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ARESTAS

ARESTAS

O cheiro do cardamomo e os mecanismos da desumanização

 

Uma pequena frase, entre muitas outras, no livro de Achille Mbembe, Políticas da Inimizade, despertou em mim algum desassossego: “(…) somos feitos de pequenos empréstimos estrangeiros, e, consequentemente, seremos sempre seres de fronteiras.”(2017, 54). A minha aflição nasceu da minha leitura onde, num primeiro e rápido pensamento, o íntimo e o externo se misturaram numa prolífica confusão e num turbilhão criativo de questionamentos, uma autêntica ebulição. Então, despi-me do prejuízo e do pressuposto que imprimia à palavra “fronteira”, i.e., uma linha fictícia que, se não intransponível, é pelo menos difícil de cruzar, excepto em territórios onde vivem pessoas privilegiadas, e.g., o espaço Schengen.  E, procurei as minhas fronteiras sem imaginar a complexidade e as relações entre os microcosmos que me descobri, então sim, reconheci-me assim mesmo num mosaico. Somos tão ricas e imperfeitas, feitas de tantas coisas que nem nos atrevemos a nomeá-las. Gostei desta conclusão, mesmo que possa vir apenas para me confortar na minha posição ideológica. 

Somos também aquele ser que nos leva a “comer os chocolates” (ou um substituto semelhante ao chocolate ou ao significado e aconchego que contem a ideia de comer chocolate) exactamente como a pequena suja da Tabacaria de Pessoa ou a comê-los todos, ou, pelo menos, a querer comê-los todos, como a criança na Viagem de Baudelaire: 

 

“Pour l’enfant, amoureux de cartes et d’estampes,

L’univers est égal à son vaste appétit. 

Ah! que le monde est grand à la clarté des lampes! 

Aux yeux du souvenir que le monde est petit!”

Parti da ideia de corpo enquanto território, cada corpo com as suas fronteiras que não são apenas a pele, cada corpo tocando nas fronteiras do Outro e vários corpos dentro de um território dentro de fronteiras. Para mim, as fronteiras sempre foram e permanecem um mistério, mas são definitivamente uma coisa que se cruza quer legal ou ilegalmente, quer voluntária ou involuntariamente. Dentro e fora. Mas as minhas fronteiras íntimas, essas, conheço-as e transgrido-as quando quero e me apetece, ou não. As outras, essas linhas fictícias e imaginárias, que, nos disseram, constituem os limites de um estado-nação, que só se concretizam por linhas desenhadas nos mapas ou que se encontram no terreno nos postos de controlo, nos postos de vigia com guardas armados de rostos inflexíveis e, no pior dos casos, muros como os que foram erigidos entre o México e os EUA ou às portas orientais e mediterrânicas da Europa, confirmam a intransponibilidade, a violência inerente ao rosto do guarda, ao betão armado e à falta de liberdade. Depois, temos as linhas que nem são fronteiras, mas que se erguem em muros sem portas. São muros sustentados pelo direito à autodefesa contra “os sem-lugar” que “não têm qualquer direito a ter direitos” (Mbembe, 2017, 34). É o eufemismo contido na expressão “barreira de segurança” que justifica militar e moralmente a mais extrema crueldade e violência e que se configura como um dos instrumentos visíveis da desumanização.

Quanto às fronteiras dos outros corpos, creio que é uma coisa menos nítida, mais difícil de explicar, é o imprevisto, ou o que acontece. Então, é isso que reconheci na mulher palestina, alguns mosaicos, ou parte deles, em comum, ainda que necessariamente diferentes, pressenti semelhanças naquilo que aconteceu nos momentos que partilhámos.

Cheguei a Ezbet Altabib, perto de Qalqilya, ao final da manhã, depois de uma viagem cheia de desvios e paragens. Num pátio acolhedor protegido do sol por uma parreira, crianças com um sorriso sôfrego ofereceram-me um café perfumado com cardamomo. Uma mulher começou a falar da confiscação de terras da aldeia, da destruição de casas, do abuso de poder pelo exército israelita, das detenções arbitrárias e de um emaranhado de arame farpado à entrada da aldeia, o futuro traçado de construção de uma barreira. Pouco a pouco, o pátio encheu-se de gente. Num ambiente calmo, quase silencioso, dirigimo-nos para uma clareira num pinhal, onde almoçámos um prato de saborosas lentilhas. Depois do almoço, entrei numa casa. Na sala, sentei-me no chão com várias mulheres de todas as idades, algumas com crianças nos braços. Recordo-me dos olhares simples e silenciosos que trocámos, qualquer coisa como um entendimento tácito. Fiz algumas perguntas tímidas, com todo o pudor que intuía na dor da situação desesperada. A cada resposta, em cada olhar senti uma tristeza ensurdecedora nestas mulheres simples de mãos fortes e roupas coloridas. Durante a tarde, arrancámos o arame farpado. Um pequeno gesto simbólico, porque toda a gente sabia que amanhã lá estaria novamente. Uma pequena acção que não passou despercebida aos soldados israelitas que apareceram rapidamente de dois lados, no campo mais abaixo e na estrada principal da aldeia. (…)

São fronteiras íntimas, aquelas que me deixaram o sabor amargo da profunda tristeza destas mulheres palestinas. São fronteiras fictícias e arbitrárias, aquelas que os soldados vieram defender. (…) 

Sigo o pensamento veloz que me assalta a mente continuamente em conexões, ligações, relações, extensões sem dar por isso. Regresso à frase de Mbembe que se enquadra numa crítica ao nosso tempo partindo de África, mas também partindo do mundo inteiro e num conjunto de reflexões em torno de “A saída da democracia”. Mbembe que concebeu o conceito da necropolítica, i.e., a subjugação da vida ao poder de morte, exercido soberanamente por um governo, partindo das reflexões de Foucault em torno da soberania e do biopoder, e nos diz que: “A forma mais avançada de necropoder não pode deixar de ser a actual ocupação colonial da Palestina”.(2017, 132) 

Regresso à dificuldade de chegar a Ezbet Altabib. Nesse dia, nenhum autocarro nos podia levar à zona de Qalqilya. Saímos de casa, no campo de refugiados de Aida, e fomos até à rua principal, Jerusalem-Hebron st. ou na versão inglo-palestina Al Qusd - Al Khalil main street. As linhas de autocarros sucediam-se de um lado e do outro. Pessoas por todo o lado, algumas hirtas e despertas, outras dormitando em velhas cadeiras de plástico ou de madeira, sentadas de lado, com o braço servindo de almofada por cima das costas da cadeira, junto do passeio à beira de um autocarro. Entre a azáfama das partidas, ecoavam as respirações cavas da sonolência. Entre as remelas de sono na calçada, antecipava-se a canícula deste dia de Julho com a neblina matinal sem horizonte.  Procurámos um táxi que nos levou até Beit Sahour e aí outro táxi até Ramallah e daí apanhámos outro até Bil’in. A seguir, fomos num carro com matrícula israelita, não me lembro em que termos isto foi arranjado, só sei que demorámos oito horas. Saímos de Belém às seis da manhã para chegar a Ezbet Altabib por volta das duas da tarde. Oito horas de viagem para percorrer cerca de 150 quilómetros. Passámos por barreiras dentro de fronteiras exíguas, um percurso tão longo num espaço tão pequeno! Confrontada com o mapa amachucado no meu bolso, perdi a noção das distâncias, só me ficou a noção do tempo, com todo o peso dos segundos, dos minutos e das horas. Com tudo isto percebi a fragmentação dos territórios palestinos e a segmentação dos colonatos israelitas, mas foi impossível conceber a totalidade do espaço. O espaço ficou reduzido ora a pedaços separados difíceis de ligar e trechos interconectados ou articulados com acessos restritos. E, nesta percepção kafkiana do espaço parecia que o ponto de partida era o ponto de chegada. Como conceber o ser num espaço sisifiano? A única coisa que aliviou a atmosfera sufocante foi o humor e a leveza da mulher palestina, semelhante a uma personagem de um filme de Elia Suleiman, que nos acompanhava. Na violência contida na divisão e repartição do espaço, tanto no seu aspecto administrativo e burocrático, como político e racial, onde existem zonas exclusivamente sob controlo militar israelita, zonas submetidas à lei militar, evidentemente autoritária, agressiva, prepotente e opressora reside mais um dos mecanismos de desumanização. (…)

Regresso à nudez da sala povoada de corpos sentados no chão e pergunto-me como chegámos a este ponto de distanciamento que nem nos permite identificar a fragilidade inerente a cada corpo? Mas não é só na fabricação de corpos separados, intocáveis, inodoros, lisos e aperfeiçoados segundo critérios preestabelecidos que reside o distanciamento que nos impede de ver a fragilidade e que nos permite identificar mais um dos mecanismos de desumanização.  Regresso à sala simples desnudada de móveis, objectos ou decorações, onde houve um encontro de peles na distância entre os sons, os cheiros, as mãos que se tocaram ao passar um copo, os olhares vivos, brilhantes ou contidos e de súbito todas as fragilidades ficaram expostas e encheram a sala toda. (…) Os muros não nos protegem, mas tornam-nos ainda mais frágeis, vulneráveis. (…)

No regresso, no saco de viagem, revistado três vezes no aeroporto Ben Gurion, trouxe cardamomo e, por vezes, consigo reproduzir o momento do copo de café com cardamomo que me deu uma criança de Ezbet Altabib à sombra de uma parreira. 

 

Ana da Palma

 

Estado do tempo

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 Praça do Marquês 157 - Porto  2018

 

incubadora de ruídos caseiros tais como o tear silencioso de onde dimanam as asas presas das moscas, melgas, mosquitos, traças

as vibrações luminosas das poeiras

as trepitações dos automóveis e das vidas que também passam

Solidariedade com Afrin

Solidariedade com Afrin
#PortoDefendAfrin
"Só as montanhas são nossas amigas"(ditado curdo)

No norte da Síria, numa região autónoma chamada Rojava, existem três cantões (Kobane, Jazira e Afrin) onde, desde 2012, a sociedade está organizada segundo princípios revolucionários, estabelecidos com base num projecto de sociedade sem estado, numa confederação democrática inspirada no municipalismo libertário, na democracia directa, na ecologia e na libertação das mulheres. Perante a iminente ameaçada do exército do Estado Islâmico (EI), a população organizou-se em unidades de autodefesa, entre elas as famosas e mediatizadas pelo ocidente Unidades de Protecção das Mulheres (YPJ). Esta luta motivou muitos indivíduos do mundo inteiro a irem para Rojava lutar contra o EI e agora contra a Turquia, a sua milícia fascista - Os Lobos Cinzentos - e os seus aliados jihadistas (a frente Al Nusra, o "Exército Livre Sirio" e o EI). O envolvimento internacional na região levou Rojava a tecer laços com outros países, instituições, associações e colectivos, no sentido de dar a conhecer a revolução em construção. Alianças mais comprometedoras foram estabelecidas, mas o povo da região já sabe que só as montanhas são suas amigas.

Independentemente das alianças que as pessoas de Rojava estabeleceram com potências perigosas, imperialistas e manipuladoras num contexto de luta contra o EI, queremos denunciar a ofensiva do estado terrorista, fascista e racista que é a Turquia, iniciada a 18 de Janeiro, contra as cerca de 500.000 pessoas que vivem no cantão de Afrin, mas também o silêncio conivente dos EUA e dos seus aliados no médio oriente, a retirada estratégica da Rússia, as armas vendidas à Turquia pela Alemanha e certamente outras jogadas imperialistas que em tempos se hão de revelar.

Não podemos calar o nosso grito de revolta perante a ameaça mortífera que enfrenta a região de Afrin. Queremos vociferar que as ambições imperialistas e os interesses capitalistas não cabem no nosso mundo. Os princípios de organização social sem estado ecoam nas nossas mentes e respondem aos nossos desejos de democracia, justiça e liberdade. A revolução de Rojava também é nossa, porque não queremos viver e não morreremos por uma abstracção impingida tal como a noção de Estado, muito menos de um Estado assassino como a Turquia e estados imperialistas interesseiros e manipuladores como os EUA, a Rússia e UE.

De longe só podemos apelar ao bloqueio das embaixadas/consulados da Turquia! De longe só podemos apelar ao boicote dos produtos vindos da Turquia, assim como dos acordos ou negócios com a Turquia. De longe só podemos apelar ao bloqueio das sedes de entidades/Estados ou instituições cúmplices ou encostadas ao seu profundo e conivente silêncio tal como a NATO, EUA, UE, Rússia. De longe gostaríamos de fazer corpo na fronteira entre a Turquia e Afrin. De longe, ou de perto, somos muitas e a viagem até Afrin não é assim tão longa!

Turquia fora de Afrin!
Viva a Resistência de Afrin!

Algumas poetas...
Porto, 19 de fevereiro 2018

Erva Rebelde nº2

 

 

Actualizado recentemente85-001.jpeg

O número 2 da Erva Rebelde está na rua em papel (no Porto:  Gato Vadio, Utopia, Casa da Horta e em Lisboa brevemente na Letra Livre, na Tortuga - Disgraça ...)! Depois de uma apresentação no Gato Vadio, agora vamos apresentar no Rés-da-Rua e em breve noutros espaços do Porto.

Este número dedica-se à revolução russa e encontra-se em pdf no blogue do grupo GERA 

Editorial da Erva Rebelde nº2

1905 ... 2017...

Eram 50
Eram 100.000
Eram muitas e nenhuma, mas nem Deus, nem Czar atormentariam os 2000 corpos de Odessa.
No meio da rua, gritavam Pão, Paz e Liberdade e no crepúsculo sombrio de uma vida camponesa de 35 anos, ao raiar do dia dormiam as 40 horas, a noite era branca e a manhã nunca chegou.
Eram 100 talvez 200.000, que nem Deus, nem Duma salvariam da repressão. Num surto de culpa, o amante poeta do povo berrou “Então o Oceano está vivo!”
Eram 1.000.000, não mais reformas, só as botas e os punhos erguidos das greves lavrariam a calçada.
Nem pão, nem botas, apenas 3 meses de armamento e nas trincheiras, a morte era branca e a manhã nunca chegou.
No arsenal, 100.000 armas vibravam ao rugir do povo. Chegaram com os poetas para cantar o Pão, a Terra e a Paz. Por uma salsicha e umas batatas os aedos indecisos entre

ocidente e oriente, entre herança e mundo novo, reviravam a linguagem e vendiam os versos famintos de uma dor
aqui
a noite foi longa e disseram que a manhã seria com Terra, Paz, Pão e Todo o Poder aos Sovietes. A noite foi longa e os poetas suicidaram­se.

Repetidamente, cada ano que passou 4100 bombas
1792 quilos de pólvora
200.000 cartuchos

32 armazéns de armas
21 laboratórios da liberdade
110 tipografias
73 cidades e mais...
40.000 anarquistas?
A noite foi longa e percebemos que “o poder não deve ser conquistado, mas destruído”.

Gisandra Oliveira

Passados cem anos, grande parte dos mitos do comunismo da Rússia soviética foram derrubados e as suas atrocidades desvendadas. Mas reduzir o que aconteceu na Rússia, no início do século vinte, a uma data em particular, a alguns nomes conhecidos e algumas decisões políticas descarta o importante legado da experiência de um movimento popular, da natureza da sua organização e práticas, do impacto que teve nos meios anarquistas e do consecutivo debate que se iniciou entre plataformistas e sintetistas, entre método insurreccionalista e método sindicalista. Talvez possa parecer anacrónico ou nostálgico, quiçá até será! Mas pouco importa ao desafio que se fez o colectivo Gera, porque lhe permitiu remexer na História para falar do pequeno povo, das suas lutas e mortes, revisitar um importante movimento popular e fazer uma recolha histórica dando relevo às anarquistas e aos anarquistas da Rússia desde 1880.

Entendemos a revolução russa como uma mudança profunda que se construiu no seio da sociedade e que se desenvolveu a partir do final do século dezanove. Foi um movimento popular de descontentamento e sofrimento com aspirações à liberdade e dignidade que levou ao movimento insurreccional contra o poder do Czar em 1905 e à sublevação popular que antecipava alterações profundas nas estruturas sociais, políticas e económicas em Fevereiro de 1917.

Assim, este número da Erva Rebelde dedica­se exclusivamente ao tema da revolução russa, não para trazer novamente os grandes nomes da História, mas para visitar os outros nomes destas histórias da História. Aquelas pessoas que se envolveram nas actividades anarquistas de 1903 a 1917, aquelas que morreram em 1905, as que foram fuziladas, assassinadas, deportadas, exiladas, as que voltaram com a miragem de uma possibilidade em 1917, as que morreram na Grande Guerra 1914­1918 ou na guerra civil de 1917­1921, todas as que pereceram ou sofreram por acreditar num ideal anarquista. Este número da Erva Rebelde apresenta textos de reflexão, traduções, notas de leituras, mas também uma separata composta apenas por mulheres que empreenderam um trabalho de investigação e escrita criativa sobre anarquistas russas, intitulada “O Manuscrito encontrado na Utopia”. Contém, além disso, um DVD com documentos (uma cronologia, uma bibliografia, um índice biográfico e outros textos), várias pastas de imagens (fotografias, gravuras, mapas, pinturas, retratos), vídeos e ficheiros de som.

 

Capa e contracapa (montagem com pinturas da autoria de Ana Kennerly) de "O manuscrito encontrado na Utopia", uma separata escrita por mulheres em torno de mulheres russas anarquistas (brevemente disponível online). 

capa e contra manuscrito_final.jpg

Tradução: Carta para Ghuta

 

Carta para Ghuta

 

Houve uma revolução na Síria, é essa a evidência que toda a geopolítica de café, todas as conspirações imundas de teclado negam há anos. Esta cobardia de tasca que se espalha sem dificuldades desde o topo do Estado até ao coração de uma certa extrema-esquerda, não será mais esquecida do que a dignidade dos habitantes de Ghuta insurgente.

 

Querida Ghuta,

 

Escrevo-te com o coração cheio de vergonha. A vergonha de pertencer a duas comunidades, cobardes ou cegas, que te abandonaram.

 

Para começar, faço parte deste país que se chama França. Este país que se quer aquele dos direitos do Homem e da fraternidade. Este país que tem uma história em comum com a tua e da qual te conseguiste libertar pela força. Portanto, um país que te conhece bem. No entanto, em 2008, este país convidou o teu tirano Bachar ao seu desfile do 14 de Julho. Este mesmo Bachar que, um ano depois, armou os seus aeroportos com armas químicas prevendo a tua rebelião. A França também é um país de tradições. A prova é que já abrigava - e ainda abriga - o tio criminoso contra a Humanidade, Rifaat al-Assad, o açougueiro da prisão de Palmyra e autor do massacre de Hama. Lembras-te, este massacre ocorreu em 1982. Quatro anos depois, o presidente francês entregava-lhe a Legião de Honra por "serviço prestado à nação".

 

Deste país que é meu, esperava que te ajudasse, quando te revoltaste. Porque de agora em diante, já não podemos fingir que não conhecemos o verdadeiro rosto de Bashar al-Assad. Sublevaste-te, querida Ghuta, pela tua liberdade, pela tua dignidade, e, agora, estás em pé, depois de 40 anos de submissão aos Assad. Foste maltratada, torturada, espancada, gaseada, bombardeada, estuprada e esfolada pelo regime, mesmo assim, aguentaste-te e ficaste em pé. Com o sabor da liberdade na boca, já não te podias sujeitar ao tirano. Porque não se regressa dessas coisas. E doravante para ti, era a liberdade ou a morte. E estávamos tão orgulhosos! Ghuta livre, Ghuta digna, Ghuta em pé! E vivemos contigo a esperança de te ver finalmente livre do açougueiro de Damasco e seus shabihas. Não precisavas de ninguém para te reconstruíres e repuxar a barbárie. Mas o regime atacou com força, e quando a nuvem de gás sarin te atingiu no verão de 2013, chorámos contigo. Essas imagens de ti, das tuas crianças agonizantes, convulsionadas, sufocando rasgaram lágrimas nos nossos corações. A nossa raiva era ilimitada e Bachar acabara de cruzar a linha vermelha. Então esperaste. Depois de contares as tuas 1300 mortes, refugiaste-te nos edifícios e esperaste que chegássemos. Nós, que prometemos intervir se Bachar fosse longe demais. Pensavas: “Os franceses vão chegar!”. Esperaste vezes sem conta. E nunca chegámos. Esperávamos poder alcançar-te para te tirar das garras do carrasco, mas não o fizemos. E odiámo-nos por isso. Odiámos todos os que tornaram possível essa traição. Com um nó na garganta não conseguíamos aceitar que fosses abandonada ao teu destino. Com um nó estômago e raiva no corpo, levantaste-te e continuaste a lutar e organizaste-te para viver apesar do estado de sítio permanente. Do nosso lado, continuamos a defender-te aqui em casa.

 

Mas o campo político ao qual pertenço não conseguiu se destacar na ocasião. Este campo, que defende os valores da igualdade, da liberdade dos povos, da autodeterminação, da democracia, este campo não soube ver em ti a encarnação de todas as ideias que defendia. Aquele que não te conhece, apenas vê as bandeiras, os símbolos e as palavras. Não percebe que o teu léxico não é o mesmo que o nosso, mas que o teu coração e as tuas ideias são-nos comuns. Não percebe que estás apaixonada pela liberdade e que tudo o que queres é viver com dignidade. Esta esquerda que não te conhece, assustou-se e virou-te as costas. Comparou-te àqueles contra os quais lutaste e expulsaste: os membros do Estado islâmico. Ultrajou-te, ignorou-te e sujou-te. Quando a tua irmã Alepo caiu, uma certa esquerda até ironizou sobre o seu destino. No entanto, esta esquerda hipócrita apaixonada por si mesma, de que mais precisa? Esta esquerda que tem constantemente a revolução na ponta da língua, não viu que havia uma revolução popular autogerida, muito real, debaixo dos seus olhos, o teu único erro foi ignorar o campo lexical dela? E, no entanto, não havia nada mais libertário que os teus comités locais, os teus tansiqiyya al-malhalliyya, que a autogestão de todas as tuas infra-estruturas, que os teus civis organizados perante a escassez, que as tuas associações de mulheres para se ocupar dos órfãos, que as tuas escolas finalmente livres de escrever os seus próprios programas, que as tuas liwa e katiba que libertam as tuas aldeias e cidades de Al-Nusra e Daesh à patada? Mas não. Essa esquerda, esconde-se por detrás do anti-imperialismo e da Realpolitik. O seu anti-atlantismo primário e idiota, este anti-imperialismo dos idiotas úteis ou consciente do cúmplice Putin, é apenas a marca de uma tomada de posição estúpida e viscosa, esquecendo que um povo que se levanta contra o seu tirano não conhece outra posição do que aquela da dignidade e não faz caso das ninharias dos poderosos. A Realpolitik desta esquerda e o seu inimigo de direita é apenas um péssimo álibi para o crime que cometeu, não só ao abandonar-te ao teu destino, mas também ao mostrar uma complacência hedionda com os aliados do teu carrasco. Como pode ser tão insensível ao ponto de deixar morrer a tua revolução nessas condições atrozes quando, ao mesmo tempo, elogia um partido que conheces, oriundo da tradição estalinista e de que conservou todos os reflexos? E, enquanto essa esquerda vocifera contra ti, tu que, no entanto, conseguiste o que a esquerda sempre sonhou, o nosso presidente brinca com os lápis de cor que roubou ao Obama. Diverte-se a traçar linhas imaginárias de todas as cores e a fazer grandes declarações absurdas e desprovidas de sentido. Traça linhas vermelhas com o teu sangue derramado todos os dias, mas que ignora desde que permaneça devido às balas, barris, tortura e fome. O gás, muito querida Ghuta ... Ele espera o gás! Mas como deves-te rir dessa falsa promessa, tu que esperaste em vão quando o sarin devastou as tuas aldeias, sufocou as tuas crianças! Quando choraste por Zamalka e os seus habitantes... Mas este Macron, ele, o “intratável" sapo que quer ser tão grande quanto o boi, não defende o internacionalismo, a revolução popular e a autogestão. Pensando bem, isto é uma meia verdade. Mas espero que a posteridade condene fortemente a mediocridade de uma certa esquerda francesa e europeia de que tenho uma terrível vergonha por tanto mentir aos outros e a si mesma.

 

Enquanto agonizas sob as bombas, preparamo-nos a comemorar os 7 anos de tua revolução. Sete anos atrás, apenas algumas pessoas loucas saíram à rua para protestar em silêncio, de velas nas mãos, numa praça damascena em apoio às primaveras árabes. Sete anos depois, a tua Síria está devastada. E em breve virá o mês de Março. Celebraremos os 7 anos da tortura das crianças de Deraa e as primeiras fossas comuns da revolução. Enfim, Assad, ele, irá festeja-lhos. Na sua montanha de cadáveres. 500 mil mortes. Absurdo. Levantaste-te contra a tirania pela liberdade e a dignidade, tornando-te um exemplo para o mundo inteiro. Tristemente, nem todo o mundo estava preparado para este exemplo.

 

Hoje, estás sozinha sob as bombas. Mas não totalmente. Estamos aqui. Nós, os poucos que continuamos a esperar a tua vitória. Estamos dispersos, mas estamos aqui. Seguimos a tua vida diária de perto. Escutamos-te, observamos-te. Nos teus vídeos, querida Ghuta, vemos as tuas mulheres, homens e crianças que emergem dos escombros depois de um bombardeio. As ruínas, o grito das mães, as lágrimas das crianças, a ânsia dos socorristas que os levam para o hospital em breve por sua vez bombardeado. Temos medo contigo, choramos contigo, gritamos de raiva contigo. Não desviamos o olhar, é o que nos resta, é apenas o que temos. Ficaremos em pé erguidos contigo. Até ao fim, onde quer que vás. Perseguiremos Bachar até a morte para que um dia, ele pague pelo que fez a Khan Cheikhun, Aleppo, Daraya, Homs, Deraa, Idleb, Zabadani, Raqqa e a todas as outras. Desde 2011, recolhemos provas de sua barbaridade para que um dia ele possa ser condenado. Escrevemos livros para que a tua luta sobreviva às bombas e aos gases e que os sírios possam continuar orgulhosos do que fizeste e que ninguém possa esquecer. Ghuta magoada, Ghuta gaseada, Ghuta bombardeada, Ghuta de luto. Mas Ghuta rebelde, digna, livre e em pé! Tu, Ghuta, que não te vergas e que sabes que, de qualquer maneira, não tens hipótese de sobreviver a uma rendição. Porque o "Regime" não perdoa. Ele tortura, executa, massacra. Talvez desapareças. Essas pessoas, esses rostos nesses videos, em breve, talvez já não sejam. Bombardeadas, gaseadas ou degoladas, afinal, qual a diferença? Felizes são os mortos porque já não sofrem. E se isso acontecer, teremos que viver com tudo isso. Assim como todos os espectadores silenciosos que se tranquilizam com "isso é complicado" e "não podemos fazer nada", mas logo dirão entre o queijo e a sobremesa, que tudo isso era terrível e que Bachar é um ser odioso. Veremos Assad viver, ele, sim. Pavonear-se, regozijar-se, de braço dado com Putin, com Khamenei nas sombras, e o Hezbollah como guarda-costas. É possível desviar o olhar de ti sem se odiar? Porque nos proteger das imagens que nos envias se não somos melhores que as linhas de cor que se movem com os ventos?

 

Caros sírios, queridos habitantes de Ghuta, Idleb e Afrin, vemos vos combater e morrer, mas não vamos desviar o olhar. Honrar-vos-emos até ao fim e comemoraremos a vossa coragem e dignidade. Não esqueceremos e não vamos perdoar. Isto não vos trará reconforto nem sobrevivência. Mas isto impedir-nos-á de nos odiar e de compartilhar a indiferença dos cínicos e dos bastardos. Sois o orgulho dos homens e das mulheres que lutam pela liberdade e dignidade. Sois as nossas consciências feridas, mas uma coisa é certa: só queremos um futuro convosco, apenas convosco.

 

Houria Ghuta. Houria Souria.

 

Sarah Kilani, 21 de Fevereiro de 2018

 

Fonte: https://lundi.am/Lettre-a-la-Ghouta

 Tradução: Gisandra Oliveira

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