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ARESTAS

ARESTAS

Aranhas e outras teias (2)

“How extraordinary it was, strange, yes touching to see the old lady (they had been neighbours ever so many years) move away from the window, as if she were attached to that sound, that string.”
(Mrs Dalloway, V.Woolf)
Voltou a dobrar a carta e colocou-a no envelope. Olhou pela janela, a frescura das primeiras horas da manhã desaparecera. Já era aquele momento de intenso calor, quando tudo parece estar definitivamente fixado, quando o suor exsude das paredes, como se fossem poros, e se espalha pela cidade, estendendo os seus múltiplos braços betuminosos numa pasta transparente viscosa e pegajosa que cobre tudo e todos. Era aquele momento em que o dia de sol intenso nunca parece acabar. O céu estava definitivamente azul. Não havia nenhuma brisa para aliviar as peles cansadas, nem as portas e as janelas abertas faziam corrente de ar. No bulício da cidade crescia um rumor contido e contínuo. Os carros continuavam de passar pelas ruas em procissões intermináveis disparando pelo passeio seus fumos enjoados. O pressentimento estranho de que algo de extraordinário iria acontecer durante a tarde assaltou o seu pensamento. O que podia acontecer nesta vida serena, sentada à beira da janela? Tantos anos passaram desde as últimas notícias que tivera do Sérgio. Pegou no envelope seguinte, observou-o, atentamente, como para ter a certeza que o número inscrito a lápis permanecia quase imperceptível. Era o número dois. Abriu. Retirou a carta. Abriu e alisou o papel com carícias repetidas nas dobras, nas manchas amarelas e nos cantos ligeiramente rasgados. De súbito, sentiu-se privilegiada por ter tanto papel na mão, como se fosse um bem precioso. Não fora tanto o papel em si, mas as palavras inscritas que constituíam um tesouro. Um tempo inscrito com palavras estranhamente presentes.
“Lisboa 11 de Junho 1964,
Minha querida amiga, acabei de te escrever uma carta que já coloquei no envelope, mas esqueci-me que ainda tinha muito para te contar e aproveito esta pausa na limpeza da casa para continuar. Desculpa, sei que isto não faz sentido nenhum, mas preciso de contar tudo isto e só tu podes perceber. De todos modo, querida amiga, tens bom remédio, podes sempre pôr estas missivas no lixo! Depois de arrumar as suas coisas na minha nova casa, sentei-me à janela durante uns minutos. Não sei porque razão, mas nunca houve uma janela que me atraísse tanto quanto esta. Passo pelo quarto e automaticamente o meu olhar dirige-se para esta abertura, como se fosse possível haver algo além da janela, sem que esta seja um espelho, ou um ponto de fuga para uma paisagem da alma. Na verdade do outro lado apenas existe a rua e o prédio que te descrevi. Deve ser porque se vê um grande pedaço de céu, um grande rectângulo azul convidativo. Entre todos os objectos de que não me consigo desfazer, há algo insólito para uma mulher daquela idade. O que descobri foi mesmo fascinante, como se estivesse a viver numa casa cheia de tesouros escondidos. Pois apercebi-me que a antiga proprietária passava grande parte dos seus últimos tempos de vida à janela (repara que até há, no banco, uma cova imperceptível e a madeira do parapeito está definitivamente usada! Imagina o tempo que o corpo aqui passou!) Perto da janela há num recanto constituído pela própria janela um pequeno móvel com gavetas. Ao início até tive algumas dúvidas, hesitei em abrir as gavetas. Descobri uma série de cartas, recortes de jornal organizados por temas e um gravador com as respectivas cassetes. Hesitei mesmo em ouvir as várias cassetes que se encontravam juntas ao gravador, mas depois de um dia de trabalho, depois de um dia de muito calor, sentei-me no banco da janela e pus-me ouvir. Amiga se pudesse estar aqui e escutar está voz que tanto diz, é assombroso! Comecei ontem a transcrever a voz, nem sei porquê, já tenho tanto que fazer! Mas parece-me uma tarefa importante, algo semelhante a um dever. Não te sei explicar, há coisas que fazemos por intuição. Junto aqui as primeiras transcrições.”
(Ana da Palma, Gazeta das Caldas, 16/06/06)

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