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ARESTAS

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Apontamentos sobre Crítica da razão negra de Achille Mbembe

Citações de: Achille Mbembe (2014). Crítica da razão negra. Lisboa: Antígona.

 “(...) a raça será um complexo perverso, gerador de medos e de tormentos, e de problemas do pensamento e de terror, mas sobretudo de infinitos sofrimentos e, eventualmente, de catástrofes.” (Mbembe, 2014, 25)

Face à transformação da economia da violência no mundo, os regimes democráticos liberais consideram-se agora em estado de guerra quase permanente contra novos inimigos fugidios, móveis e reticulares.”(Mbembe, 2014, 48)

A raça, deste ponto de vista, funciona como um dispositivo de segurança fundado naquilo que poderíamos chamar o princípio do enraizamento biológico pela espécie. A raça é, simultaneamente, ideologia e tecnologia do governo.” (Mbembe, 2014, 71)

Sou um ser humano, e isso basta. O Outro pode disputar em mim esta qualidade, mas nunca conseguirá tirar a minha pele ontológica.” (Mbembe, 2014, 88)

"A ordem colonial baseia-se na ideia segundo a qual a Humanidade está dividida em espécies e subespécies, que podemos diferenciar, separar e classificar hierarquicamente. Tanto no ponto de vista da lei como em termos de configurações espaciais, tais espécies e subespécies devem ser mantidas à distância umas das outras." (Mbembe, 2014, 119)

"A ideia moderna da democracia, tal como o próprio liberalismo, é portanto inseparável do projecto de globalização comercial, do qual a plantação e a colónia são o epicentro." (Mbembe, 2014, 142)

"O medo racial, em particular, foi desde sempre um dos pilares da cultura do medo intrínseca à democracia liberal. A consequência deste medo, lembra Foucault, tem sido o crescimento de processos de controlo, de coacção e de coerção, que, longe de serem aberrações, surgem como contrapartida às liberdades." (Mbembe, 2014, 144)

"(...) é a raça que efectivamente permite fundar, não apenas a diferença em geral, mas também a própria ideia de nação e de comunidade, uma vez que são determinantes raciais que servem de base moral à solidariedade política. A raça é a prova ( ou, por vezes, a justificação) para a existência da nação.” (Mbembe, 2014, 158)

Por outras palavras, África só existe a partir de uma biblioteca colonial por todo o lado imiscuída e insinuada, até no discurso que pretende refutá-la, a ponto de, em matéria de identidade, tradição ou autenticidade, ser impossível, ou pelo menos difícil, distinguir o original da sua cópia e, até, do seu simulacro. Assim, a identidade negra só pode ser problematizada enquanto identidade em devir. Nesta perspectiva, o mundo deixa de ser, em si, uma ameaça. O mundo, pelo contrário, torna-se uma vasta rede de afinidades. (…) Há uma identidade em devir que se alimenta simultaneamente de diferenças entre Negros, tanto do ponto de vista étnico, geográfico, como linguístico, e de tradições herdeiras do encontro com Todo o Mundo.” (Mbembe, 2014, 166-167)

"Todo o poder, por princípio, só é poder pelas suas capacidades de metamorfose” (…) Ter poder é, portanto, saber dar e receber formas. Mas é também saber desprender-se de formas dadas, mudar tudo e permanecer o mesmo, desposar formas de vida inéditas e entrar sempre em relações novas com a destruição, a perda e a morte. O poder é também corpo e substância. Numa primeira instância, é corpo-feitiço (…). Mas é também um corpo-adorno, um corpo-ornamento, um corpo-cenário.(...) O poder é farmácia pela sua capacidade de transformar os recursos da morte em força germinadora – a transformação a conversão de recursos de morte em capacidade de cura.” (Mbembe, 2014, 227)

"A cor negra não tem, portanto, sentido. Só existe por referência a um poder que a inventa, uma infra-estrutura que a suporta e a contrasta com outras cores e, por fim, num mundo que a designa e a axiomatiza.(...) No fundo, só existe “Negro” em relação a um “Senhor” (…). Fora desta dialéctica da posse, da pertença e plástica, não existe “negro” enquanto tal." (Mbembe, 2014, 257-258)

"Neste caminho, os novos condenados da Terra são aqueles a quem é recusado o direito de ter direitos, aqueles que, segundo se pensa, não se devem manifestar, os condenados a viver em toda a espécie de estruturas de reclusão – os campos de concentração, as prisões de passagem, os milhares de lugares de detenção espalhados pelos nossos espaços jurídicos e policiais.(...) Os novos condenados da Terra são o resultado de um brutal trabalho de controlo e de selecção cujos pressupostos raciais são bem conhecidos." (Mbembe, 2014, 296)

"A verdadeira política de identidade consiste em incessantemente alimentar, actualizar e reactualizar as suas capacidades de auto-invenção. (…) É verdade que o mundo é antes de mais uma forma de relação consigo mesmo. Mas não há nenhuma relação consigo mesmo que não passe pela relação com o Outro." (Mbembe, 2014, 297)

"Assim, só existe mundo por nomeação, delegação, mutualidade e reciprocidade." (Mbembe, 2014, 300-301)

"(...) a construção do comum é inseparável da reinvenção da comunidade." (Mbembe, 2014, 305)

 

 

Tradução: Os Últimos dos Semitas por Joseph Massad

Os Últimos dos Semitas

Os oponentes judeus ao sionismo perceberam que este movimento, desde o início, partilhava preceitos com o anti-semitismo, no que concerne o seu diagnóstico daquilo que os europeus não Judeus (os Gentios) chamavam a «questão judia». Contudo, o que ulcerou ainda mais os Judeus anti-sionistas foi que o sionismo retomou por sua conta a «solução» para a questão judia, aquela que os anti-semitas sempre tinham preconizado, ou seja a expulsão dos Judeus da Europa.
Foi a Reforma protestante, com a retomada da bíblia hebraica, que estabeleceu a ligação entre os Judeus modernos da Europa e os antigos Hebreus da Palestina, uma ligação que os filólogos do século XVIII consolidaram pela sua descoberta da família de línguas chamadas «semitas» entre as quais se encontram o hebraico e o árabe.
Enquanto os Protestantes milenaristas sustentavam que os Judeus contemporâneos, enquanto descendentes dos antigos Hebreus, deviam sair da Europa com rumo à Palestina, de forma a acelerar a segunda vinda de Cristo, as descobertas filológicas conduziram à rotulagem dos Judeus contemporâneos enquanto «semitas». Não foi portanto um passo de gigante que, no século XIX, as ciências biológicas da raça e da hereditariedade fizeram ao considerarem os Judeus europeus contemporâneos como os descendentes raciais dos antigos hebreus.


Com base nas conexões feitas pelos protestantes milenaristas anti-judeus, personalidades europeias laicas verificaram a vantagem política de que beneficiariam do «restabelecimento» dos Judeus na Palestina no século XIX. Menos interessados pela aceleração da segunda vinda do Cristo, tal como queriam os milenaristas, estes homens políticos laicos, desde Napoleão Bonaparte ao ministro britânico dos negócios estrangeiros Lord Palmerston (1785-1865) até Ernest Laharanne, o secretário privado de Napoleão III nos anos 1860, procuraram expulsar os Judeus da Europa para a Palestina para fazer deles agentes do imperialismo europeu na Ásia.
O apelo deles foi apoiado por numerosos «anti-semitas», uma nova etiqueta escolhida pelos racistas europeus anti-judeus após a sua invenção em 1879 por um jornalista vienense menor de nome Wilhelm Marr, que publicou um programa político intitulado A vitória do Judaísmo sobre o Germanismo (http://www.kevinmacdonald.net/Marr-Text-English.pdf). Marr teve o cuidado de separar o anti-semitismo da história do ódio cristão dos judeus com base na religião, acentuando, directamente vindo da filologia semítica e das teorias raciais do século XIX, ou seja que a distinção a fazer entre os Judeus e os Arianos era estritamente racial.

Assimilar os Judeus à cultura europeia

O anti-semitismo científico afirmava que os Judeus eram diferentes dos Europeus cristãos. E claro que os Judeus não eram de todo europeus e que a sua presença no seio da Europa era a causa do anti-semitismo. A razão pela qual os Judeus causavam tantos problemas aos Cristãos europeus estava relacionado com o seu suposto desenraizamento, faltando-lhes um país, portanto faltava-lhes a lealdade nacional. Na idade romântica dos nacionalismos europeus, os anti-semitas argumentaram que os Judeus não se enquadravam nas novas configurações nacionais e que perturbavam a pureza nacional e racial essencial à grande parte dos nacionalismos europeus.
Por esta razão, os anti-semitas sustentavam que se os Judeus ficassem na Europa, apenas provocariam a hostilidade dos cristãos Europeus. A única solução para os Judeus era de sair da Europa e de ter o seu próprio país. Não precisamos de realçar o quanto os Judeus religiosos e laicos estavam opostos a esta terrificante forma de pensar anti-semita. Os Judeus ortodoxos e reformistas, os Judeus socialistas e comunistas, os Judeus de cultura cosmopolita estavam de acordo que se tratava de uma ideologia perigosa e hostil que procurava expulsar os Judeus das suas pátrias europeias.
A Haskalah judia, ou Luzes, que emergiu também no século XIX, é um movimento de pensamento que se traduz numa vontade de integração dos Judeus nas sociedades laicas europeias não judias fazendo-lhes abandonar a sua cultura judia. Foi a Haskalah que procurou quebrar a hegemonia dos rabinos judeus ortodoxos sobre os «Ostjuden» [Judeus do Leste] das pequenas vilas da Europa do Leste e abandonar o que percebiam ser uma cultura judia «medieval» a favor da cultura laica moderna dos Cristãos europeus. Um Judaísmo reformado, como uma variante cristã – e de tipo protestante – do Judaísmo, emergiu no seio da Haskalah . No entanto, este programa assimilacionista procurou integrar os Judeus na modernidade europeia, não expulsa-los para fora da geografia da Europa.
Há um século e meio, quando o sionismo começou, após a publicação do programa anti-semita de Marr, ele aderiu a todas estas ideias anti-judias, inclusive o anti-semitismo científico considerado como sendo válido. Para o sionismo, os Judeus eram «semitas», cujos antepassados eram os antigos Hebreus. Na sua brochura fundadora, Der Judenstaat [O Estado dos Judeus], Herzl explicava que eram os Judeus, e não os seus inimigos cristãos, que eram a «causa» do anti-semitismo e que «onde não existe, [o anti-semitismo] é trazido pelos Judeus durante as suas migrações», dado que «os desgraçados Judeus levam as sementes do anti-semitismo para Inglaterra; já as introduziram na América»; que os Judeus eram uma «nação» que deveria deixar a Europa para restaurar o seu «estatuto de nação» na Palestina ou na Argentina; que os Judeus deveriam imitar os Cristãos europeus de um ponto de vista cultural e abandonar as suas línguas e tradições vivas a favor das línguas europeias modernas ou uma língua nacional antiga restaurada.
Herzl preferia que todos os Judeus adoptassem o alemão, enquanto os sionistas da Europa do Leste preferiam o hebreu. Depois de Herzl, os sionistas até aceitaram e afirmaram que os Judeus eram racialmente separados dos Arianos. Quanto ao Yiddish, a língua viva de grande parte dos Judeus europeus, os sionistas achavam que devia ser abandonada.
A maioria dos Judeus continuou a resistir ao sionismo e percebeu que os seus preceitos, tal como os do anti-semitismo e como a demanda da Haskalah de abandonar a cultura judia e de assimilar os Judeus na cultura europeia laica não judia, excepto que o sionismo procurava perseguir este último objectivo não no interior da Europa, mas numa região geográfica longínqua que resultasse da expulsão dos Judeus da Europa. O Bund, a União geral dos trabalhadores judeus da Lituânia, da Polónia e da Rússia, que foi criado em Vílnius a 7 de Outubro de 1897, algumas semanas após o primeiro Congresso sionista em Basileia no final de Agosto 1897, tornou-se o mais feroz inimigo do sionismo. O Bund juntou-se à coligação judia anti-sionista existente, composta por rabinos ortodoxos e reformistas que alguns meses antes uniram os seus esforços para impedir Herzl de convocar o primeiro congresso sionista em Munique, o que o forçou a fazê-lo em Basileia. O anti-sionismo judeu, na Europa e nos Estados Unidos, tinha o apoio da maioria dos Judeus que continuavam de ver o sionismo como um movimento anti-judeu até aos anos 1940.

Uma corrente anti-semita de pro-sionistas entusiastas

Ao perceber que o seu plano para o futuro dos Judeus europeus encontrava-se alinhado com o dos anti-semitas, Herzl elaborou muito rapidamente uma estratégia de aliança com eles. Declarou no Estado dos Judeus que: «Os governos de todos os países atingidos pelo anti-semitismo estarão interessados em nos ajudar a obter a soberania que desejamos.»
Acrescentou que «não só os Judeus pobres» contribuiriam para um fundo para a imigração dos Judeus europeus, «mas também os Cristãos que se querem ver livres deles». Herzl não teve complexos em confiar no seu Jornal que : «Os anti-semitas tornar-se-ão os nossos mais fiáveis amigos, os países anti-semitas os nossos aliados.»
 
Assim, em 1903, quando Herzl começou a encontrar-se com notáveis anti-semitas, tal como o ministro russo do Interior, Vyacheslav von Plehve, que supervisionou os pogromes anti-judeus na Rússia, foi uma aliança que procurou com um objectivo. Quer seja o anti-semita Lord Balfour, que enquanto Primeiro ministro da Grã-Bretanha em 1905, supervisionou a Lei sobre os Estrangeiros do seu governo, que impedia os Judeus da Europa do Leste fugindo os pogromes russos de entrar na Grã-Bretanha para, como o declarou, salvar o país dos «incontestáveis males» de «uma imigração que era essencialmente judia» não foi uma coincidência.
A infame declaração Balfour de 1917, criando na Palestina um «lar nacional» para «o povo judeu» foi concebida, entre outras coisas, para reduzir o apoio judeu à Revolução russa e para reprimir o fluxo de emigrantes judeus indesejáveis na Grã-Bretanha.
Os Nazis não foram excepção nesta corrente anti-semita de pró-sionistas entusiastas. Com efeito, muito cedo na sua história, os sionistas estabeleceram um acordo com os nazis. Foi em 1933 que o infame Acordo de Transferência (Ha’avara) foi assinado entre os sionistas e o governo nazi para facilitar a transferência dos Judeus alemães e dos seus haveres para a Palestina e que este quebrou o boicote judeu internacional à Alemanha nazi iniciado pelos judeus americanos.
Foi neste espírito que emissários nazis foram enviados para a Palestina para produzirem relatórios acerca dos êxitos da colonização judia no país. Adolf Eichmann regressou da sua viagem à Palestina em 1937, com relatos fantásticos sobre os feitos de um kibutz asquenazim com a separação racial, um dos que visitou no monte Carmel enquanto convidado dos sionistas.   
Apesar da esmagadora oposição da maioria dos Judeus alemães, a Federação sionista da Alemanha foi a única organização judia a apoiar as leis de Nuremberga de 1935, dado que partilhavam da opinião dos nazis de que os Judeus e os Arianos eram raças distintas e deviam ser separadas. Não se tratava de um apoio táctico, mas da ilustração de uma proximidade ideológica. A solução final dos nazis significava nesse momento a expulsão dos Judeus alemães para Madagáscar. É este objectivo comum acerca da expulsão dos Judeus da Europa, enquanto raça distinta e não assimilável, que criou uma afinidade durável entre os nazis e os sionistas.
Enquanto a maioria dos Judeus continuava a resistir à natureza anti-semita do sionismo e às suas alianças com os anti-semitas, o genocídio nazi não só massacrou 90% dos Judeus da Europa, mas também matou a maioria judia inimiga do sionismo que morreram precisamente por se recusarem a responder ao apelo sionista de abandonar o seu país e as suas casas.
Depois da guerra, o horror do massacre das comunidades judias da Europa (o Holocausto) não impediu os países europeus de continuar a apoiar o programa anti-semita do sionismo. Pelo contrário, esses países partilharam com os nazis uma predilecção pelo sionismo. Apenas condenavam o programa genocídio do nazismo. Os países europeus, com os Estados Unidos, recusaram-se em encarregar-se centenas de milhares de sobreviventes judeus. Estes países até votaram contra uma resolução apresentada nas Nações Unidas pelos Estados árabes em 1947 que lhes pedia de acolher os sobreviventes Judeus. Mas, estes mesmos países que rejeitaram a resolução serão os que irão apoiar o plano de partição das Nações Unidas de Novembro de 1947 para criar um Estado judeu na Palestina para o qual esses refugiados judeus indesejáveis poderiam ser expulsos.

As políticas pró-sionistas dos nazis

Os Estados Unidos e os países europeus, entre os quais a Alemanha, iriam perseguir a política pró-sionista dos nazis. Os governos de pós-guerra da Alemanha do oeste, que pretendiam abrir uma nova página nas suas relações com os Judeus, na realidade não o fizeram. Desde a criação do Estado israelita, após a Segunda Guerra mundial, cada governo da Alemanha do oeste (e cada governo alemão desde a reunificação de 1990) perseguiu sem descanso as políticas pró-sionistas dos nazis. Nunca houve uma ruptura com o pró-sionismo dos nazis. A única ruptura fora para com o ódio genocídio e racial dos Judeus que o nazismo consagrara, mas não com o desejo de ver os Judeus estabelecidos num país da Ásia, fora da Europa. Com efeito, os alemães sempre explicaram que grande parte do dinheiro que enviavam para Israel, servia para compensar os custos da reinstalação dos refugiados judeus europeus nesse país.

Após a Segunda Guerra mundial, um novo consenso apareceu nos Estados Unidos e na Europa, de que os Judeus deviam ser integrados a título póstumo como sendo europeus brancos e que o horror do massacre dos judeus era essencialmente um horror relativamente ao massacre de Europeus brancos.
Desde os anos 1960, os filmes de Hollywood sobre o Holocausto começaram a representar as vítimas judias do nazismo como sendo europeus brancos de classe média, pessoas instruídas e talentosas que lembravam os cristãos europeus e americanos contemporâneos e devendo servir para permitir maior identificação com eles. Podemos supor que se os filmes tivessem retratado Judeus pobres e religiosos, vindos da Europa oriental (e grande parte dos Judeus da Europa oriental, que foram massacrados pelos nazis, eram pobres e muitos eram religiosos) os cristãos brancos contemporâneos não teriam encontrado um ponto em comum com eles. Por conseguinte, o horror europeu e cristão após o genocídio dos Judeus da Europa não se fundamentava sobre o horror do massacre de milhões de pessoas diferentes dos cristãos europeus, mas no horror perante o massacre de milhões de pessoas semelhantes aos cristãos europeus.
Isto explica porquê, num país como os Estados Unidos, que nada teve a ver com o massacre dos Judeus da Europa, exista mais de 40 memoriais do Holocausto e um dos mais importantes museus para a memória dos Judeus assassinados na Europa, mas nem um único pelo holocausto dos Ameríndios ou dos afro-americanos de que os Estados Unidos são culpados.
Aimé Césaire percebeu perfeitamente do que se tratava. No seu célebre discurso sobre o colonialismo, ele afirmou que a percepção retrospectiva do nazismo pelos cristãos europeus era que:

É uma barbárie, mas uma barbárie suprema, o coroamento bárbaro que coroa todas as barbáries de todos os dias. É isso o nazismo, sim, mas antes de os [Europeus] serem as vitimas, foram em primeiro lugar os cúmplices, e toleraram o nazismo antes que este se vire contra eles. Absolveram-no, fecharam os olhos, legitimaram-no porque até esse momento apenas tocava os povos não europeus. Cultivaram este nazismo, são responsáveis e antes que engolisse a totalidade do ocidente, da civilização cristã nas suas águas vermelhas de sangue, ele ressudava-se, infiltrava-se e jorrava por todas as partes.

Quando Césaire explica que as guerras nazis e o Holocausto eram manifestações de um colonialismo europeu virado para dentro, tem razão. E desde a reabilitação das vítimas do nazismo enquanto brancos, a Europa e o seu cúmplice americano não pararam de praticar políticas dignas dos nazis com todos os horrores aplicados às populações não brancas pelo mundo fora: na Coreia, no Vietname e na Indochina, na Argélia, na indonésia, na América central e na América do sul, na África do sul, na Palestina, no Irão no Iraque e no Afeganistão.
A reabilitação dos Judeus da Europa após a Segunda Guerra mundial era um elemento essencial na propaganda dos Estados Unidos durante a Guerra Fria. Enquanto os sociólogos e ideólogos americanos desenvolviam a teoria do «totalitarismo», que estipulava que o comunismo soviético e o nazismo eram essencialmente o mesmo tipo de regime, os Judeus da Europa, enquanto vítimas de um regime totalitário, tornaram-se parte integrante da exposição das atrocidades que a América e a propaganda na Europa do Oeste apresentavam como as atrocidades que o regime soviético cometia nos períodos de pré e pós-guerra. Israel apenas apanhou o comboio em andamento, acusando os Soviéticos de anti-semitismo por não deixarem os cidadãos Judeus soviéticos saírem para se instalar em Israel.
Foi deste modo que o compromisso americano e europeu pela supremacia branca foi preservado, excepto que agora incluía os Judeus como fazendo parte da população «branca» e daquilo que se passou a chamar a civilização «judeo-cristã». As políticas europeias e americanas após a Segunda Guerra mundial – continuando a inspirar-se e a serem ditadas pelo racismo contra os Ameríndios, os Africanos, os Asiáticos, os Árabes e os muçulmanos, e apoiando o programa anti-semita do sionismo para que os judeus se assimilassem enquanto brancos num Estado colonial afastado da Europa – eram uma continuação directa das políticas anti-semitas da pré-guerra. Uma grande parte do veneno racista anti-semita podia agora reportar-se sobre os árabes e os muçulmanos (simultaneamente, os emigrantes e os cidadãos da Europa e dos Estados Unidos e os que vivem na Ásia e em África), enquanto o velho apoio anti-semita ao sionismo continuava sem entraves.
A aliança entre a Alemanha do oeste e o sionismo e Israel após a Segunda Guerra mundial – além de fornecer a Israel uma enorme ajuda económica nos anos 1950, assim como apoio económico e militar desde o início dos anos 1960, entre os quais tanques que servem para matar Palestinianos e outros Árabes – é uma continuação da aliança que o governo nazi tinha acordado com os sionistas nos anos 1930. Nos anos 1960, a Alemanha do oeste até forneceu uma formação militar aos soldados israelitas e, desde os anos 1970, tem equipado Israel com submarinos nucleares de fabricação alemã com os quais Israel espera matar ainda mais Árabes e muçulmanos.
Estes últimos anos, Israel equipou os mais recentes submarinos alemães que recebeu, com mísseis nucleares de cruzeiro, o que o governo alemão sabe muito bem. O ex-ministro israelita da defesa, Ehud Barak, declarou ao Der Spiegel em 2012 que os alemães podem se sentir «orgulhosos» de terem assegurado a existência do Estado de Israel «durante numerosos anos». Berlim financiou um terço dos custos dos submarinos, ou seja cerca de 135 milhões de euros por submarino e permitiu a Israel de repor o pagamento até 2015.
Que isto faça da Alemanha um cúmplice do desapossar dos palestinianos não é uma preocupação dos actuais governos alemães, assim como não o era nos anos 1960 para o chanceler da Alemanha do oeste, Konrad Adenauer, que afirmava que «a República Federal não tem nem o direito, nem a responsabilidade de tomar uma posição acerca dos refugiados palestinianos.»
Isto deve ser adicionado aos mil milhões que a Alemanha pagou ao governo israelita em compensação pelo Holocausto, como se Israel e o sionismo tivessem sido as vítimas do nazismo quando, na realidade, foram os Judeus anti-sionistas que foram mortos pelos nazis. O actual governo alemão não se preocupa com o facto que mesmo os Judeus alemães que fugiram dos nazis e que se encontraram na palestina odiavam o sionismo e o seu projecto e eram por sua vez odiados pelos colonos sionistas na Palestina.
Como os refugiados alemães dos anos 1930 e 1940 na Palestina recusavam-se a aprender o hebreu e publicavam meia dúzia de jornais alemães no país, foram atacados pela imprensa hebraica, inclusive o Haaretz, que reclamou o encerramento dos seus jornais em 1939 e novamente em 1941. Colonos sionistas atacaram em Telavive um café alemão porque os seus proprietários judeus recusavam-se em falar hebreu e em Junho de 1944, a municipalidade de Telavive ameaçou alguns dos seus residentes judeus alemães que organizavam no seu domicílio, no 21 da rua Allenby, «festas e bailes inteiramente em língua alemã, inclusive programas estrangeiros ao espírito da nossa cidade» e declarou que «isso não seria tolerado em Telavive». Os Judeus alemães, ou os Yekkies, como são apelidados no seio do Yishuv, até iam organizar uma celebração do aniversário do imperador, em 1941 (para mais detalhes sobre este assunto e sobre os refugiados alemães judeus na Palestina, ler o livro de Tom Segev intitulado The Seventh Million).
É preciso adicionar a isto tudo, o apoio Alemão às medidas israelitas contra os palestinianos na ONU e o quadro está completo. Até o novo memorial do Holocausto, construído em Berlim e que foi inaugurado em 2005, mantém o apartheid racial nazi, posto que este «Memorial dos Judeus da Europa assassinados» é apenas destinado às vítimas judias dos nazis e que ainda hoje convém pôr de parte, como o tinha ordenado Hitler, os outros milhões de vítimas não judias elas também do nazismo.
O facto que uma filial da sociedade alemã Degussa, que colaborou com os nazis e que produziu o gás Zyklon B utilizado para matar as pessoas nas câmaras de gás, recebeu um contrato para construir o memorial não é de todo surpreendente, posto que isto apenas confirma que aqueles que mataram os Judeus na Alemanha no final dos anos 1930 e nos anos 1940, hoje em dia, lamentam o que fizeram porque hoje percebem que os Judeus são Europeus brancos que convém comemorar e que não se deveria tê-los mortos, em primeiro lugar por causa da brancura da sua pele. A política alemã de incentivo ao massacre dos Árabes por Israel tem pouco a ver com o seu compromisso com o anti-semitismo, que continua por meio do racismo alemão contemporâneo, predominante relativamente aos muçulmanos e que visa os imigrantes muçulmanos.

A tradição anti judia na Europa e na América

O Holocausto judeu matou a maioria dos judeus que recusavam e combatiam o anti-semitismo europeu, inclusive o sionismo. Com a morte deles, os únicos «semitas» que existem e que combatem o sionismo e o seu anti-semitismo são hoje os Palestinianos. Enquanto Israel insiste sobre o facto que os judeus europeus não têm lugar na Europa e que devem vir para a Palestina, os Palestinianos sempre insistiram em dizer que as pátrias dos Judeus europeus eram os seus países europeus e não a Palestina, e que o colonialismo sionista deriva do seu próprio anti-semitismo. Enquanto os sionistas pretendem que os Judeus são uma raça diferente dos cristãos europeus, os Palestinianos afirmam pelo contrário que os Judeus europeus não são nada a não ser Europeus e que não têm nada em comum com a Palestina, o seu povo ou a sua cultura.
O que Israel e os seus aliados americanos e europeus quiseram fazer ao longo destas seis décadas e meia, é de convencer os Palestinianos de que deviam se tornar anti-semitas, eles também, e acreditar, à semelhança dos nazis, de Israel e dos seus aliados anti-semitas ocidentais, que os judeus são uma raça diferente das raças europeias, que a Palestina é o país deles que Israel fala em nome de todos os Judeus. O facto que os dois mais importantes blocos de eleitores pró-israelitas dos Estados Unidos são os protestantes milenaristas e os imperialistas laicos persegue exactamente a mesma tradição anti-judia euro-americana que remonta à Reforma protestante e ao imperialismo do século XIX. Mas os Palestinianos nunca conseguiram convencer-se e obstinam-se em resistir ao anti-semitismo.
Israel e os seus aliados anti-semitas afirmam que Israel é «o povo judeu», que a sua política é a política «judia», que as suas realizações são «judias», que os seus crimes são crimes «judeus» e que, por conseguinte, todos os que ousam criticar Israel criticam de facto os Judeus e são impreterivelmente anti-semitas. O povo palestiniano tem construído uma luta maior contra esta incitação anti-semita. Continua de afirmar firmemente que o governo israelita não fala em nome de todos os Judeus, que não representa todos os Judeus e que os seus crimes coloniais contra o povo palestiniano são os seus próprios crimes e não os crimes do «povo judeu» e que, de facto, deve ser criticado, condenado e perseguido pelos seus crimes de guerra ainda a decorrerem contra o povo palestiniano.
Não se trata de uma nova posição palestiniana. De facto, já tinha sido adoptada na viragem do século XX e perseguida ao longo da luta palestiniana contra o sionismo antes da Segunda Guerra mundial. O discurso de Yasser Arafat nas Nações Unidas, em 1974, insistiu veementemente sobre todos estes pontos:

Do mesmo modo que o colonialismo se serviu levianamente dos deserdados, dos explorados como de uma vulgar matéria inerte com a qual podia construir e realizar um colonialismo de implantação, os Judeus europeus indigentes, oprimidos foram utilizados em nome do imperialismo mundial e dos dirigentes sionistas. Os Judeus europeus foram transformados em instrumentos de agressão; tornaram-se os elementos do colonialismo de implantação intimamente ligado à discriminação racial (...). A teologia sionista foi utilizada contra o nosso povo palestiniano: o objectivo era não só a instalação de um colonialismo de implantação de estilo ocidental, mas também a separação dos Judeus das suas diversas pátrias e, por conseguinte, a sua alienação relativamente às suas nações. O sionismo (…) está unido ao anti-semitismo nos seus dogmas retrógrados e, uma vez que tudo foi dito e consumado, é outra face da mesma falsa moeda. Porque quando se propõe que os adeptos da fé judia, qualquer que seja a nação onde residem, não devem nem obediência à sua residência nacional, nem vivem sobre um pé de igualdade com os outros cidadãos não judeus, quando isto é proposto, percebemos muito bem que se trata de uma proposta anti-semita. Quando se propõe que a única solução ao problema judeu é que os Judeus se devem alienar das comunidades ou nações de que constituem um elementos histórico, quando se propõe que os Judeus resolvam o problema judeu pela imigração e a instalação pela força sobre as terras de outro povo, quando isso acontece, estamos a defender exactamente a mesma posição que aquela que defendem os anti-semitas contra os Judeus.

A afirmação por parte de Israel de que as pessoas que o criticam são anti-semitas pressupõe que essas mesmas pessoas críticas acreditem nas suas pretensões em querer representar «o povo judeu». Mas são as próprias afirmações por parte de Israel daquilo que representa e de falar em nome de todos os Judeus que são de todas as afirmações as mais anti-semitas.
Hoje em dia, Israel e as potências ocidentais querem erigir o anti-semitismo em princípio internacional em torno do qual procuram estabelecer uma unanimidade plena. Insistem sobre o facto que, para que haja paz no Médio Oriente, os palestinianos, os Árabes e os muçulmanos devem tornar-se, tal como o ocidente, anti-semitas, adoptando o sionismo e reconhecendo as reivindicações anti-semitas de Israel. Tirando os regimes ditatoriais árabes e a autoridade palestiniana e os seus amigos, neste 65º aniversário da conquista anti-semita da Palestina pelos sionistas – que os palestinianos chamam a Nakba -, o povo palestiniano e os poucos judeus anti-sionistas sobreviventes continuam de recusar em ter em conta este apelo internacional e esta incitação ao anti-semitismo.
Afirmam que são, enquanto últimos dos Semitas, os herdeiros das lutas judias e palestinianas anteriores à Segunda Guerra mundial contra o anti-semitismo e a sua manifestação colonial sionista. É a resistência deles que trava o caminho a uma vitória completa do anti-semitismo europeu no Médio Oriente e no mundo inteiro.

Joseph Massad
Tradução: GAP
* Joseph Massad é professor associado de política árabe e de história intelectual na Universidade de Colúmbia. O seu último livro intitula-se :  The Persistence of the Palestinian Question ; Essays on Zionism and the Palestinians.
Este artigo foi inicialmente censurado na Aljazeera que pouco depois voltou a disponibilizá-lo.
Encontra-se aqui no original inglês: http://www.aljazeera.com/indepth/opinion/2013/05/2013521184814703958.html

E aqui na tradução francesa: http://www.info-palestine.eu/spip.php?article13571

Colonizar Marte

 

Vi a notícia no Aljazeera na segunda-feira 16/01/13.

A forma como foi divulgado este projecto apelava a candidaturas, do género: «Tens mais de 18 anos, falas inglês, és uma pessoa equilibrada...Podes candidatar-te para ser selecionada/o a passar o resto da tua vida em Marte!»

Todo o projecto será subsidiado por um «reality show»

Estou perplexa, pela dimensão mediática deste projecto, pela forma como a vida do ser humano é considerada neste projecto e pelos contornos que o todo pode vir a ter...

mais aqui: http://mars-one.com/en/

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