Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]

ARESTAS

ARESTAS

Inmemória. O olhar de Zulma Recchini sobre Moçambique.


Recordar é viver, Moçambique. Zulma Recchini

 

 

Guardamos por dentro aquilo que acontece à nossa volta.

A ideia de que sem memória não há História está entranhada. Sim, todos podemos concordar com isto, se considerarmos a História como sendo um condensado, ou uma recolha, das histórias colectivas incluídas nas datas dos grandes acontecimentos em todas as áreas do conhecimento e da vida dos Homens. Todos podemos conceber cada indivíduo, com um papel mais ou menos importante e reconhecido na História, como determinante para a memória colectiva e o fazer da História. A questão da memória é algo que me toca profundamente (o adverbio não é inocente), pois toda memória deixa rastos mais ou menos evidentes, mais ou menos registados e não só no que concerne as estórias, mas também a língua, a linguagem, os vestígios gravados, ou inscritos, perenes, ou não, que os Homens vão semeando.

 

O título desta fotografia da fotógrafa argentina,  Zulma Recchini é, como vem inscrito na parede, “RECORDAR É VIVER”. Por um lado, um título semelhante também remete para a ideia da memória, se bem que noutro domínio, noutro contexto, posto que a memória colectiva juntamente com o registo da memória faz a História. Contudo estas palavras evocam não só um apelo, como um processo demorado que se vai construindo, tal como é sempre o processo complexo e demorado do recordar, ou do contar memórias.  No contexto dos países africanos, antes das palavras no papel, na parede as estórias sempre foram circulando pela voz dos “griots” e sempre se inscreveram no chão, sendo este chão a Terra.

O que é fascinante nesta imagem é precisamente o efeito de espelho triplo que acaba por se aliar de forma exacta às palavras. Mas o que me atraiu, aquilo que, retomando as palavras de Barthes, eu poderia chamar punctum, foi, principalmente, não poder distinguir o rosto da mulher encostada à parede. Foi precisamente aquilo que não tinha importância, dado que o rosto da mulher encostada à parede não é imprescindível para ver a imagem e perceber as palavras inscritas na parede, mas aquilo que procurei desvendar, sem conseguir fazê-lo, que fascinou o meu olhar. Foi ter procurado o rosto desta mulher apesar de acreditar que não importava ver lhe o rosto. Dir-me-ão que inconsistência! Que contradição! Mesmo assim, podemos concordar que não importa ver o rosto desta mulher, porque as palavras na parede preenchem o espaço vazio deixado pelo rosto que permanece na escuridão. Voltando às palavras inscritas, sei e acredito que estando demasiado próxima, demasiado envolvida com as palavras, a escolha desta imagem não é inocente dado que carrega consigo, não só palavras, mas também uma frase com um significado bem definido. Mesmo assim, há nesta imagem algo mais que as palavras inscritas que deram vida ao título da fotografia.

Há nesta imagem dois planos muito próximos e outro que ecoa os dois primeiros. O primeiro põe em evidência algo que está ligado a toda uma temática especificamente africana: a terra, a terra mãe: a árvore a crescer no chão da imagem. O secundo e mediador é constituído pelo pau e o corpo adossado à parede, o último é o desenho na parede que relembra o secundo que nos reenvia para o primeiro. O olhar vai e vem num tema que remete sempre para a terra. É um tema presente em todas as obras de arte africana, independentemente dos géneros e dos media escolhidos. Reencontramos este tema tanto na literatura, como no cinema, na pintura, ou na escultura. O tema da terra mãe predomina a paisagem artística africana, o humano aparece quase sempre subordinado ao espaço, simplesmente, porque é este que predomina na realidade da África negra.

Ana da Palma

Links

ALTER

AMICI

ARGIA

BIBLIOTECAS

EDUCAÇÂO

ITEM SPECTO

VÁRIOS

Sapatos, Figas e Pedras

Arquivo

  1. 2020
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2019
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2018
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2017
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2016
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D
  66. 2015
  67. J
  68. F
  69. M
  70. A
  71. M
  72. J
  73. J
  74. A
  75. S
  76. O
  77. N
  78. D
  79. 2014
  80. J
  81. F
  82. M
  83. A
  84. M
  85. J
  86. J
  87. A
  88. S
  89. O
  90. N
  91. D
  92. 2013
  93. J
  94. F
  95. M
  96. A
  97. M
  98. J
  99. J
  100. A
  101. S
  102. O
  103. N
  104. D
  105. 2012
  106. J
  107. F
  108. M
  109. A
  110. M
  111. J
  112. J
  113. A
  114. S
  115. O
  116. N
  117. D
  118. 2011
  119. J
  120. F
  121. M
  122. A
  123. M
  124. J
  125. J
  126. A
  127. S
  128. O
  129. N
  130. D
  131. 2010
  132. J
  133. F
  134. M
  135. A
  136. M
  137. J
  138. J
  139. A
  140. S
  141. O
  142. N
  143. D
  144. 2009
  145. J
  146. F
  147. M
  148. A
  149. M
  150. J
  151. J
  152. A
  153. S
  154. O
  155. N
  156. D
  157. 2008
  158. J
  159. F
  160. M
  161. A
  162. M
  163. J
  164. J
  165. A
  166. S
  167. O
  168. N
  169. D
  170. 2007
  171. J
  172. F
  173. M
  174. A
  175. M
  176. J
  177. J
  178. A
  179. S
  180. O
  181. N
  182. D
  183. 2006
  184. J
  185. F
  186. M
  187. A
  188. M
  189. J
  190. J
  191. A
  192. S
  193. O
  194. N
  195. D
  196. 2005
  197. J
  198. F
  199. M
  200. A
  201. M
  202. J
  203. J
  204. A
  205. S
  206. O
  207. N
  208. D
  209. 2004
  210. J
  211. F
  212. M
  213. A
  214. M
  215. J
  216. J
  217. A
  218. S
  219. O
  220. N
  221. D