Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]

ARESTAS

ARESTAS

Mas o que é essa coisa? Solidariedade?

 

 

            Aí! Sim que engrenagem diabólica! Vislumbramos os rolamentos monótonos dos dispositivos cíclicos e repetitivos organizados numa mecânica ensurdecedora, como um relógio em que o Tempo, enquanto Cronos, não se revela, não passa, como um lugar-comum, ou uma lengalenga que entorpeceu a língua dos nossos dirigentes ad aeternam. Assim, eles próprios relembrando, sob a forma de uma desculpa para explicar o status quo, as palavras de uma personagem de Lampedusa (O leopardo, 1959), repetem a famosa sequência: “ É PRECISO MUDAR TUDO PARA QUE TUDO FIQUE IGUAL”

            Mas, claro que há políticas de emprego! Todos sabemos que há! Só que não resultam. Não estão adequadas, ou são sempre as mesmas, concentram-se sempre no crescimento em vez de conceber regras e leis em termos da relação fundamental e trivial de pessoas/indivíduos e emprego. Reafirmo que não pode haver crescimento antes de favorecer o emprego estável e correctamente remunerado para cada indivíduo. Repito isto porque, novamente, o Relatório Conjunto sobre o emprego publicado e disponível online pelo Conselho Europeu em Fevereiro 2007 volta a colocar o crescimento antes do emprego, o que em termos linguísticos, é para mim revelador! Todas as políticas estão ao serviço da GFCT! (Grande Feira Contemporânea do Trabalho). Feira esta em que o trabalho contempla salários cada vez mais baixos. O trabalho encontra-se permanentemente negociado por meio de saldos excessivos que ocorrem desde os anos 80! Logo, pressentimos que algo está a falhar. Sentimos que o que é preciso é um verdadeiro estudo que reflicta a APP (Autentica Paisagem dos Precários). Será demasiado difícil a fazer, ou haverá apenas falta de vontade? Parece-me que isto seria perfeitamente possível alcançar a nível local e regional. Parece-me que, para poder ultrapassar esta situação, seria preciso analisar e confrontar os dados dos Centros de Emprego, os registos da Segurança Social e os recursos humanos das empresas, no que concerne o tipo de contratos que estabelecem com os seus empregados, com os seus precários, estagiários e/ou semi-precários, para estipular regras. É preciso haver regras adequadas acerca de uma eventual percentagem no recrutamento de precários, de temporários, de jovens etc. É preciso mais direitos e incentivos para todo o trabalho independente. Não se trata de incentivar apenas as empresas para fornecerem o “primeiro emprego”, o famoso SPE (Sempre Primeiro Emprego) pois, como sabemos, isto não resulta, apenas dá asas aos abusos e a ainda mais precariedade.

            Mas o que é essa coisa? Solidariedade? Ainda é possível solidariedade? Ainda é possível mobilizar as pessoas com base nos seus direitos (os famosos Direitos dos Homens), aqueles que citei anteriormente, sem que esta mobilização seja deturpada? Manipulada? A palavra solidariedade está gasta, tão gasta e utilizada de forma tão abusiva pelos media que so- li- da- rie- da- de? Não sabemos! Já não sabemos o que é verdadeiramente. Temos uma vaga ideia, Eis que regresso ao meu Gaffiot (Dicionário de Latim. O melhor que conheço até agora!). Eis então, a palavra solidariedade vem do vocábulo solidus, que significa(va) num primeiro tempo: denso, sólido, maciço, compacto, consistente, num secundo momento: inteiro, completo e no sentido figurado: sólido, real. Agrada-me essa ideia do real, porque remete para algo escorreito e sólido que com o tempo tem vindo a sofrer a erosão da era dos planos sociais, da sociedade do conhecimento, da dilaceração do espaço social, espaço de convívio e troca de ideias e ideais. Não me refiro à solidariedade esporádica e pontual, nem àquela que consiste em assinar um cheque para a Humanidade e seguir com a consciência límpida e tranquila. O que é mesmo solidariedade? Parece-me evidente que se trata de algo de que temos alguma dificuldade em conceber, dado que não é, definitivamente, algo que se pague, nem que se compre. Precisamos da solidariedade fundamentalmente pura aquela que implica a jurisprudência, ou seja, o dever que temos para com o Outro. Um dever humanista, baseado em princípios tais como a percepção dos problemas de grande parte dos cidadãos, implicando uma presença física, uma força moral, o apoio do ombro amigo e uma mobilização para discutir problemas numa perspectiva orientada para encontrar soluções. Implica o sacrifício do bem-estar aconchegado televisivo, implica estar presente, fazer corpo com o Outro. Há aquelas palavras-chave que não queria dizer mas que no fundo até inculcamos aos nossos filhos para que se possam proteger: juntai-vos, nunca deixai um amigo de parte, ficai sempre juntos, pois só assim é que têm menos hipóteses de se perderem, ou de algo mau acontecer.

 Sabemos desde sempre que a união é a nossa única força! Sempre foi! Entre pomos de discórdia e a boa metade da maçã (aquela que é referida como uma parábola ao conto de fadas tão famoso -Branca de Neve - no documentário que em breve poderemos ver na ESAD), sempre discutida, procurada e partilhada entre as personagens nobres, a elite, os governantes, os influentes. O que nos resta? (continua)


                     (  Ana da Palma, Gazeta das Caldas, 13 Abril 2007 )

                                                                                                         

Links

ALTER

AMICI

ARGIA

BIBLIOTECAS

EDUCAÇÂO

ITEM SPECTO

VÁRIOS

Sapatos, Figas e Pedras

Arquivo

  1. 2020
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2019
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2018
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2017
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2016
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D
  66. 2015
  67. J
  68. F
  69. M
  70. A
  71. M
  72. J
  73. J
  74. A
  75. S
  76. O
  77. N
  78. D
  79. 2014
  80. J
  81. F
  82. M
  83. A
  84. M
  85. J
  86. J
  87. A
  88. S
  89. O
  90. N
  91. D
  92. 2013
  93. J
  94. F
  95. M
  96. A
  97. M
  98. J
  99. J
  100. A
  101. S
  102. O
  103. N
  104. D
  105. 2012
  106. J
  107. F
  108. M
  109. A
  110. M
  111. J
  112. J
  113. A
  114. S
  115. O
  116. N
  117. D
  118. 2011
  119. J
  120. F
  121. M
  122. A
  123. M
  124. J
  125. J
  126. A
  127. S
  128. O
  129. N
  130. D
  131. 2010
  132. J
  133. F
  134. M
  135. A
  136. M
  137. J
  138. J
  139. A
  140. S
  141. O
  142. N
  143. D
  144. 2009
  145. J
  146. F
  147. M
  148. A
  149. M
  150. J
  151. J
  152. A
  153. S
  154. O
  155. N
  156. D
  157. 2008
  158. J
  159. F
  160. M
  161. A
  162. M
  163. J
  164. J
  165. A
  166. S
  167. O
  168. N
  169. D
  170. 2007
  171. J
  172. F
  173. M
  174. A
  175. M
  176. J
  177. J
  178. A
  179. S
  180. O
  181. N
  182. D
  183. 2006
  184. J
  185. F
  186. M
  187. A
  188. M
  189. J
  190. J
  191. A
  192. S
  193. O
  194. N
  195. D
  196. 2005
  197. J
  198. F
  199. M
  200. A
  201. M
  202. J
  203. J
  204. A
  205. S
  206. O
  207. N
  208. D
  209. 2004
  210. J
  211. F
  212. M
  213. A
  214. M
  215. J
  216. J
  217. A
  218. S
  219. O
  220. N
  221. D