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ARESTAS

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Noites com teatro no cinema – Dogville de Lars Von Trier - A representação do mundo enquanto cruelda

Há um espaço rectangular, delimitado no chão do palco, que permanece um espaço vazio, apenas preenchido nos últimos minutos do filme. Este espaço, que fica perto de uma casa, situada do lado direito, em segundo plano, do campo de visão do espectador, é preenchido pela representação onomatopeica que ganha corpo com a presença final de um cão. Assim começa, com o cão imaginário, guarda e guia, que se ouve ladrar e a quem se roubou um osso, e acaba com o cão verdadeiro, a quem se corta as amarras, representado em carne e osso no fim do filme: Dogville. A estrutura e o agençamento da narrativa fílmica, em Dogville, apresentam-se da seguinte forma: um prólogo e 9 capítulos (quiçá com a carga simbólica que o número carrega consigo). As palavras que se inscrevem no ecrã anunciam a presença de um texto subjacente, mas é no metatexto, inscrito no ecrã, como uma súmula dos acontecimentos a seguir, que se revela o texto. É desta forma que se inscreve a história do cinema surdo. Digo surdo para fazer eco às palavras de Virilio, anunciando o “acidente do visível como sendo o audiovisual”, e referindo assim que os primeiros passos do cinema não eram mudos, mas surdos. Esta linguagem remete para um narrador omnisciente e omnipresente, aquele que é voz e que narra os interstícios da trama, da intriga e os pensamentos das personagens, mas também remete para um espectador semi-omnisciente, o espectador de um filme ou de uma peça de teatro, por lhe ser dado a ver o que as personagens não vêem. Na relação que este filme estabelece com o publico podemos verificar uma riqueza extremamente complexa que mereceria uma atenção particular e mais pormenorizada. Pois, por um lado, há o palco ou a cena que se assemelha a um palco de teatro e, como tal, remete para um mundo que, metaforicamente, também enquadra o mundo concentrado da intriga, isto é, um espaço reduzido de uma pequena aldeia, um espaço limitado que constrange e determina os actos e os sentimentos humanos. Neste tão pequeno espaço, esboça-se toda uma geografia humana. Esta apresenta-se de forma crua e nua e torna-se autoritária, pelo significado metafórico que estabelece com o espectador, remetendo para o ser profundamente DES-humano. Por outro lado, o palco ou a cena assemelha-se a um barco num oceano e remete para uma concepção do espaço praticamente medieval, o espaço é o mundo e o mundo é plano. Nos confins deste mundo cai-se num inferno que evoca a vida noutros espaços cerrados, mas também a um jardim dos pecados, onde é consumado o pecado da carne, sob a forma de abuso de sensibilidade e violação do corpo. Encontramos na construção deste espaço fechado prolongamentos do cinema de Pasolini, mas aqui o que fere mais profundamente, não é tanto o corpo assaltado, não é a visão da carne branca e macia violentada, mas o autêntico atentado aos sentimentos, à sensibilidade, à compreensão e ao profundo desejo de ser querido, de ser grato, útil e conciliador, tudo isto alimentado por tantos discursos, tantas palavras e o desejo de alcançar o significado das palavras juntas. Os espaços abertos das casas permitem a compreensão da intriga para o espectador, mas são autênticos muros para os actores que devem desempenhar o seu papel até ao fim, como uma espécie de crueldade irremediável. Não há luz possível para os actores e a luz que os ilumina é despojada de névoas. É uma luz autêntica, apenas feita de contrastes que ferem tanto quanto o trabalho de tentativa de comunicação entre as personagens. Abrem-se e fecham-se portas e da consistência real das portas fica apenas o ruído e o movimento ilusório de uma mão na maçaneta da porta, de todas as portas. Através das paredes, o espectador é forçado de conhecer a intimidade de cada um e as mentiras tecidas pelos actores/personagens por não terem essa capacidade de ver através das inexistentes paredes. O cinema interroga-se sobre as formas de organização social, mas também sobre si próprio e a sua representação do mundo. A autoreflexividade apresenta-se sob a forma de ecos através dos quais se faz a luz e se dá vida. É esse o trabalho do encenador, procurar a luz que faz de Dogville, o teatro da crueldade (ver A. Artaud) de um filme. (A ver quarta-feira, 19 de Abril, às 21:30, Sala estúdio do Teatro da Rainha) (Ana da Palma, Gazeta das Caldas do próximo dia 14/04/06)

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