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ARESTAS

ARESTAS

Interlúdio (3)

Sentei-me no banco do jardim e continuei a ler o texto encontrado num autocarro que me levara de Panamá a Colón algum tempo antes de chegar a Lisboa. Não sei o que hei de fazer com este manuscrito, não sei a quem pertence, mas a leitura tem me dado algum prazer. Peguei num lápis e comecei a numerar as páginas soltas. Um rapaz passou com um cão. Puseram-se a brincar com um pau. Chegou uma mulher com o filho. O miúdo reclamou o baloiço, depois o escorrega, a seguir a abelhita e novamente o baloiço, o escorrega e o baloiço, como se esta ordem fosse absolutamente necessária ao frágil equilíbrio entre o desejo de preencher o tempo, a necessidade de brincar e o medo de serem já horas de partir. Chegaram outras crianças e invadiram o jardim. O cão aproximou-se e assustei-me de tal maneira que deixei cair o manuscrito. As folhas ficaram dispersas pelo chão. Uma voz autoritária, quase rouca, emergiu da boca do rapaz “Bolas! Pára. Senta.” Levantei-me para apanhar as folhas. Recolhi-as num molho, sentei-me novamente para limpá-las da terra e juntei-as lenta e desordenadamente. Durante o curto instante, entre o meu grito de surpresa e as palavras do rapaz, todos tinham olhado para o cão, para mim e para o rapaz, mas agora os miúdos continuavam a aplicar-se no escorrega, no baloiço e na abelhita suspensa no ar por uma mola meia verde e meia ferrugenta. Depois de recolher as folhas esparsas, levantei-me para ir para casa. Passei pelo supermercado para comprar água e café. Ao virar a esquina dei de caras com o dono do cão. Ele passou, eu passei, sem uma palavra, sem uma expressão no rosto. Não há nada a dizer. Vivemos mundos separados. Vivemos todos mundos separados, não temos tempo. Nem que seja um simples movimento, um olhar, ou um sorriso cansa-nos. Apenas um gesto é de mais. Ouvimos a nossa própria voz a falar da nossa própria vida que preenche o espaço todo e esquecemo-nos dos outros. Abri a porta do prédio. Subi as escadas. Pus a chave na fechadura, quando de súbito tive uma estranha sensação, como se houvesse uma presença inquieta atrás de mim. Virei-me surpresa e um pouco assustada. O rapaz parara no patamar com uma folha na mão. -“Espere, ficou esta no jardim.” Sorri, estendi a mão, agradeci, fiquei confusa, sem saber se devia de convidar o rapaz a entrar, pois durante um momento, que pareceu uma eternidade, a folha permaneceu na sua mão sem que ele a largasse. - “Obriga...obrigada...Desculpe...eu...ainda bem...” - “Não é nada, pensei que lhe faria falta.” Despedimo-nos e entrei finalmente em casa. Feliz por ter recuperado algo que nem sabia que tinha perdido. Fiz um chá e sentei-me à secretária para continuar a leitura:
Por fim tenho um pedaço de terra. Por fim, tenho um corpo onde deitar as minhas sementes. Um corpo que me alimenta e me entranha. Também descobri uma parte de mim, num texto do escritor belga, Eugène Savitzkaya. Como ele, sinto com estranheza as minhas mãos, depois de remexer a terra, mas também não me convenço em usar luvas! Construí jardins de ervas e de cheiros fictícios. Combinei em sonho o hissopo com as couves, o rabão rústico com as batatas, a borragem com os morangueiros, a hortelã sempre perto das roseiras, a nêveda dos gatos ou erva gateira, assim como a valeriana, à volta da horta. Programei jardins eruditos, onde a convivência de cada planta fora estudada para servir de alimento ou de protecção à outra. Assim, foram imensos os canteiros em forma de patamares, escadarias de cheiros, cascatas de ervas medicinais, assombrosa combinação de infusões futuras, tudo orquestrado num conjunto caótico, quase natural. Construí autênticos palácios de paraísos odoríferos, moldados e inspirados no jardim de Alkinoos, no paraíso terrestre tão perdido, nos jardins imaginários e outros mais reais. Já me via alimentando as minhas noites de chás, loções e poções maravilhosas. Há sempre tanto a fazer com as mãos! Depois de semanas a remexer, a medir o calor do estrume, o grau de acidez, a consistência da terra, etc., a caneta, o lápis e o teclado resistem, como se já não houvesse espaço possível para outro instrumento a não ser a mão e os dedos. Depois de um tempo, é impossível escrever com as reminiscências da terra pegadas às mãos. Os dedos tornam-se mais lentos, mais espessos e desajeitados e a pele insensível.
(Ana da Palma, Gazeta das Caldas, 21/04/06)

Interlúdio (2)

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Desci lentamente a escadaria da colina de San Giusto em direcção ao teatro romano. A Bora, um vento do norte, frequentemente representado como um cavalo e com um passado mitológico importante, soprava violentamente à beira do Mar Adriático e percebi porque é que o associavam à loucura. O vento forte pode provocar todo o tipo de desordem, tanto no mapa da natureza, como na paisagem interna de cada um de nós. Cheguei à estação e apanhei o último comboio que partia ao fim da tarde de Trieste para Veneza. Depois da cidade dos canais e dos pombos, dormi o tempo todo, não me lembro das estações por onde passei, não me lembro dos rostos à minha volta. Mudei de comboio várias vezes. Quando cheguei finalmente a Lisboa, já tudo estava muito verde, já o ar estava carregado de humidade e chapéus-de-chuva apressados desciam as ruas escorregadias e desapareciam no metro, nos prédios e nos carros. Fetos e musgos cresciam nos telhados das casas antigas. Senti-me diferente. Desde Janeiro que não me via ao espelho. Não me apercebi que a minha pele tinha mudado. Não me apercebi que já não era apenas eu, mas que éramos dois. Passávamos as tardes nas estações de comboio. Em primeiro, no Rossio, depois mudámos para Santa Apolónia. Era maior. A partida, tal como a tínhamos concebido em sonho, durante anos, aquele outro, ainda por vir, e eu, ganhava em significado. Não dei importância à mudança. Desprendi-me para apenas considerar tudo aquilo que era exterior ao meu corpo. Durante vários dias, tive o mesmo terrível pesadelo semeado de imagens de horror. Batalhões de crianças suspensas e petrificadas com um esgar aterrorizado, o corpo tenso e aninhado na opacidade do ar, os olhos esbugalhados e injectados de sangue, os rostos brancos e os lábios roxos semi-abertos povoavam as minhas noites. Não havia explicação para tanta dor, mas o corpo permanecia o local do crime. Escrevi uma carta, muito longa, para me libertar das noites assustadoras. Funcionou, pois, por vezes, procurar as palavras para identificar o que nos parece inexplicável, acaba por resolver uma parte do problema e afastar os fantasmas, as angustias, as culpas ou projecções, mas não me lembro nem do conteúdo da carta, nem a quem a mandei. Melhor assim. Desprendemo-nos. Continuei sem saber aquilo que era para vir. Como sempre. Como todos nós! Não há mistério nessas coisas. Concordei com uma seita gnóstica que dizia que o passado estava à nossa frente, porque o conhecíamos, enquanto que o futuro ficava atrás de nós, porque não sabíamos o que iria ser. Pensando assim todas as perspectivas de vida mudavam, porque o futuro já não se distinguia por ser algo com uma duração indeterminada, mas ilimitada, como se fosse uma fonte de possibilidades, como se fosse algo que abrisse um caminho, onde o tempo, enquanto duração, predomina. O futuro acabava por tecer-se sobre algo conhecido e identificável, que não dependia do tempo, mas apenas do conhecimento. O presente fazia a ponte entre dois momentos, um com uma duração destorcida, porque vivia da memória e outro feito apenas de instantes que se sucediam a uma velocidade vertiginosa. O conhecimento do passado só podia dar uma vaga ideia do que seria o futuro. Isto trouxe-me algum reconforto. Acabei por despir as paredes dos mapas e dediquei-me atentamente a observação das nuvens. Nunca pensei que o céu dava origem a tantas palavras, mas faz sentido, porque os Homens sempre procuram um nome para todas as coisas. Identificar o que nos rodeia facilita a sua compreensão. Neste caso, antes de procurar um nome, houve um registo, houve uma imagem. Foi assim que comecei um relatório nefelibata, para me obrigar a olhar para cima. Foi assim que registei o aparecimento quotidiano das nuvens. Post-scriptum: fora apenas outro pequeno interlúdio para repousar da “cultura”. (Ana da Palma, Gazeta da Caldas 24/02/06)

Interlúdio (1)

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Interlúdio (1) Durante aquele Outono, em Berlim, passeando pelas ruas de Kreutzberg, no céu, as nuvens tinham um nome...só estratos sobrepostos a estratos, um céu branco-acinzentado que se prolongava no céu escuro das longas noites. Eram dias tão frios que me entorpeciam os sentidos. Depois das quatro da tarde, diante da salamandra, na cozinha, falava-se do falecimento do muro, comia-se pão, queijo e bananas por mimetismo... Andava por Berlim, sozinha, sem ter alguém para pôr um nome nas coisas. As coisas com um nome perdem todo o verdadeiro sentido na memória dos sentidos. É preciso saber deambular numa cidade, perder-se nela, encorpar-se dela para guardar qualquer lembrança. Lembrei-me de Walter Benjamin que dizia que Paris lhe tinha ensinado a arte de se perder. Ainda tinha quatro tabletes de chocolate, uma moeda de um marco, umas luvas enormes multicolores e um sorriso maior que a distância entre Berlim e Paris. Acabei por apanhar uma boleia num camião espanhol. O condutor era da Estremadura, vivia numa aldeia da Serra Morena e seguia para França. Falámos muito do sol, da serra, das saudades que tinha da mulher e partilhámos o chocolate até aos subúrbios de Paris. Foi por causa dele que me apeteceu a luz do mediterrâneo. Pensei na luz e lembrei-me dos quadros que Zurbarán tinha feito de São Francisco. A luz que emanava dos rostos. Havia um quadro, em particular, não se via o rosto todo de São Francisco, toda a luz estava no nariz. Percorri mentalmente todos os narizes de que me lembrava. O nariz do meu avó no qual reconhecia o da minha mãe, o nariz perdido de um texto de Gogol, o nariz em gesso pintado de Giacometti, o nariz do meu pai no qual me reconheci, o nariz de Dorian Gray, o nariz de um amigo que contava, cada vez que conhecia alguém, que lhe tinham dado a alcunha de ‘napias’ , no liceu francês de Madrid, a importância que Goethe deu ao nariz, como sendo pilar que suporta a abóbada formada pela testa, o nariz que incomoda de Cyrano, a máscara nariz do teatro, a outra dum filme...Fiz um esboço do meu roteiro do nariz que acabei por perder num autocarro entre David e Panamá. Lembrei-me da Serra Morena descrita no manuscrito de Potocki. Por causa do apelo que o mar mediterrâneo produz, lembrei-me da Andaluzia, do ‘jamón de Jabugo’, Sevilha e de uma rua estreita: ‘calle del beso’. Quando cheguei a casa, olhei para as paredes do muro do quarto atapetadas de mapas e rotas imaginárias. O norte de América até ao Panamá era uma dama muito apressada. Tinha um pé levantado que quase não se distinguia, estava perdido no Mar de Bering. Um braço curvado perdia-se no Oceano Árctico, o outro segurava as rendas de uma saia cuja ponta terminava e constituía, por um lado, a Baia do Hudson, por outro o Mar Lavrador. O outro pé terminava à fronteira entre Costa Rica e Panamá. Notava-se a sua pressa pelo movimento que fazia a sua saia. A América do Sul e o continente Africano eram duas máscaras viradas para o mesmo lado e com a mesma inclinação. Ambas olhavam para baixo com uma espécie de tristeza. A dama apressada continuava a sua corrida no sentido oposto ao olhar das máscaras. O resto do mundo era simplesmente o que se via no mapa. Voltei a pôr chocolate na minha mochila. Chocolate e livros. Levei uns quantos para ler em Trieste, onde me queria encontrar com Joyce, Via San Nicolo, como para ter a certeza que fora aí que tinha escrito The Exiles, a sua única peça de teatro. Cheguei a Trieste no dia 16 de Junho, dia de Bloom. Comemorei com os gatos, perto do canal. Post-scriptum: fora apenas um pequeno interlúdio para descansar da “cultura”. (Ana da Palma, Gazeta das Caldas, 10/02/06)

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