium. Stiegler apela a um verdadeiro ócio do povo saído da prática das novas tecnologias como um ponto de partida para um novo poder público.

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