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ARESTAS

ARESTAS

Aranhas e outras teias (3)

“She parted the curtains; she looked. Oh, but how surprising! – in the room opposite the old lady stared straight at her! She was going to bed. And the sky. It will be a solemn sky, she had thought, it will be a dusky sky, turning away its cheek in beauty”
(Mrs Dalloway, V.Woolf)
Dentro do envelope, junto com a carta, havia uma folha de papel translúcida, semelhante a papel de seda, muito fina e amarelada, inserida entre o papel azul. Aí as palavras se sucediam apenas com o peso da palavra, com os silêncios e as pausas que a linguagem oral imprime ao discurso, como se Sérgio não quisera alterar nada ao som da voz gravada. Por momentos, parecia-lhe poder ouvir aquela voz simples, doce e quase rouca. Procurou no estojo um pequeno pano e tirou os óculos, lenta e meticulosamente, limpou um vidro, aproximando e afastando a armação, verificava atentamente eventuais vestígios de pó, ou de dedadas, depois limpou o outro. Quando voltou a colocar os óculos tudo lhe pareceu muito mais claro, mesmo a impressão difusa da memória tivera desaparecido. Muito perto, ecoava uma melodia repetida num piano, um exercício insistente como para encontrar o sentimento certo, como uma espécie de tensão entre o sentir e a realização do mesmo com os dedos. O que Sérgio lhe enviara consistia num discurso cheio de hesitações, mas límpido, íntimo e claro. Eram memórias e divagações de uma mulher, que parecia ter sido muito amada, muito querida, muito desejada e muito só. Uma mulher totalmente esquecida pelo tempo real, como se a sua presença fosse intemporal, como se tivesse que arcar com o peso de todo esse amor transparente e luzidio que a própria vida lhe ofertara, mas sem nenhum consolo palpável, excepto a janela, o banco à beira da janela e um gravador. Ficou novamente assustada com tanto peso, mas leu.
Primeira transcrição
“ que fazer...ontem o Paulo trouxe esta máquina... que estranho como soube? Como adivinhou que a minha mão tremia, que os meus dedos trémulos não conseguem agarrar a lapiseira... agora que sei...agora... mas ele soube simplesmente...isso...é isso que me admira sempre a revelação da intimidade sem palavras, como se houvesse uma sintonia implícita ...mesmo assim... enganamo-nos tantas vezes...mesmo assim... como sentir o Outro tão profundamente que sabemos sem uma palavra aquilo mesmo que nem suspeitávamos... mas que faz sentido?... não deveria pensar o que é esperado de mim com isto...esta máquina...se penso é o silêncio que vai ocupar esta cassete...o registo não vai servir para nada...registar...o silêncio? agora que sei que tenho que deixar esta casa... este espaço que era meu, só mais uns anos, só mais uns tempos...depois acabou... esta janela que acompanhou a minha infância, a minha adolescência, este meu refúgio tantos anos... quando nasci não me souberam pôr um nome...parece que procuraram durante dois anos...todos os membros da minha família materna tinham um nome para mim que era, automaticamente, invalidado pelos membros da minha família paterna...órfã de nome...assim... órfã...que estranho! anos complicados apesar do amor de que me rodearam...tanto amor! cada um me chamava por um nome eleito por si ...os anos passaram até um dia... vieram falar com os meus avós...tinha que ser registada... como podiam deixar passar tanto tempo sem me dar um nome...não importava muito naquele tempo, estava destinada a permanecer na escuridão... o meu destino era outro...como sabiam do meu destino...agora... só agora que sei que a minha vida não pertence a este sítio...agora que sei que tenho que deixar esta janela e a vizinha que vive no prédio em frente...esta mulher que me acompanha do outro lado da rua...esta janela espelho da minha, onde passa uma mulher seguindo o ritmo da sua rotina...esta vida como espelho da minha que vejo pela janela, com o olhar delimitado pelo quadro da minha janela...minha janela perpendicular à janela dela...apenas ligeiramente mais acima...pouco...muito pouco.. e, por outro lado, delimitado pelo quadro da sua janela...janelas sem cortinados, cheias de vida, límpidas quase transparentes... esta minha interlocutora secreta e silenciosa de quem sei tudo no espaço da janela...falo para dentro e a rapidez das coisas por dentro acabam por invalidar a enunciação...mas à janela posso olhar para fora, para ela... e é como se estivesse a rever a minha própria vida...”
(Ana da Palma, Gazeta das Caldas,30/06/06)

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