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ARESTAS

ARESTAS

«Do Estado de direito ao Estado de segurança», por Giorgio Agamben

Não se percebe o verdadeiro objectivo do prolongamento do estado de emergência [até finais de Fevereiro] em França, se não o situarmos no contexto de uma transformação radical do modelo estatal com que estamos familiarizados. Antes de mais, é preciso desmentir os comentários irresponsáveis de mulheres e homens políticos, segundo os quais o estado de emergência seria um escudo para a democracia.

Os historiadores sabem perfeitamente que é o contrário que é verdadeiro. O estado de emergência é precisamente o dispositivo pelo qual os poderes totalitários se instalaram na Europa. Foi assim que, nos anos que antecederam a tomada do poder por Hitler, os governos sociais-democratas de Weimar recorreram tantas vezes ao estado de emergência (estado de excepção como se diz em alemão) e que se pode dizer que a Alemanha, antes de 1933, já deixara de ser uma democracia parlamentar.

Ora o primeiro acto de Hitler, após a sua nomeação, foi de proclamar um estado de emergência, que nunca foi revogado. Quando estranhamos os crimes que foram cometidos impunemente pelos nazis na Alemanha, esquecemos que estes actos eram perfeitamente legais, porque o país estava submetido ao estado de excepção e que as liberdades individuais estavam suspensas.

Não vemos razão para que um tal cenário não se repita em França: imaginamos sem dificuldade um governo de extrema direita aproveitar-se de um estado de emergência ao qual os governos socialistas habituaram os cidadãos. Num país de vive num estado de emergência prolongado, e no qual as operações policiais se substituem progressivamente ao poder judicial, há que esperar uma rápida e irreversível degradação das instituições públicas.

A manutenção do medo

Hoje em dia, isto é quanto mais verdadeiro que o estado de emergência se inscreve no processo que está a contribuir para a evolução das democracias ocidentais para algo, que devemos doravante, chamar de Estado de segurança («Security State», como dizem os politólogos americanos). A palavra “segurança” impregnou de tal modo o discurso político que podemos dizer em receios que as “razões de segurança” substituíram o que outrora chamávamos a “razão de estado”.

No entanto, faz falta uma análise desta nova forma de governar. Como o Estado de segurança não depende nem do Estado de direito, nem do que Michel Foucault chamava de «sociedades de disciplina», convém adiantar aqui algumas bases para uma possível definição.

No modelo do britânico Thomas Hobbes, que influenciou tão profundamente a nossa filosofia política, o contrato que transfere os poderes para o soberano pressupõe o medo recíproco e a guerra de todos contra todos: o Estado é precisamente o que vem acabar com o medo. No Estado de segurança, este esquema inverte-se: o Estado funda-se de forma douradora sobre o medo e deve sustentá-lo a qualquer custo, pois é dele que saca a sua função essencial e a sua legitimidade.

Foucault já tinha mostrado que, quando a palavra “segurança” surge pela primeira vez em França no discurso político com os governos fisiocratas antes da revolução, não se tratava de prevenir as catástrofes ou as fomes, mas de as deixar acontecer para depois poder governá-las e orientá-las numa direcção estimada como proveitosa.

Nenhum sentido jurídico

Hoje em dia, igualmente, a segurança em causa não visa prevenir os actos de terrorismo (o que é de facto extremamente difícil, senão impossível, dado que as medidas de segurança só são eficazes a posteriori e que o terrorismo é por definição uma série de golpes prévios), mas a estabelecer uma nova relação com os homens, que consiste num controlo generalizado e sem limites – dai a insistência particular nos dispositivos que permitem um controlo total dos dados informáticos e de comunicação dos cidadãos, inclusive o levantamento integral do conteúdo dos computadores.

O primeiro risco que salientamos é a deriva para a criação de uma relação sistémica entre o terrorismo e o Estado de segurança: se o Estado precisa do medo para legitimar-se, no limite, há portanto que produzir o terror, ou pelo menos, não impedir que se produza. É assim que vemos países perseguirem uma política externa que alimenta o terrorismo que devemos combater no interior e sustentar relações cordiais e até vender armas a Estados de que sabemos que financiam as organizações terroristas.

O segundo aspecto importante de perceber, é a mudança do estatuto político dos cidadãos e do povo, que era supostamente titular da soberania. No Estado de segurança, vemos se produzir uma tendência irrepressível em direcção ao que devemos chamar de despolitização progressiva dos cidadãos, cuja participação na vida política se reduz às sondagens eleitorais. Esta tendência é tanto mais preocupante quanto fora teorizada pelos juristas nazis, que definiram o povo como um elemento essencialmente impolítico, cujo Estado deve garantir a protecção e o crescimento.

Ora, segundo estes juristas, há apenas uma forma de tornar político este elemento impolítico: pela igualdade de linhagem e de raça, que o vai distinguir do estrangeiro e do inimigo. Não se trata aqui de confundir o Estado nazi e o Estado de segurança contemporâneo: o que há que perceber, é que se se despolitiza os cidadãos, estes só podem sair da sua passividade se são mobilizados pelo medo contra um inimigo estrangeiro que não seja apenas externo (foram os judeus na Alemanha, hoje em dia, são os muçulmanos em França).

Incerteza e terror

É neste quadro que devemos considerar o sinistro projecto de privação da nacionalidade para os cidadãos binacionais que lembra, simultaneamente, a lei fascista de 1926 sobre a desnacionalização dos “cidadãos indignos da cidadania italiana” e as leis nazis sobre a desnacionalização dos judeus.

Um terceiro aspecto de que não se deve subestimar a importância, é a transformação radical dos critérios que estabelecem a verdade e a certeza na esfera pública. O que chama mais a atenção de um observador atento nos relatos dos crimes terroristas, é a integral renuncia ao estabelecimento da certeza judicial.

Tal como está definido num Estado de direito que um crime só pode ser comprovado por uma investigação judiciária, no paradigma securitário, devemos nos contentar do que relatam a polícia e os media dela dependentes – isto é duas instâncias que sempre foram consideradas como sendo pouco fiáveis. Daí a incrível nebulosidade e as contradições evidentes nas reconstruções precipitadas dos acontecimentos, que evitam, com conhecimento de causa, toda possibilidade de verificação e de falsificação e que mais se assemelham a mexericos do que a investigações. Isto significa que o Estado de segurança tem interesse em que os cidadãos – de quem deve garantir a protecção – permaneçam na dúvida acerca do que os ameaça, porque a incerteza e o terror vão par a par.

Reencontramos a mesma dúvida no texto da lei de 20 de Novembro sobre o Estado de emergência que se refere a “qualquer pessoa de que se suspeita existirem sérias razões para pensar que o seu comportamento constitui uma ameaça para a ordem pública e a segurança”. É totalmente evidente que a fórmula “ sérias razões para pensar” não tem qualquer significado jurídico e, dado que remete para o arbitrário daquele que “pensa”, pode aplicar-se a qualquer momento a qualquer pessoa. Ora, no Estado de segurança, estas fórmulas indeterminadas, que sempre foram consideradas pelos juristas como contrárias ao princípio da certeza do direito, tornam-se a norma.

Despolitização dos cidadãos

A mesma imprecisão e os mesmo equívocos aparecem nas declarações das mulheres e dos homens políticos, segundo os quais a França estaria em guerra contra o terrorismo. Uma guerra contra o terrorismo é uma contradição nos termos, porque o estado de guerra define-se precisamente pela possibilidade de identificar de forma certeira o inimigo que devemos combater. Na perspectiva securitária, o inimigo deve – pelo contrário – permanecer numa nebulosa, para que qualquer pessoa – no interior, mas também no exterior – possa ser identificada como tal.
Eis as três características do Estado de segurança: manter o estado de medo generalizado, despolitizar os cidadãos e renunciar a qualquer certeza de direito, cujos contornos bem podem perturbar os espíritos. Porque isto, por um lado, significa que o Estado de segurança, para o qual deslizamos, faz o contrário do que aquilo que promete, posto que – se segurança significa ausência de preocupação (sine cura) – o Estado alimenta o medo e o terror. Por outro lado, o Estado de segurança é um Estado policial, porque com o eclipse do poder judiciário, generaliza a margem discricionária da polícia que, num estado de emergência que se tornou normal, age cada vez mais como soberana.

Com a despolitização progressiva do cidadão, que se tornou de certa forma um terrorista em potência, o Estado de segurança sai finalmente do domínio conhecido da política, para se dirigir para uma zona incerta, onde o público e o privado se confundem, e de que temos dificuldades em definir as fronteiras.

 

Fonte:

LE MONDE | 23/12/2015 | http://www.lemonde.fr/idees/article/2015/12/23/de-l-etat-de-droit-a-l-etat-de-securite_4836816_3232.html

Giorgio Agamben nasceu em 1942 em Roma (Itália). Filósofo, autor de uma obra teórica reconhecida e traduzida no mundo inteiro, acaba de publicar La Guerre civile. Pour une théorie politique de la Stasi e L’Usage des corps. Homo Sacer, IV, 2.

 

KestaMerda para CasaViva 26/11

No passado mês de Outubro, no quadro de uma conferência internacional sobre educação, na Gulbenkian, Jürgen Habermas trouxe-nos uns palavrões que dão que pensar. São os seguintes: «transnacionalização democrática», «integração política», «união política para permitir uma legitimação democrática das políticas comuns ou harmonizadas» (assustador he?!) e também do «sindroma da pós-democracia»(1) (algo que vejo relacionado com a promoção do maior engodo democrático formulado por outra expressão ampla e erradamente divulgada e chamada de «democracia participativa»- sobre este assunto ler Marc Crépon e Bernard Stiegler (2007) De la démocratie participative -  que se encontra vinculada à crise da representatividade ou na verdade à crise da própria democracia representativa):

(1) Artigo do DN: http://www.dn.pt/politica/interior.aspx?content_id=3501779

Emissões de France Culture sobre o assunto:http://www.franceculture.fr/oeuvre-de-la-d%C3%A9mocratie-participative-fondements-et-limites-de-marc-cr%C3%A9pon-bernard-stiegler.html

Uma recensão sobre o livro de Crépon e Stiegler: http://www.c-scp.org/en/2012/02/05/marc-crepon-and-bernard-stiegler-de-la-democratie-participative.html


Esta questão e outra bem mais interessante ou perigosa, dependendo da perspectiva abordada, encontram-se ligadas às considerações tecidas sobre a falta de participação na última manifestação de 26 de Outubro 2013 neste artigo do público: http://www.publico.pt/portugal/jornal/pouca-participacao-nas-manifestacoes-e-um-desafio-ao-sistema-politico-27310862

Tradução: Os Últimos dos Semitas por Joseph Massad

Os Últimos dos Semitas

Os oponentes judeus ao sionismo perceberam que este movimento, desde o início, partilhava preceitos com o anti-semitismo, no que concerne o seu diagnóstico daquilo que os europeus não Judeus (os Gentios) chamavam a «questão judia». Contudo, o que ulcerou ainda mais os Judeus anti-sionistas foi que o sionismo retomou por sua conta a «solução» para a questão judia, aquela que os anti-semitas sempre tinham preconizado, ou seja a expulsão dos Judeus da Europa.
Foi a Reforma protestante, com a retomada da bíblia hebraica, que estabeleceu a ligação entre os Judeus modernos da Europa e os antigos Hebreus da Palestina, uma ligação que os filólogos do século XVIII consolidaram pela sua descoberta da família de línguas chamadas «semitas» entre as quais se encontram o hebraico e o árabe.
Enquanto os Protestantes milenaristas sustentavam que os Judeus contemporâneos, enquanto descendentes dos antigos Hebreus, deviam sair da Europa com rumo à Palestina, de forma a acelerar a segunda vinda de Cristo, as descobertas filológicas conduziram à rotulagem dos Judeus contemporâneos enquanto «semitas». Não foi portanto um passo de gigante que, no século XIX, as ciências biológicas da raça e da hereditariedade fizeram ao considerarem os Judeus europeus contemporâneos como os descendentes raciais dos antigos hebreus.


Com base nas conexões feitas pelos protestantes milenaristas anti-judeus, personalidades europeias laicas verificaram a vantagem política de que beneficiariam do «restabelecimento» dos Judeus na Palestina no século XIX. Menos interessados pela aceleração da segunda vinda do Cristo, tal como queriam os milenaristas, estes homens políticos laicos, desde Napoleão Bonaparte ao ministro britânico dos negócios estrangeiros Lord Palmerston (1785-1865) até Ernest Laharanne, o secretário privado de Napoleão III nos anos 1860, procuraram expulsar os Judeus da Europa para a Palestina para fazer deles agentes do imperialismo europeu na Ásia.
O apelo deles foi apoiado por numerosos «anti-semitas», uma nova etiqueta escolhida pelos racistas europeus anti-judeus após a sua invenção em 1879 por um jornalista vienense menor de nome Wilhelm Marr, que publicou um programa político intitulado A vitória do Judaísmo sobre o Germanismo (http://www.kevinmacdonald.net/Marr-Text-English.pdf). Marr teve o cuidado de separar o anti-semitismo da história do ódio cristão dos judeus com base na religião, acentuando, directamente vindo da filologia semítica e das teorias raciais do século XIX, ou seja que a distinção a fazer entre os Judeus e os Arianos era estritamente racial.

Assimilar os Judeus à cultura europeia

O anti-semitismo científico afirmava que os Judeus eram diferentes dos Europeus cristãos. E claro que os Judeus não eram de todo europeus e que a sua presença no seio da Europa era a causa do anti-semitismo. A razão pela qual os Judeus causavam tantos problemas aos Cristãos europeus estava relacionado com o seu suposto desenraizamento, faltando-lhes um país, portanto faltava-lhes a lealdade nacional. Na idade romântica dos nacionalismos europeus, os anti-semitas argumentaram que os Judeus não se enquadravam nas novas configurações nacionais e que perturbavam a pureza nacional e racial essencial à grande parte dos nacionalismos europeus.
Por esta razão, os anti-semitas sustentavam que se os Judeus ficassem na Europa, apenas provocariam a hostilidade dos cristãos Europeus. A única solução para os Judeus era de sair da Europa e de ter o seu próprio país. Não precisamos de realçar o quanto os Judeus religiosos e laicos estavam opostos a esta terrificante forma de pensar anti-semita. Os Judeus ortodoxos e reformistas, os Judeus socialistas e comunistas, os Judeus de cultura cosmopolita estavam de acordo que se tratava de uma ideologia perigosa e hostil que procurava expulsar os Judeus das suas pátrias europeias.
A Haskalah judia, ou Luzes, que emergiu também no século XIX, é um movimento de pensamento que se traduz numa vontade de integração dos Judeus nas sociedades laicas europeias não judias fazendo-lhes abandonar a sua cultura judia. Foi a Haskalah que procurou quebrar a hegemonia dos rabinos judeus ortodoxos sobre os «Ostjuden» [Judeus do Leste] das pequenas vilas da Europa do Leste e abandonar o que percebiam ser uma cultura judia «medieval» a favor da cultura laica moderna dos Cristãos europeus. Um Judaísmo reformado, como uma variante cristã – e de tipo protestante – do Judaísmo, emergiu no seio da Haskalah . No entanto, este programa assimilacionista procurou integrar os Judeus na modernidade europeia, não expulsa-los para fora da geografia da Europa.
Há um século e meio, quando o sionismo começou, após a publicação do programa anti-semita de Marr, ele aderiu a todas estas ideias anti-judias, inclusive o anti-semitismo científico considerado como sendo válido. Para o sionismo, os Judeus eram «semitas», cujos antepassados eram os antigos Hebreus. Na sua brochura fundadora, Der Judenstaat [O Estado dos Judeus], Herzl explicava que eram os Judeus, e não os seus inimigos cristãos, que eram a «causa» do anti-semitismo e que «onde não existe, [o anti-semitismo] é trazido pelos Judeus durante as suas migrações», dado que «os desgraçados Judeus levam as sementes do anti-semitismo para Inglaterra; já as introduziram na América»; que os Judeus eram uma «nação» que deveria deixar a Europa para restaurar o seu «estatuto de nação» na Palestina ou na Argentina; que os Judeus deveriam imitar os Cristãos europeus de um ponto de vista cultural e abandonar as suas línguas e tradições vivas a favor das línguas europeias modernas ou uma língua nacional antiga restaurada.
Herzl preferia que todos os Judeus adoptassem o alemão, enquanto os sionistas da Europa do Leste preferiam o hebreu. Depois de Herzl, os sionistas até aceitaram e afirmaram que os Judeus eram racialmente separados dos Arianos. Quanto ao Yiddish, a língua viva de grande parte dos Judeus europeus, os sionistas achavam que devia ser abandonada.
A maioria dos Judeus continuou a resistir ao sionismo e percebeu que os seus preceitos, tal como os do anti-semitismo e como a demanda da Haskalah de abandonar a cultura judia e de assimilar os Judeus na cultura europeia laica não judia, excepto que o sionismo procurava perseguir este último objectivo não no interior da Europa, mas numa região geográfica longínqua que resultasse da expulsão dos Judeus da Europa. O Bund, a União geral dos trabalhadores judeus da Lituânia, da Polónia e da Rússia, que foi criado em Vílnius a 7 de Outubro de 1897, algumas semanas após o primeiro Congresso sionista em Basileia no final de Agosto 1897, tornou-se o mais feroz inimigo do sionismo. O Bund juntou-se à coligação judia anti-sionista existente, composta por rabinos ortodoxos e reformistas que alguns meses antes uniram os seus esforços para impedir Herzl de convocar o primeiro congresso sionista em Munique, o que o forçou a fazê-lo em Basileia. O anti-sionismo judeu, na Europa e nos Estados Unidos, tinha o apoio da maioria dos Judeus que continuavam de ver o sionismo como um movimento anti-judeu até aos anos 1940.

Uma corrente anti-semita de pro-sionistas entusiastas

Ao perceber que o seu plano para o futuro dos Judeus europeus encontrava-se alinhado com o dos anti-semitas, Herzl elaborou muito rapidamente uma estratégia de aliança com eles. Declarou no Estado dos Judeus que: «Os governos de todos os países atingidos pelo anti-semitismo estarão interessados em nos ajudar a obter a soberania que desejamos.»
Acrescentou que «não só os Judeus pobres» contribuiriam para um fundo para a imigração dos Judeus europeus, «mas também os Cristãos que se querem ver livres deles». Herzl não teve complexos em confiar no seu Jornal que : «Os anti-semitas tornar-se-ão os nossos mais fiáveis amigos, os países anti-semitas os nossos aliados.»
 
Assim, em 1903, quando Herzl começou a encontrar-se com notáveis anti-semitas, tal como o ministro russo do Interior, Vyacheslav von Plehve, que supervisionou os pogromes anti-judeus na Rússia, foi uma aliança que procurou com um objectivo. Quer seja o anti-semita Lord Balfour, que enquanto Primeiro ministro da Grã-Bretanha em 1905, supervisionou a Lei sobre os Estrangeiros do seu governo, que impedia os Judeus da Europa do Leste fugindo os pogromes russos de entrar na Grã-Bretanha para, como o declarou, salvar o país dos «incontestáveis males» de «uma imigração que era essencialmente judia» não foi uma coincidência.
A infame declaração Balfour de 1917, criando na Palestina um «lar nacional» para «o povo judeu» foi concebida, entre outras coisas, para reduzir o apoio judeu à Revolução russa e para reprimir o fluxo de emigrantes judeus indesejáveis na Grã-Bretanha.
Os Nazis não foram excepção nesta corrente anti-semita de pró-sionistas entusiastas. Com efeito, muito cedo na sua história, os sionistas estabeleceram um acordo com os nazis. Foi em 1933 que o infame Acordo de Transferência (Ha’avara) foi assinado entre os sionistas e o governo nazi para facilitar a transferência dos Judeus alemães e dos seus haveres para a Palestina e que este quebrou o boicote judeu internacional à Alemanha nazi iniciado pelos judeus americanos.
Foi neste espírito que emissários nazis foram enviados para a Palestina para produzirem relatórios acerca dos êxitos da colonização judia no país. Adolf Eichmann regressou da sua viagem à Palestina em 1937, com relatos fantásticos sobre os feitos de um kibutz asquenazim com a separação racial, um dos que visitou no monte Carmel enquanto convidado dos sionistas.   
Apesar da esmagadora oposição da maioria dos Judeus alemães, a Federação sionista da Alemanha foi a única organização judia a apoiar as leis de Nuremberga de 1935, dado que partilhavam da opinião dos nazis de que os Judeus e os Arianos eram raças distintas e deviam ser separadas. Não se tratava de um apoio táctico, mas da ilustração de uma proximidade ideológica. A solução final dos nazis significava nesse momento a expulsão dos Judeus alemães para Madagáscar. É este objectivo comum acerca da expulsão dos Judeus da Europa, enquanto raça distinta e não assimilável, que criou uma afinidade durável entre os nazis e os sionistas.
Enquanto a maioria dos Judeus continuava a resistir à natureza anti-semita do sionismo e às suas alianças com os anti-semitas, o genocídio nazi não só massacrou 90% dos Judeus da Europa, mas também matou a maioria judia inimiga do sionismo que morreram precisamente por se recusarem a responder ao apelo sionista de abandonar o seu país e as suas casas.
Depois da guerra, o horror do massacre das comunidades judias da Europa (o Holocausto) não impediu os países europeus de continuar a apoiar o programa anti-semita do sionismo. Pelo contrário, esses países partilharam com os nazis uma predilecção pelo sionismo. Apenas condenavam o programa genocídio do nazismo. Os países europeus, com os Estados Unidos, recusaram-se em encarregar-se centenas de milhares de sobreviventes judeus. Estes países até votaram contra uma resolução apresentada nas Nações Unidas pelos Estados árabes em 1947 que lhes pedia de acolher os sobreviventes Judeus. Mas, estes mesmos países que rejeitaram a resolução serão os que irão apoiar o plano de partição das Nações Unidas de Novembro de 1947 para criar um Estado judeu na Palestina para o qual esses refugiados judeus indesejáveis poderiam ser expulsos.

As políticas pró-sionistas dos nazis

Os Estados Unidos e os países europeus, entre os quais a Alemanha, iriam perseguir a política pró-sionista dos nazis. Os governos de pós-guerra da Alemanha do oeste, que pretendiam abrir uma nova página nas suas relações com os Judeus, na realidade não o fizeram. Desde a criação do Estado israelita, após a Segunda Guerra mundial, cada governo da Alemanha do oeste (e cada governo alemão desde a reunificação de 1990) perseguiu sem descanso as políticas pró-sionistas dos nazis. Nunca houve uma ruptura com o pró-sionismo dos nazis. A única ruptura fora para com o ódio genocídio e racial dos Judeus que o nazismo consagrara, mas não com o desejo de ver os Judeus estabelecidos num país da Ásia, fora da Europa. Com efeito, os alemães sempre explicaram que grande parte do dinheiro que enviavam para Israel, servia para compensar os custos da reinstalação dos refugiados judeus europeus nesse país.

Após a Segunda Guerra mundial, um novo consenso apareceu nos Estados Unidos e na Europa, de que os Judeus deviam ser integrados a título póstumo como sendo europeus brancos e que o horror do massacre dos judeus era essencialmente um horror relativamente ao massacre de Europeus brancos.
Desde os anos 1960, os filmes de Hollywood sobre o Holocausto começaram a representar as vítimas judias do nazismo como sendo europeus brancos de classe média, pessoas instruídas e talentosas que lembravam os cristãos europeus e americanos contemporâneos e devendo servir para permitir maior identificação com eles. Podemos supor que se os filmes tivessem retratado Judeus pobres e religiosos, vindos da Europa oriental (e grande parte dos Judeus da Europa oriental, que foram massacrados pelos nazis, eram pobres e muitos eram religiosos) os cristãos brancos contemporâneos não teriam encontrado um ponto em comum com eles. Por conseguinte, o horror europeu e cristão após o genocídio dos Judeus da Europa não se fundamentava sobre o horror do massacre de milhões de pessoas diferentes dos cristãos europeus, mas no horror perante o massacre de milhões de pessoas semelhantes aos cristãos europeus.
Isto explica porquê, num país como os Estados Unidos, que nada teve a ver com o massacre dos Judeus da Europa, exista mais de 40 memoriais do Holocausto e um dos mais importantes museus para a memória dos Judeus assassinados na Europa, mas nem um único pelo holocausto dos Ameríndios ou dos afro-americanos de que os Estados Unidos são culpados.
Aimé Césaire percebeu perfeitamente do que se tratava. No seu célebre discurso sobre o colonialismo, ele afirmou que a percepção retrospectiva do nazismo pelos cristãos europeus era que:

É uma barbárie, mas uma barbárie suprema, o coroamento bárbaro que coroa todas as barbáries de todos os dias. É isso o nazismo, sim, mas antes de os [Europeus] serem as vitimas, foram em primeiro lugar os cúmplices, e toleraram o nazismo antes que este se vire contra eles. Absolveram-no, fecharam os olhos, legitimaram-no porque até esse momento apenas tocava os povos não europeus. Cultivaram este nazismo, são responsáveis e antes que engolisse a totalidade do ocidente, da civilização cristã nas suas águas vermelhas de sangue, ele ressudava-se, infiltrava-se e jorrava por todas as partes.

Quando Césaire explica que as guerras nazis e o Holocausto eram manifestações de um colonialismo europeu virado para dentro, tem razão. E desde a reabilitação das vítimas do nazismo enquanto brancos, a Europa e o seu cúmplice americano não pararam de praticar políticas dignas dos nazis com todos os horrores aplicados às populações não brancas pelo mundo fora: na Coreia, no Vietname e na Indochina, na Argélia, na indonésia, na América central e na América do sul, na África do sul, na Palestina, no Irão no Iraque e no Afeganistão.
A reabilitação dos Judeus da Europa após a Segunda Guerra mundial era um elemento essencial na propaganda dos Estados Unidos durante a Guerra Fria. Enquanto os sociólogos e ideólogos americanos desenvolviam a teoria do «totalitarismo», que estipulava que o comunismo soviético e o nazismo eram essencialmente o mesmo tipo de regime, os Judeus da Europa, enquanto vítimas de um regime totalitário, tornaram-se parte integrante da exposição das atrocidades que a América e a propaganda na Europa do Oeste apresentavam como as atrocidades que o regime soviético cometia nos períodos de pré e pós-guerra. Israel apenas apanhou o comboio em andamento, acusando os Soviéticos de anti-semitismo por não deixarem os cidadãos Judeus soviéticos saírem para se instalar em Israel.
Foi deste modo que o compromisso americano e europeu pela supremacia branca foi preservado, excepto que agora incluía os Judeus como fazendo parte da população «branca» e daquilo que se passou a chamar a civilização «judeo-cristã». As políticas europeias e americanas após a Segunda Guerra mundial – continuando a inspirar-se e a serem ditadas pelo racismo contra os Ameríndios, os Africanos, os Asiáticos, os Árabes e os muçulmanos, e apoiando o programa anti-semita do sionismo para que os judeus se assimilassem enquanto brancos num Estado colonial afastado da Europa – eram uma continuação directa das políticas anti-semitas da pré-guerra. Uma grande parte do veneno racista anti-semita podia agora reportar-se sobre os árabes e os muçulmanos (simultaneamente, os emigrantes e os cidadãos da Europa e dos Estados Unidos e os que vivem na Ásia e em África), enquanto o velho apoio anti-semita ao sionismo continuava sem entraves.
A aliança entre a Alemanha do oeste e o sionismo e Israel após a Segunda Guerra mundial – além de fornecer a Israel uma enorme ajuda económica nos anos 1950, assim como apoio económico e militar desde o início dos anos 1960, entre os quais tanques que servem para matar Palestinianos e outros Árabes – é uma continuação da aliança que o governo nazi tinha acordado com os sionistas nos anos 1930. Nos anos 1960, a Alemanha do oeste até forneceu uma formação militar aos soldados israelitas e, desde os anos 1970, tem equipado Israel com submarinos nucleares de fabricação alemã com os quais Israel espera matar ainda mais Árabes e muçulmanos.
Estes últimos anos, Israel equipou os mais recentes submarinos alemães que recebeu, com mísseis nucleares de cruzeiro, o que o governo alemão sabe muito bem. O ex-ministro israelita da defesa, Ehud Barak, declarou ao Der Spiegel em 2012 que os alemães podem se sentir «orgulhosos» de terem assegurado a existência do Estado de Israel «durante numerosos anos». Berlim financiou um terço dos custos dos submarinos, ou seja cerca de 135 milhões de euros por submarino e permitiu a Israel de repor o pagamento até 2015.
Que isto faça da Alemanha um cúmplice do desapossar dos palestinianos não é uma preocupação dos actuais governos alemães, assim como não o era nos anos 1960 para o chanceler da Alemanha do oeste, Konrad Adenauer, que afirmava que «a República Federal não tem nem o direito, nem a responsabilidade de tomar uma posição acerca dos refugiados palestinianos.»
Isto deve ser adicionado aos mil milhões que a Alemanha pagou ao governo israelita em compensação pelo Holocausto, como se Israel e o sionismo tivessem sido as vítimas do nazismo quando, na realidade, foram os Judeus anti-sionistas que foram mortos pelos nazis. O actual governo alemão não se preocupa com o facto que mesmo os Judeus alemães que fugiram dos nazis e que se encontraram na palestina odiavam o sionismo e o seu projecto e eram por sua vez odiados pelos colonos sionistas na Palestina.
Como os refugiados alemães dos anos 1930 e 1940 na Palestina recusavam-se a aprender o hebreu e publicavam meia dúzia de jornais alemães no país, foram atacados pela imprensa hebraica, inclusive o Haaretz, que reclamou o encerramento dos seus jornais em 1939 e novamente em 1941. Colonos sionistas atacaram em Telavive um café alemão porque os seus proprietários judeus recusavam-se em falar hebreu e em Junho de 1944, a municipalidade de Telavive ameaçou alguns dos seus residentes judeus alemães que organizavam no seu domicílio, no 21 da rua Allenby, «festas e bailes inteiramente em língua alemã, inclusive programas estrangeiros ao espírito da nossa cidade» e declarou que «isso não seria tolerado em Telavive». Os Judeus alemães, ou os Yekkies, como são apelidados no seio do Yishuv, até iam organizar uma celebração do aniversário do imperador, em 1941 (para mais detalhes sobre este assunto e sobre os refugiados alemães judeus na Palestina, ler o livro de Tom Segev intitulado The Seventh Million).
É preciso adicionar a isto tudo, o apoio Alemão às medidas israelitas contra os palestinianos na ONU e o quadro está completo. Até o novo memorial do Holocausto, construído em Berlim e que foi inaugurado em 2005, mantém o apartheid racial nazi, posto que este «Memorial dos Judeus da Europa assassinados» é apenas destinado às vítimas judias dos nazis e que ainda hoje convém pôr de parte, como o tinha ordenado Hitler, os outros milhões de vítimas não judias elas também do nazismo.
O facto que uma filial da sociedade alemã Degussa, que colaborou com os nazis e que produziu o gás Zyklon B utilizado para matar as pessoas nas câmaras de gás, recebeu um contrato para construir o memorial não é de todo surpreendente, posto que isto apenas confirma que aqueles que mataram os Judeus na Alemanha no final dos anos 1930 e nos anos 1940, hoje em dia, lamentam o que fizeram porque hoje percebem que os Judeus são Europeus brancos que convém comemorar e que não se deveria tê-los mortos, em primeiro lugar por causa da brancura da sua pele. A política alemã de incentivo ao massacre dos Árabes por Israel tem pouco a ver com o seu compromisso com o anti-semitismo, que continua por meio do racismo alemão contemporâneo, predominante relativamente aos muçulmanos e que visa os imigrantes muçulmanos.

A tradição anti judia na Europa e na América

O Holocausto judeu matou a maioria dos judeus que recusavam e combatiam o anti-semitismo europeu, inclusive o sionismo. Com a morte deles, os únicos «semitas» que existem e que combatem o sionismo e o seu anti-semitismo são hoje os Palestinianos. Enquanto Israel insiste sobre o facto que os judeus europeus não têm lugar na Europa e que devem vir para a Palestina, os Palestinianos sempre insistiram em dizer que as pátrias dos Judeus europeus eram os seus países europeus e não a Palestina, e que o colonialismo sionista deriva do seu próprio anti-semitismo. Enquanto os sionistas pretendem que os Judeus são uma raça diferente dos cristãos europeus, os Palestinianos afirmam pelo contrário que os Judeus europeus não são nada a não ser Europeus e que não têm nada em comum com a Palestina, o seu povo ou a sua cultura.
O que Israel e os seus aliados americanos e europeus quiseram fazer ao longo destas seis décadas e meia, é de convencer os Palestinianos de que deviam se tornar anti-semitas, eles também, e acreditar, à semelhança dos nazis, de Israel e dos seus aliados anti-semitas ocidentais, que os judeus são uma raça diferente das raças europeias, que a Palestina é o país deles que Israel fala em nome de todos os Judeus. O facto que os dois mais importantes blocos de eleitores pró-israelitas dos Estados Unidos são os protestantes milenaristas e os imperialistas laicos persegue exactamente a mesma tradição anti-judia euro-americana que remonta à Reforma protestante e ao imperialismo do século XIX. Mas os Palestinianos nunca conseguiram convencer-se e obstinam-se em resistir ao anti-semitismo.
Israel e os seus aliados anti-semitas afirmam que Israel é «o povo judeu», que a sua política é a política «judia», que as suas realizações são «judias», que os seus crimes são crimes «judeus» e que, por conseguinte, todos os que ousam criticar Israel criticam de facto os Judeus e são impreterivelmente anti-semitas. O povo palestiniano tem construído uma luta maior contra esta incitação anti-semita. Continua de afirmar firmemente que o governo israelita não fala em nome de todos os Judeus, que não representa todos os Judeus e que os seus crimes coloniais contra o povo palestiniano são os seus próprios crimes e não os crimes do «povo judeu» e que, de facto, deve ser criticado, condenado e perseguido pelos seus crimes de guerra ainda a decorrerem contra o povo palestiniano.
Não se trata de uma nova posição palestiniana. De facto, já tinha sido adoptada na viragem do século XX e perseguida ao longo da luta palestiniana contra o sionismo antes da Segunda Guerra mundial. O discurso de Yasser Arafat nas Nações Unidas, em 1974, insistiu veementemente sobre todos estes pontos:

Do mesmo modo que o colonialismo se serviu levianamente dos deserdados, dos explorados como de uma vulgar matéria inerte com a qual podia construir e realizar um colonialismo de implantação, os Judeus europeus indigentes, oprimidos foram utilizados em nome do imperialismo mundial e dos dirigentes sionistas. Os Judeus europeus foram transformados em instrumentos de agressão; tornaram-se os elementos do colonialismo de implantação intimamente ligado à discriminação racial (...). A teologia sionista foi utilizada contra o nosso povo palestiniano: o objectivo era não só a instalação de um colonialismo de implantação de estilo ocidental, mas também a separação dos Judeus das suas diversas pátrias e, por conseguinte, a sua alienação relativamente às suas nações. O sionismo (…) está unido ao anti-semitismo nos seus dogmas retrógrados e, uma vez que tudo foi dito e consumado, é outra face da mesma falsa moeda. Porque quando se propõe que os adeptos da fé judia, qualquer que seja a nação onde residem, não devem nem obediência à sua residência nacional, nem vivem sobre um pé de igualdade com os outros cidadãos não judeus, quando isto é proposto, percebemos muito bem que se trata de uma proposta anti-semita. Quando se propõe que a única solução ao problema judeu é que os Judeus se devem alienar das comunidades ou nações de que constituem um elementos histórico, quando se propõe que os Judeus resolvam o problema judeu pela imigração e a instalação pela força sobre as terras de outro povo, quando isso acontece, estamos a defender exactamente a mesma posição que aquela que defendem os anti-semitas contra os Judeus.

A afirmação por parte de Israel de que as pessoas que o criticam são anti-semitas pressupõe que essas mesmas pessoas críticas acreditem nas suas pretensões em querer representar «o povo judeu». Mas são as próprias afirmações por parte de Israel daquilo que representa e de falar em nome de todos os Judeus que são de todas as afirmações as mais anti-semitas.
Hoje em dia, Israel e as potências ocidentais querem erigir o anti-semitismo em princípio internacional em torno do qual procuram estabelecer uma unanimidade plena. Insistem sobre o facto que, para que haja paz no Médio Oriente, os palestinianos, os Árabes e os muçulmanos devem tornar-se, tal como o ocidente, anti-semitas, adoptando o sionismo e reconhecendo as reivindicações anti-semitas de Israel. Tirando os regimes ditatoriais árabes e a autoridade palestiniana e os seus amigos, neste 65º aniversário da conquista anti-semita da Palestina pelos sionistas – que os palestinianos chamam a Nakba -, o povo palestiniano e os poucos judeus anti-sionistas sobreviventes continuam de recusar em ter em conta este apelo internacional e esta incitação ao anti-semitismo.
Afirmam que são, enquanto últimos dos Semitas, os herdeiros das lutas judias e palestinianas anteriores à Segunda Guerra mundial contra o anti-semitismo e a sua manifestação colonial sionista. É a resistência deles que trava o caminho a uma vitória completa do anti-semitismo europeu no Médio Oriente e no mundo inteiro.

Joseph Massad
Tradução: GAP
* Joseph Massad é professor associado de política árabe e de história intelectual na Universidade de Colúmbia. O seu último livro intitula-se :  The Persistence of the Palestinian Question ; Essays on Zionism and the Palestinians.
Este artigo foi inicialmente censurado na Aljazeera que pouco depois voltou a disponibilizá-lo.
Encontra-se aqui no original inglês: http://www.aljazeera.com/indepth/opinion/2013/05/2013521184814703958.html

E aqui na tradução francesa: http://www.info-palestine.eu/spip.php?article13571

Tradução: Os E.U. e Israel, Não o Irão, Ameaçam a Paz. Por Noam Chomsky

Publicado terça-feira 4 de Setembro de 2012 em Common Dreams

Os E.U. e Israel, Não o Irão, Ameaçam a Paz

Por Noam Chomsky



Não é fácil mudar de pele e tentar ver o mundo de forma diferente daquela que nos é apresentada dia após dia. Mas é útil experimentar. Vejamos alguns exemplos.


Os tambores da guerra soam cada vez mais forte sobre Irão. Imaginem esta situação totalmente inversa:

O Irão está a empreender uma guerra mortífera e destrutiva de «baixo nível» contra Israel com uma grande força de participação. Os seus dirigentes anunciam que as negociações não levam nenhures. Israel recusa-se em assinar o Tratado de não proliferação e permite uma inspecção, tal como o fez o Irão. Israel continua em desafiar o esmagador pedido internacional por uma zona livre de armas nucleares na região. Por todas partes, o Irão goza do apoio do seu protector todo-poderoso.


Portanto, os dirigentes iranianos estão a anunciar a sua intenção de bombardear Israel e proeminentes analistas militares iranianos informam que o ataque pode acontecer antes das eleições nos E.U.·


O Irão pode utilizar a sua potente força aérea e os novos submarinos enviados pela Alemanha, armados com mísseis nucleares e estacionados na costa de Israel. Independentemente da agenda, o Irão está a contar com o seu todo-poderoso apoiante para juntar-se ou até dirigir a agressão. Leon Panetta, secretário da defesa dos E.U., diz que enquanto não favorecemos um tal ataque, o Irão, enquanto país soberano, agirá segundo os seus interesses.


Claro que tudo isto é inimaginável, ainda que esteja a acontecer de facto, mas com uma repartição de papéis inversa. Certo, as analogias nunca são exactas, e estas são injustas para com o Irão.


Tal como o seu protector, Israel recorre à violência tanto quanto lhe apraz. Persiste em construir colónias ilegais em território ocupado, alguns territórios anexados, tudo isto desafiando as leis internacionais e o Conselho de Segurança da ONU desavergonhadamente. Repetidamente, levou a cabo ataques brutais contra o Líbano e as pessoas encarceradas em Gaza, matando dezenas de milhares sem pretexto credível.


Há trinta anos, Israel destruiu um reactor nuclear iraquiano, um acto que foi recentemente louvado, evitando a forte evidencia, mesmo por parte dos serviços de inteligência dos E.U., que o bombardeamento não acabou com o programa de armas nucleares de Saddam Hussein mas que lhe deu início. O bombardeamento do Irão poderia ter o mesmo resultado.


O Irão também levou a cabo agressões – mas durante cerca dos últimos cem anos, foi sob o regime do Xá, apoiado pelos E.U, quando conquistou ilhas árabes no Golfo Pérsico.

 
O Irão envolveu-se em programas de desenvolvimento nuclear sob o Xá, com o forte apoio oficial de Washington. O governo iraniano é brutal e repressivo, como o são os aliados de Washington na região. O aliado mais importante, a Arábia Saudita, é o mais extremista regime islâmico fundamentalista e gasta fundos enormes para espalhar as suas doutrinas radicais Wahhabistas noutros lugares. As ditaduras do Golfo, igualmente aliadas favorecidas pelos E.U., têm severamente reprimido qualquer esforço popular para se juntar à Primavera Árabe.


O Movimento dos Não Alinhados – os governos da maioria da população mundial – encontram-se agora em Teerão. O grupo tem defendido vigorosamente o direito do Irão em desenvolver o urânio enriquecido e alguns membros, a índia, por exemplo, adere apenas parcialmente e sem convicção ao duro programa de sanções dos E.U.


Os delegados do NAM reconhecem sem dúvidas a ameaça que domina a discussão no ocidente, lucidamente articulado por Gen. Lee Butler, anterior dirigente do Comando Estratégico dos E.U.: «é extremamente perigoso, no caldeirão das animosidades a que chamamos o Médio Oriente,» que uma nação se dote de armas nucleares, «inspirando outras nações a fazer o mesmo».


Butler não se está a referir ao Irão, mas sim a Israel, que é considerado pelos países Árabes e pela Europa como sendo o maior perigo para a paz no Mundo Árabe, sendo que os Estados Unidos se encontram em segundo lugar, enquanto o Irão, apesar de não ser apreciado, está longe de ser temido. O facto é que muitos inquéritos indicam que uma maioria considera que a região seria mais segura se o Irão tivesse armas nucleares para equilibrar as ameaças intuídas. 


Se o Irão está de facto a encaminhar-se para ter armas nucleares – o que ainda é desconhecido pelos serviços secretos dos E.U – pode ser porque está a ser “inspirado para fazê-lo” pelas repetidas ameaças feitas pelos E.U. e Israel em violação explícita da Carta das N.U.

 
Por que razão será que o Irão é visto como a maior ameaça à paz mundial no discurso oficial do Ocidente? A razão primária é reconhecida pelo exército e serviços secretos dos E.U. e seus homólogos israelitas: o Irão poderia dissuadir o recurso ao uso da força pelos Estados Unidos e Israel.


Além de mais, o Irão tem de ser castigado pelo seu «desafio bem-sucedido», que era a acusação de Washington contra Cuba há meio século, e ainda a força orientadora para a agressão dos E.U. contra Cuba que continua apesar da condenação internacional.

  
Outros acontecimentos apresentados nas primeiras páginas também podem beneficiar de uma perspectiva diferente. Suponhamos que Julian Assange tenha divulgado documentos russos revelando informações importantes que Moscovo quisesse esconder do público e que as circunstancias fossem de outro modo idênticas.


A Suécia não teria dúvidas em perseguir a sua única preocupação anunciada, aceitando a oferta de interrogar Assange em Londres. Declararia que se Assange regressasse à Suécia (tal como aceitou fazer), não seria extraditado para a Rússia, onde as possibilidades de um julgamento justo seriam improváveis.  


A Suécia seria honrada por este apoio exemplar. Assange seria louvado por realizar um serviço público – que, naturalmente, não evitaria a necessidade de tomar as acusações contra ele tão seriamente como em todos os casos semelhantes.


Aqui, as notícias proeminentes são as eleições nos E.U. Uma perspectiva adequada foi proporcionada pelo Tribunal Supremo de Justiça dos E.U. Louis Brandeis, que sustentou que «Podemos ter democracia neste país, ou podemos ter a riqueza concentrada nas mãos de uns quantos, mas não podemos ter ambos.»

Guiado por aquela ideia, a cobertura das eleições deveria centrar-se no impacto da riqueza na política, extensivamente analisada no estudo recente intitulado «Affluence and Influence: Economic Inequality and Political Power in América» por Martin Gilens. Este descobriu que a grande maioria é “impotente para configurar a política do governo” quando as suas preferências divergem da dos ricos, que no fundo obtêm o que querem quando lhes interessa.


Vem então uma pequena preciosidade, num recente ranking dos 31 membros da Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Económico - em termos de justiça social - os Estados Unidos encontram-se no 27º lugar, apesar das suas extraordinárias vantagens.


Ou que o tratamento racional dos assuntos tem a tendência para se evaporar durante a campanha eleitoral, por vezes em jeito de comédia.


Para dar um exemplo, Paul Krugman informa que o muito admirado Grande Pensador do Partido Republicano, Paul Ryan, declara que as suas ideias sobre o sistema financeiro derivam de uma personagem de um romance de fantasia – “Atlas Shrugged” – que reclama o uso de moedas de ouro em vez de papel.  


Só nos resta tirar ilações de um realmente brilhante escritor, Jonathan Swift. Nas “Viagens de Gulliver”, os seus sábios de Lagado carregam todos os seus bens com eles em pacotes às costas, e portanto podiam utilizá-los como moeda de troca sem os entraves do ouro. Então a economia e a democracia poderiam verdadeiramente florescer – e melhor ainda, a desigualdade diminuiria bruscamente, uma dádiva para o espírito da Justiça Brandeis.


© 2012 Noam Chomsky

Tradução Ana da Palma do original AQUI

Apertadinhos

 

 

 

Enquanto os resultados da «representatividade» se esbanjam nos media, mais de 300 militantes do movimento dos Indignados vindos de Ile-de-France, Toulouse, Bayonne, Marseille, Angers e Lille juntaram-se, no sábado, em Paris, para denunciar a «mascarada eleitoral».

Apelam para uma "démocratie réelle" e revelam o verdadeiro rosto da crise de legitimidade da democracia representativa.

Apelam para a organização local em assembleias populares para encontrar soluções no campo do ambiente, da saúde, da educação, da alimentação, etc..

Juntaram-se perto do centro Pompidou na Fontaine des Innocents para seguir para o Champ-de-Mars, onde pretendem permanecer até 12 de Maio organizando acções anticapitalistas e assembleias populares. 

Distopia ou a organização do Ocidente e a minha ingenuidade em acção

(Outros tempos nefelibatas 1- Nuvem primaveril Monte da lapa Porto Abril 2011)

 

Constatação do pensar para dentro 1

 

Estive a pensar «para dentro» sobre a forma como o nosso mundo está orquestrado.

Acima dos nossos Estados (Quando existem! O que não acontece com a Palestina ou o Saara ocidental; o que causou problemas em vários pontos do continente africano; e que ainda está num estado latente, ou dormente, em certos cantos da Europa do leste) há as organizações mundiais e internacionais criadas pelas nações ocidentais, resultado e reflexo de uma estrutura e pensamento ocidental...ONU, OTAN, OCDE, FMI, OMS, OMT, ect. De facto é tudo muito vertical, da terra para o céu, de baixo para cima, ou melhor, isto se nos colocarmos em termos de autoridade, de cima para baixo; do poderoso para o fraco....Enfim, depois dentro destas organizações ainda há outra lógica seguindo a mesma vertical onde alguns têm mais poder do que outros.... Curioso, não? Os poderosos deslocam-se num eixo paradigmático e impõem os seus caprichos deslocando-se alegrmente sobre o eixo sintagmático que os colocou no sítio onde estão...

 

Reflexão pensando para dentro 1

 

No que concerne a Palestina em particular, considerando o percurso histórico, se é que se pode falar de percurso, antes dos ingleses colonizarem o espaço, havia uma Palestina que funcionava como um todo. Este todo não correspondia à nossa concepção de uma nação. Mas o que é que nos indica que devemos obrigatoriamente funcionar como Nação nos termos estabelecidos pelo tempo da história? O que é que nos diz que devemos estar submetidos a organizaões mundiais que não estão a funcionar de forma nem democrática, nem transparente?

 

 

Reflexão pensando para dentro 2

 

Não há dúvidas quanto à reconfiguração do Tempo e do Espaço nestes momentos?

 

 

 

 

 

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