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ARESTAS

ARESTAS

Abecedário de um confinamento (5): Bestiário 

Atrás das janelas, somos uma espécie de bichos que acolhem outros bichos, neste caso o coronabicho. Olhamo-nos passar sem nos ver e por vezes sem querer ser vista(o). Que vidas carregam este passo curto, este caminhar arrastado ou indiferente, este andar em linha recta ou em ziguezague. Em confinamento na cidade, somos uma espécie ansiosa, curiosa, angustiada, deprimida, desassossegada, carente, covidada, uma espécie em estado de alerta, à espera. Atrás do obrigatório distanciamento social, uma das actividades essenciais de algumas pessoas foi passear a cadela, o cão, a gata, o gato e até o coelho. Creio que nunca vi tantos canídeos na rua que durante o confinamento. Foram as palavras que se trocaram com pessoas desconhecidas na distância de uma trela, palavras simples, insignificantes, informativas ou descritivas que por vezes abordavam as questões mais prementes da vida social, política, económica, ambiental ocasionadas pelo momento. Sem a poluição sonora do costume, houve um conjunto de pássaros que se fizeram ouvir. Da janela, as gaivotas habituais continuavam a acasalar, entretanto chegaram as andorinhas e na horta caracóis, muitos caracóis, uma invasão de caracóis de todos os tamanhos e lesmas gigantes de um castanho claro quase amarelo. Só mais recentemente chegaram as pulgas, as moscas, os mosquitos e algumas tímidas melgas.

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Abecedário de um confinamento (4): Língua 

 

Porto 23:03:2020 Não me Covides

Na língua de todos os dias os efeitos da pandemia pela covid 19 tem os seus impactos. Por um lado, verifica-se através do uso de vocábulos novos em tudo o que concerne o dia-a-dia, envolvendo os gestos barreira, o kit de protecção de que muita gente anda munida quando sai à rua: a máscara ou viseira recentemente obrigatória, as luvas e o gel hidroalcoólico, até ao cúmulo da hostilidade latente ou prudência covidiana no receio de falar com a(o) vizinha(o) ou sentir de forma premente uma noção confusa e difusa do espaço que nos distância, como se o(a) Outro(a) fosse à partida uma possível fonte ou vector de contaminação. Depois há os coronalouca(o)s obcecoronada(o)s pelas questões do distanciamento físico, o grau superior do distanciamento social, e que ocasionalmente no supermercado, passam por ti a ralhar porque há três pessoas naquele corredor e quer na passagem, quer na escolha de um produto é claro que é impossível manter os dois metros ou até metro e meio de distância, simplesmente porque a largura dos corredores não o permite, mas o que é fascinante é que a pessoa, ainda que ralhando, passa na mesma. Ando a matutar uma questão premente que me desatina a razão, pois pergunto-me qual é a verdadeira distância necessária quando andamos de máscara no corredor de um supermercado? Num passeio? Na quinta do Covelo? Num jardim qualquer? A verdade é que bem me podem rotular de covidiota, ou de coronaburra, mas não vejo a necessidade de andar de máscara quando vou à Quinta do Covelo ou a outro jardim às 7 da manhã sendo que, quando ocorre, até me cruzo a muito mais de dois metros de distância com quem quer que seja.  Na primeira quarentena de 15 dias no Porto, a população praticou o coronaziamento ao armazenar compulsivamente produtos e alimentos, esvaziando as prateleiras como se o fim do mundo estivera ao virar da esquina. Nessa altura, já se andava a criar neologismos “Ó bófia não me covides!” foi inscrito numa parede. Noutra, no início de um confinamento que já indiciava as sementes da covidepressão ou de um deprimavirus, brincava-se com as palavras: “Não faça festas com 20 pessoas…Convid 19”. Rapidamente se criaram redes de recolha e distribuição de produtos e bens essenciais para as pessoas mais carenciadas, houve então grupos solidavid19 ou coronasolidarios. A verdade foi que ficar em casa todos os dias fez com que segunda era terça, era quarta, era quinta, era sexta, era sábado e domingo, os dias todos eram covidafeira ou coronafeira, não havia meio de distinguir mesmo em telescola ou teletrabalho já que os espaços se confundiram. Já não havia fora, tudo ficava dentro e até se podia andar de pijama ou algo parecido o dia inteiro. Os hipocondrifinados por vezes revelavam a sua paranoivirus de tanto trilhar o coronacirco das redes sociais, ou do telejornal. A infodemia levou-nos a consultar os números do dia anterior para saber quantas e quantos covidada(o)s, quantas e quantos descovidada(o)s. Com tanto distanciamento, perguntamo-nos como se chegou a conceber os que ainda sem saber já se chamam os corona boomers.

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Abecedário de um confinamento (2): Casa

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Não dizemos que estamos fechados em casa, mas confinados e até criámos uns novos hashtags (#FiqueEmCasa e #vaificartudobem). Das sete entradas no dicionário para a palavra “confinamento” podemos ver que curiosa e singularmente todas elas se aplicam à situação: “1- ato ou efeito de confinar; 2- situação do que é limítrofe ou contíguo; 3- fronteira; limite; 4- ato ou efeito de restringir a um espaço limitado; 5- estado de quem está em local fechado ou área reservada, afastado do contacto com outros (por punição, doença ou outro motivo); 6- isolamento; 7- condição do que é limitado, específico, não abrangente.” A casa hifenizou-se em múltiplas funções sem nunca chegar a ser o que realmente era uma casa-prisão. Tornou-se a casa-fábrica com o teletrabalho. Na primeira quinzena da quarentena as janelas pulavam de músicas diversas era uma coronafonia por vezes cacofónica ou melhor um cacovirus da casa-discoteca. No confinamento covidiano com o distanciamento social, a socialização foi à teledistância ou fez-se a zoomar e então na casa-café ou casa-bar, tomámos um copo ou um café à distância e coronizamos ou telecovidamos ao tomar um cocktail e chamamos-lhe: locktail; ao tomar um aperitivo e chamamos-lhe: coronaperitivo,  whatsaperitivo, skypaperitivo; se for um martini é um quarentini, se for uma vodka poderá ser um vodkafone, um whisky será um whiskype. Adaptação e criatividade não faltaram aos que se encontravam em covimodo. Na casa-ginásio, para combater a imobesidade praticavam-se coronabdominais. Parece que, para as autoridades sanitárias do Estado, a obrigação ou a ordem de ficar em casa era simples e fácil. Contudo, não se contou com quem não tem casa, quem não se sente em casa na sua casa, ou quem não quer ter casa. Dentro da casa, a profunda nudez não apenas a do corpo, mas a do ser que se revela tanto no aconchego da privacidade como na intimidade de uma violência psíquica ou física. Todo o dispositivo que preexistia para a concretização da vida na caverna de platónica do século XXI fez subitamente sentido: homebanking, encomendas online, entregas a domicílio, em breve a democratização do frigorífico saudavelmente inteligente, espio dos centros de saúde e das asseguradoras, mas para já vulgarizar a preferência higiénica do pagamento por multibanco, as formas simples de deixar as nossas pegadas e potencialmente sermos seguidos ou vigiados por aplicações supostamente destinadas a proteger-nos da COVID-19: brevemente todas as pessoas poderão optar por ser covigiadas!

 

Abecedário de um confinamento (1): Construção

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Em pleno confinamento, os locais de construção ou obras na cidade eram como navios. Cedo de manhã os únicos tripulantes eram os pedreiros sem contrato. Tomavam café em copos de plástico na rua e seguiam para o trabalho. Os sons da cidade vinham das gruas, berbequins, rebarbadoras, serras e por vezes as marteladas elegantes  alternavam-se com a broca de 11mm. O canto do pedreiro durante o confinamento foi uma melodia assobiada ou cantarolada em construção, foi a colher do pedreiro no horizonte da tachola. Ao fim do dia de trabalho com o riso do melro vinham as espátulas a rasparem os restos de cimento e as últimas marteladas antes do recolher.

Manhãdupla (1)

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Porto, Janeiro 2020, 7:30

Deste lado, a permanência silenciosa de uma degradação planeada, do outro, o rebuliço dos pedreiros, o raspar das espátulas, uma betoneira ronrona, uma rebarbadora chia metálica e oca.

Divulgação: II Jornadas “Cidade em Revolta: Entradas e saídas da ruína capitalista

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Nas cidades, persiste habitação degradada e insalubre e até mesmo dessa as pessoas são expulsas para dar lugar a cada vez mais numerosos alojamentos “locais” (venha viver como um operário do século XIX!, dirá o cartaz de promoção turística). Ninguém que viva do seu trabalho consegue arrendar uma casa digna que não seja na periferia e as pessoas continuam a ser empurradas para bairros “sociais”, como entulho da limpeza social em curso.

Quem resiste sofre todo o tipo de ataques por parte de proprietários e imobiliárias, desde o desaparecimento de campainhas, caixas de correio, cortes de água e luz e até visitas inoportunas e não autorizadas, e todo o tipo de pressões (in)imagináveis exercidas pelos especuladores.

A cidade é hoje, pois, um espaço de produção e de consumo sustentado por estratégias como a mercantilização das intervenções urbanísticas e da vida quotidiana da população residente. Na cidade capitalista tudo é rentabilizável: os serviços e bens essenciais são deslocados, os bairros são transformados em sítios da moda para os endinheirados, os mercados populares são gourmetizados, as praças deixam de ser espaços de comunidade, a vida é suspensa a favor dos grandes investimentos. Paralelamente, ao som insistente do camartelo, há uma maior militarização do espaço público, o estabelecimento de mecanismos de controlo da população, a implementação de sistemas de vídeo-vigilância, a imposição subtil de um modelo de bom-cidadão.

Numa altura assim, precisamos de nos juntar para falar sobre os processos de (re)construção da cidade capitalista, analisando as suas fundações históricas, as suas formas materiais e as relações de poder nela imbricadas, bem como para reflectir sobre as lutas actuais, as possibilidades de auto-organização e do apoio mútuo, e a criação de alternativas que procurem outras formas de conceber a cidade.

Eis as II Jornadas “Cidade em Revolta” – Entradas e Saídas da Ruína Capitalista.

As casas, ruas, vielas, avenidas, becos, travessas e praças revestidas de calçada, cimento ou alcatrão, que nenhum presidente construiu (cortar fitas não conta), são nossas, todas!
Tomemo-las!

Fonte: Encontro Anarquista do Livro

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