Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]

ARESTAS

ARESTAS

Aranhas e outras teias(4)

"Fear no more the heat of the sun.”(Mrs. Dalloway, V.Woolf) Já a luz ofuscante diminuíra, deixando rastos de sombras alongadas, anunciando o fim da tarde. Parou o gravador e voltou a arrumá-lo na maior gaveta na parte inferior do móvel de madeira incorporado no vão da janela. Voltou a colocar a carta no maço envolvido com uma fita azul e arrumou-o numa bolsa púrpura em cima de uma pequena mesa, com a intenção de continuar a leitura mais tarde. Agora, a sombra do prédio em frente cobria quase a janela toda, deixando passar raios oblíquos de luz. Sentia-se exausta. Cada vez que lia as cartas do Sérgio, havia sempre algo de novo que surgia, algo que tivera passado despercebido nas leituras anteriores e um leque de pormenores esquecidos, como se a memória demorasse um certo tempo a juntar todas as coisas. Apesar de ainda não ter percebido tudo, parecia que cada vez a partida do Sérgio fazia sentido. Lia as cartas como se houvesse algo para elucidar. Tinha a certeza que no fim iria compreender. Sim, desta vez, depois de ter lido novamente todas as cartas, depois de ter novamente ouvido aquela voz, iria finalmente perceber a partida repentina do Sérgio. Cada vez ficava com a mesma sensação, aquela do narrador do Livro do Desassossego, quando descreve o momento em que desce do eléctrico exausto de tanta vida por ter apenas observado a gola bordada de uma rapariga sentada à sua frente. Cada leitura tinha exactamente o mesmo efeito, ficava exausta por ter a sensação de ter vivido muitas vidas. Como se não bastasse o seu próprio percurso, havia a vida do Sérgio e a daquela mulher que deixou tantos vestígios de outras vidas, todas elas enquadradas, todas elas delimitadas pelo vão de uma janela, semelhante a um quadro, ou a um espelho. Já passara da hora do lanche. Já procissões de carrinhos de crianças e batas às riscas verdes, vermelhas, ou amarelas iam pelas ruas de mãos dadas, prontas para entrar nos autocarros coloridos para seguirem para casa. Os sons da cidade tinham-se tornado mais ensurdecedores. Pôs as sandálias e preparou-se para sair. Verificou se o maço de cartas estava mesmo na bolsa e fechou a porta. Era o melhor momento para dar um passeio pelas ruas quase desertas. De súbito uma evidência apertou-lhe o peito, pouco a pouco, a cidade tornara-se praticamente inabitada. O espaço que antigamente permitia uma vida agradável, isto é, um prédio rodeado de um café, de uma merceeira, padaria, e de um talho, tinha desaparecido. O espaço de convívio, ou simplesmente de encontro com o Outro, quer este seja o vizinho vagamente desconhecido, quer o comerciante, fazia parte de um passado longínquo. As famílias tinham optado por habitar nos arredores, onde tudo estava organizado de forma a facilitar a vida activa, assim como os tempos livres. Todas as actividades estavam definitivamente organizadas, temporizadas e canalizadas de forma a não deixar espaço para devaneios, nem encontros fortuitos necessariamente perigosos para o equilíbrio e o bem-estar dos homens. Agora, no centro da cidade, diversos bancos, empresas, companhias de seguros ocupavam todos os espaços. Os últimos habitantes deste lugar eram idosos sem recursos, nem família, que viviam em prédios decrépitos e invadidos pelas plantas cada vez mais vorazes, resistentes e invasoras, e alguns marginais esquecidos. O centro começava a esvaziar-se pelas 18:30 e voltava a encher-se de gente a partir das 6 da manhã. Entre o fim da tarde e a manhã permanecia um mundo ausente e vazio. Pôs a mão na bolsa para sentir o papel nos dedos, como se fosse um reconforto absolutamente necessário. Era bom e fascinante ter ainda as cartas e poder ouvir ainda aquela voz gravada em bandas magnéticas, tudo fora tão cuidadosamente preservado. Não era comum naquela época, nos anos 60, ter um gravador. Fora com certeza dos primeiros. Agora nada disto fazia sentido, nem tinha qualquer valor. Agora todas as memórias dos homens estavam bem guardadas num sítio sem nome, num vazio estanque e seguro...mesmo seguro? Sons, imagens e palavras escritas ficavam gravados para uma eternidade desconhecida. Era da forma que se conseguia deixar um rasto indelével, como se tivesse sempre sido o alvo a atingir... Procurou lembrar-se em que sítio estava o livro de Dostoievski, aquele que descrevia um país onde vivia uma aranha do tamanho de um homem, que tinha à sua volta uma multidão de visitantes aterrorizados, todos aí na prateleira. Procurou outras teias e encontrou aqueles fios brancos, cinzentos e pretos deixados pelos habitantes errantes de Ersília no mundo de Calvino. Encontrou labirintos de fios tecendo vidas e laços, como ela tentando, desesperadamente, tecer a vida do Sérgio e da mulher de quem habitava agora a casa.
(Ana da Palma, Gazeta das Caldas,14/07/06)

Links

ALTER

AMICI

ARGIA

BIBLIOTECAS

EDUCAÇÂO

ITEM SPECTO

VÁRIOS

Sapatos, Figas e Pedras

Arquivo

  1. 2020
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2019
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2018
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2017
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2016
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D
  66. 2015
  67. J
  68. F
  69. M
  70. A
  71. M
  72. J
  73. J
  74. A
  75. S
  76. O
  77. N
  78. D
  79. 2014
  80. J
  81. F
  82. M
  83. A
  84. M
  85. J
  86. J
  87. A
  88. S
  89. O
  90. N
  91. D
  92. 2013
  93. J
  94. F
  95. M
  96. A
  97. M
  98. J
  99. J
  100. A
  101. S
  102. O
  103. N
  104. D
  105. 2012
  106. J
  107. F
  108. M
  109. A
  110. M
  111. J
  112. J
  113. A
  114. S
  115. O
  116. N
  117. D
  118. 2011
  119. J
  120. F
  121. M
  122. A
  123. M
  124. J
  125. J
  126. A
  127. S
  128. O
  129. N
  130. D
  131. 2010
  132. J
  133. F
  134. M
  135. A
  136. M
  137. J
  138. J
  139. A
  140. S
  141. O
  142. N
  143. D
  144. 2009
  145. J
  146. F
  147. M
  148. A
  149. M
  150. J
  151. J
  152. A
  153. S
  154. O
  155. N
  156. D
  157. 2008
  158. J
  159. F
  160. M
  161. A
  162. M
  163. J
  164. J
  165. A
  166. S
  167. O
  168. N
  169. D
  170. 2007
  171. J
  172. F
  173. M
  174. A
  175. M
  176. J
  177. J
  178. A
  179. S
  180. O
  181. N
  182. D
  183. 2006
  184. J
  185. F
  186. M
  187. A
  188. M
  189. J
  190. J
  191. A
  192. S
  193. O
  194. N
  195. D
  196. 2005
  197. J
  198. F
  199. M
  200. A
  201. M
  202. J
  203. J
  204. A
  205. S
  206. O
  207. N
  208. D
  209. 2004
  210. J
  211. F
  212. M
  213. A
  214. M
  215. J
  216. J
  217. A
  218. S
  219. O
  220. N
  221. D