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ARESTAS

ARESTAS

Paresse...

De l’eau de l’eau

Tant d’eau...

Parler de la pluie c'est un subterfuge...

Pour ne pas parler de mon retard dans l’écriture du scénario

Toutes les heures d’une seule journée ne semblent jamais  être assez!

Je me souviens maintenant de me déambulations nocturnes dans Paris entre 18 et 20 ans

Ne pas dormir pour tout voir

Tout percevoir

Devenir une éponge!

Ce fut impossible! Et surtout exténuant!

 

On dit

Ce n’est qu’une question d’organisation

Cependant…

Dans l’organisation des jours

Des semaines

Des mois

On ne laisse jamais assez de place pour la paresse!

 

Fascínios (7): Flor e Flor



 

Entre Kertész e Sudek, entre flor e flor, repete-se o vaso e as pétalas. Para efeito de contextualização, relembro que André Kertész é um fotógrafo americano de origem húngara (Budapeste 1894 – Nova Iorque 1985) que chegou a Paris em 1925 e que trabalhou como fotografo independente ate 1936, quando se instala em Nova Iorque; e que Josef Sudek é um fotógrafo checo (Kolin-uber-Elbe 1896- Praga 1976), que se iniciou na fotografia em 1913 e se dedicou totalmente a ela a partir de 1920, é o co-fundador da Sociedade Checa de fotografia em 1924. Se o romantismo e a poesia são os traços distintivos dos trabalhos de Sudek “ poeta de Praga”, o “Olhar” de Kertész fez dele o representante de uma estética que vai influenciar a fotografia no sentido de uma busca silenciosa de uma presença.

Na imagem de Sudek, o objecto fotografado, neste caso identificado pelo título da imagem, pois trata-se de uma rosa, destaca-se de um espaço que também ocupa o quadro da fotografia, uma mesa ou uma bancada com uma janela atrás. Na imagem de Kertész apenas a sombra e a luz revelam toda a presença do objecto, neste caso uma túlipa. Enquanto numa imagem a identificação da flor é evidente e óbvia, na outra é sugerida pelo caule, que parece revelar as características do caule de uma rosa, e pela pétala côncava que se deixa entrever por um efeito de lupa criado pelo frasco no primeiro plano.

Entre Sudek e Kertész, vejo a transparência repetida pela presença dos vidros, os ecos de sombras nos espelhos contidos de poesia, a nitidez do embaciamento, o sonho contido nas coisas dentro de um espaço bucólico contextualizado pela história do fotógrafo, pois as últimas fotografias de homens, ou seja, uma série de trabalhos sobre os soldados estropiados data de 1922 e 1927, depois desta data Sudek nunca mais retratou o ser humano, mas apenas o que o rodeia, as estruturas que habita, ou visita, as naturezas mortas e a luz como uma promessa de futuro irrealizável. Durante a Segunda Guerra Mundial, o artista fecha-se em casa e tira fotografias desde a janela, nasce então a sua profunda necessidade de busca dos “reflexos exactos”.

Entre Kertész e Sudek, um mundo de imagens, um espaço limpo, depurado e nítido, onde se encontra o objecto fotografado igualmente puro e limpo, as linhas e os contornos perfeitamente dirigidos, esperados e recortados. A imagem evidencia uma estética totalmente centrada na busca das linhas, nos contornos e nas formas sem omitir a luz e a poesia. Ambas as imagens revelam todo um procedimento de busca estética, procurando evidenciar no mesmo tema uma preocupação, uma ideia de beleza, ou uma promessa.

Quanto mais observo, mais procuro, porquê ? São duas imagens tão próximas e tão distantes. Porquê ? Tanto uma como outra brandem uma estética que consigo distinguir enquanto conceito. Ambas posturas estéticas me agradam. Apesar de sentir maiores afinidades pela Rosa, a Túlipa inquieta-me, não sendo tanto como um desconforto, mas como um alheamento. Hoje sinto mais próxima da Túlipa, ontem só pensava na Rosa. Que maravilha poder inclinar-se para uma, ou para outra !

De súbito, tanto a vitalidade inclinada, a firmeza e a nitidez da túlipa de Kertész, como a sensibilidade oculta e multifacetada da rosa de Sudek, enquadrada num espaço bem particular, onde reina o espelho, trouxe algo profundo, semelhante à evocação de um afecto, aquele que é muito próximo do amor. Será essa a semelhança que me leva a oscilar, ora pela Rosa, ora pela Túlipa?
(Ana da Palma, Gazeta das Caldas 24/11/06)

 

A Pensão do tio de Abdel (4)

 

Enquanto hesitava a decidir se queria se preparar para ir ao encontro marcado com Abdel, Nicolau deixou-se afundar em pensamentos meandrosos e interrogações escabrosas sem solução, nem resposta possível, como se estivesse irresistivelmente atraído pelo abismo. Fora mesmo um sonho, não podia ter sido outra coisa. Mesmo assim, ficara com dúvidas, porque é difícil resistir à tentação de um mundo ideal, mesmo edificado por sonhos inconsistentes. As palavras aliciantes do miúdo chegavam à sua memória, como quando se relembra a doçura de uma colher de mel, ou a mais deliciosa e apetecível iguaria. As palavras da criança andavam à solta na sua mente atormentada, surgiam como uma lengalenga repetida continuamente, uma curiosa litania, onde cada palavra tinha o peso de um enigma que atormentava e regozijava simultaneamente.

Dissera: “Hoje, levo-te ao jardim das Hespérides. Vais poder provar os frutos míticos de Hércules. Conheço um sítio...”. Nicolau olhou para o relógio esperando que as agulhas, cronologicamente ajustadas, não indicassem hora nenhuma, procurando desesperadamente afastar o tempo, para poder recuperar um espaço sem espaço, mas eram quase 18 horas. O dia estava a acabar lentamente e as palavras do miúdo giravam como num carrossel infernal. Dissera: “Hoje”, uma palavra que normalmente se refere a algo próximo, não há equívoco possível, dado que se pode contar as horas de hoje e apenas faltavam seis horas para acabar. Mesmo assim permanecera uma dúvida do tamanho da maior incerteza e da profunda insegurança de Nicolau. Será que o hoje, proferido por aqueles lábios sorridentes e puros, referia-se mesmo ao dia que estava a acabar, ou era um hoje distante feito da substância dos sonhos, com uma possibilidade demasiado longínqua para ser realizável? Como podia um miúdo levá-lo ao jardim, além disso não se tratava de qualquer jardim, o jardim das Hespérides não era em nada semelhante a outro jardim. Como sabia ele o caminho? Como era possível saber o caminho para um sítio tão mítico, tão inacreditável e inexistente? De súbito, alguns de todos os sítios míticos, de que ouvira falar, foram convocados na sua memória como para assegurar-se de que se tratava simplesmente de um sonho inconsistente. Sentia-se como o sonhador Alastor, procurando verdades em terras desconhecidas e apenas descobrindo a tristeza e o desespero, porque é assim mesmo de que é feita a substância dos sonhos. A caverna de Alastor revela a busca inalcançável do poeta e da sua alma inquieta e insaciável, sendo, no entanto, um sítio onde a natureza se sobrepõe ao homem e mostra o seu imenso poder sobre todas as coisas. Mas o herói romântico apenas permitia evocar as grutas de Hércules, situadas a norte de Larache e que visitara uns dias antes com os amigos, pois aí também o turbilhão de luz podia levar a terras silenciosas, viçosas e serenas. São tantos os mundos maravilhosos criados nas águas do Mar Mediterrâneo. Miríades de ilhas, mais ou menos localizadas à entrada deste mar fechado, apareceram referidas ao longo dos tempos como mundos possíveis. Seria como ir a Abaton, cidade de localização variável, onde nunca ninguém chegou. No fundo não lhe era desagradável pensar que iria ver o jardim, cujos frutos dourados iluminaram Portugal e receberam o seu nome. Seria como Dioniso, uma ilha do Atlântico, a oitenta dias das Colunas de Hércules, onde se pode ver inscrito numa coluna de bronze: “ Juntos, Hércules e Dioniso viajaram até aqui” e onde criaturas arborescentes precipitam os homens que as beijarem no abismo embriagante do esquecimento. Seria como Anostus, uma ilha sem nome, à entrada do Mediterrâneo, onde correm dois rios, o rio do Prazer e o rio da Dor, uma ilha onde não existe nem noite, nem dia, e depois da qual não há regresso possível. Sempre ilhas, ou cidades, espaços delimitados e protegidos pelos seus limites, sem remeter para um território particular. Novamente tempo e espaço desapareciam para juntar as duas dimensões numa concepção de mundo ideal, como se fosse necessário perder as noções que regem o nosso mundo para aceder a esse outro mundo. Contudo, Nicolau não procurava alhear-se, apenas sentia uma imensa curiosidade. Uma lufada de ar fresco entrou pela janela e o ruído da porta a bater resgatou Nicolau das suas divagações silenciosas.

Olhou para o relógio. Já passara das 18. Estava na hora de ir ter com os outros. Quantas voltas já terão dado à praceta?

 Nicolau preparou-se para sair, mas secretamente alimentava o sonho de um hoje que nunca acabava e que iria ter por destino um espaço secreto, esquecido e mítico.

(Ana da Palma, Gazeta das Caldas, 17/11/06)

 

A Pensão do tio de Abdel (3)

Colocou a mochila numa cadeira perto da cama. Tirou um livro, um pequeno caderno preto e uma caneta que colocou em cima da almofada. Descalçou os ténis e desapertou o cinto. Aproximou-se novamente da pequena janela para se certificar da autenticidade primeira visão que tivera. A exígua abertura rectangular, semelhante a um quadro, delimitava um espaço privilegiado totalmente ocupado pelo minar. A torre branca simples, sólida e solitária da mesquita destacava-se, inflexível, na lenta e branca opacidade do fim da manhã. Sentia um certo tédio, próximo de uma tristeza insinuante, como se nada fizesse sentido, mas como se fosse mesmo assim, irremediável. Não há nada a fazer, os momentos de felicidade vão e vêm com picos de diferente intensidade e com períodos mais ou menos longos, como se estivessem em permanência regidos pelas estações do ano, ou como se o estado meteorológico dos dias fossem previsões dos estados de alma. Não vale a pena se lamentar, não é necessário procurar perceber, nem tentar encontrar uma saída. Descobrira que a melhor solução era esperar calmamente, sem entrar em pânico, sem impaciências que esse estado quase mórbido, semelhante a um profundo enjoo, desvanecesse. Ficou de pé à beira da janela. Esperou até ao momento em que os passos estreitos e ligeiros do almuadem trouxeram a voz à almenara. Eram horas da oração. Homens e mulheres dirigiram-se à mesquita num ruído de passos ensurdecedor. O seu estado displicente diminuíra estranhamente, enquanto a voz melodiosa, nitidamente abafada ecoou como um raio. Então, Nicolau saiu do quarto e dirigiu-se para a varanda. Puxou uma cadeira e instalou-se com as mãos juntas no peito. Fechou os olhos, pensando descansar alguns instantes. Pois acordara muito cedo de manhã para ir até ao cemitério e a noite passada na tenda à beira-mar fora agitada, irrequieta e inconfortável.

Estava no barco a atravessar o rio Loukos em direcção à outra margem para ir até à praia, quando uma criança de olhos profundamente escuros e sorridentes lhe oferecera uma laranja. Tirara a navalha do saco e delineara quatro sulcos na pele do fruto. Enquanto o descascava, seguindo meticulosamente cada traço deixado pela lâmina, o miúdo não parava de olhar para todo o procedimento com muita surpresa e um certo encantamento. No preciso momento em que levou o primeiro pedaço aos lábios, a doçura, semelhante às primeiras laranjas que os portugueses trouxeram da Ásia, que o fruto lhe deixou na ponta da língua e na garganta desfez de súbito toda a tensão e o cansaço acumulados no rosto e um sorriso lento esboçou-se nos seus olhos. O miúdo olhara para ele com um ar de desafio e dissera-lhe: “Hoje, levo-te ao jardim das Hespérides. Vais poder provar os frutos míticos de Hércules. Conheço um sítio...”

O muezim parara de salmodiar.

Perto da varanda, a voz de Abdel chegara com profusas palavras gastas. Nicolau regressou lentamente para o quarto. Quando entrou, Helena estava a arrumar as suas coisas numa prateleira vazia. Tencionavam ficar uns quatro, ou cinco dias, para aproveitar da praia, dos frutos, dos peixes, em particular das sardinhas grelhadas, e descansar um pouco antes de seguir para Safi e Essaouira. Entretanto, Abdel marcara um encontro na Praça da República pelas 18, para depois levá-los a jantar.  

Helena e Pedro foram tomar um duche, enquanto Nicolau tentava ainda acordar de um sonho. Ficara com a curiosidade aguçada. O miúdo dissera-lhe que lhe mostrara o jardim das Hespérides. Não podia ser um sonho, mas também não podia ser verdade. Pois não podia ter apanhado o barco, dado que ficara sentado a descansar na varanda da pensão.  Esta história só podia ser por causa da proximidade da gruta de Hércules. Não podia haver outra explicação. Continuou cismando.

Abdel saiu em direcção à mercearia com a estranha sensação de que veria novamente Miriam. Como é possível! Ela nem olhou para mim, esteve o tempo todo a olhar para aquela mulher sentada na mesa do canto a escrever. Todo o tempo. Mas como tinha pressentido, Miriam esperava-o perto da loja de Muhammad. Tinha um ramo de jasmim numa mão e um frasco de água de flor de laranjeira. Queria conhecer melhor aqueles jovens estrangeiros. Convidou-os a jantar em sua casa. Abdel concordou, pois sempre era uma maneira de estar mais próximo dela. Quando chegou a hora do passeio encontraram-se todos na praceta. Miriam tinha enfeitado as mãos com Henna e cheirava a laranja e erva cortada ao mesmo tempo.

Helena e Pedro chegaram juntos.

(Ana da Palma, Gazeta das Caldas, 10/11/06)

 

Regresso às nuvens..outros tempos nefelibatas

L'ÉTRANGER

- Qui aimes-tu le mieux, homme énigmatique, dis? ton père, ta mère, ta soeur ou ton frère?
- Je n'ai ni père, ni mère, ni soeur, ni frère.
- Tes amis?
- Vous vous servez là d'une parole dont le sens m'est resté jusqu'à ce jour inconnu.
- Ta patrie?
- J'ignore sous quelle latitude elle est située.
- La beauté?
- Je l'aimerais volontiers, déesse et immortelle.
- L'or?
- Je le hais comme vous haissez Dieu.
- Eh! qu'aimes-tu donc, extraordinnaire étranger?
- J'aime les nuages... les nuages qui passent... là-bas... là-bas... les merveilleux nuages!
(Baudelaire, Le Spleen de Paris)
                                                 (Equivalences, Stieglitz)

Vens-me

Antes do fim do dia

Ainda o desespero

Não o do poeta

Verlaine

aquele que permanece sentado num banco de jardim...mas aquele que tu sabes

Quando dizes

Vens-me

Aquele que aperta as entranhas

Como agarrar a água toda nas mãos?

desfeita

a

nossa

paisagem...


(J.Sudek)

Apelo em aparte: “Desvios no Imaginário”

Desta vez, não se trata de ficção, nem de devaneios fotográficos, contudo poderia ser um belo título para um ou outro “Modos de Ver”, dado que poderia ter a consistência de um título de uma série didáctica acerca, ou em torno da imaginação, ou então, de um romance, como aqueles que são vendidos nas estações dos correios, nas estações de comboios, ou outro sítio parecido, é quase um título de romance policial, ou ainda,  de literatura ligeira de conteúdo amoroso e erótico, ou ainda de uma aventura por uma zona desconhecida, do tipo a quinta dimensão, de uma novela de ficção cientifica, mas não. Não, nada disto tudo, pois é simplesmente algo de bem real, trata-se, infelizmente, dos desvios antes e depois do Imaginário, isto é, do corte da estrada nacional 114/1!

Se bem me lembro, fora em Julho, com o primeiro calor, que cortaram a estrada que atravessa o Imaginário. Imagino a paz e o silêncio que viveram – e vivem! - os habitantes desta localidade! Contudo, como sempre, nós portugueses, fiéis a nós próprios, isto é, ser português, sempre tão moldáveis em situações de emergência ou de último recurso, o famoso “desenrascar-se”, procurámos caminhos alternativos, nos meandros das serventias que atravessam os nossos pinhais e matas modernos, estes são agora, os eucaliptais, uma verdadeira aventura com alguns encantamentos, sobressaltos. Descobrir caminhos é uma aventura no nosso concelho, onde as tabuletas ausentes marcam a sua presença humana por indicações herdadas do tempo em que só os habitantes tinham o conhecimento do e dos caminhos, atalhos, veredas, sendas, carreiros, semitas e trilhos por onde passavam botas e tamancos, pés descalços, sapatos envolvidos de sacos de plástico. Uma aventura!

No momento dos fogos...ainda em Julho, lembram-se, houve aquele de Porto de Mós...as labaredas viam-se desde a auto-estrada A8 a caminho de Leiria, os carros dos bombeiros seguiam os desvios indicados principalmente a estrada nacional 114 que, segundo parece, segue até Espanha! Vejam só uma estrada tão pequena com tamanho destino! Imagino a dificuldade dos carros mais pesados dos bombeiros pela árdua e íngreme encosta, numa estrada estreitíssima que, após atravessar várias explorações aviarias, chega penosamente ao topo da Lagoa Parceira, aí depois das galinhas são os fornos e as chaminés das fábricas de tijolo, por vezes pelos habitantes cansados de terem que ver carros errantes perdidos de gasolina, transpirar os seus maus cheiros pelas quintas adiante, atravessando quintais e estradas privadas, colocaram painéis improvisados. Assim foi reaberta a estrada do Imaginário, os bombeiros passaram até a estrada ser novamente cortada...até agora.

Entretanto algumas serventias foram melhoradas, raspando, roubando terrenos aqui, acolá, mais um pouco aqui, mais um bocado acolá, para obter uma “quase estrada” alcatroada, sem sinalização apropriada. E os habitantes do concelho felizes por serem habitantes, mostram a sua perspicácia astuta e arguta, em seguir caminhos esquecidos tudo para servir de atalho!

Desejo realçar dois pontos o primeiro, aponta para a inconveniência destes seis meses, (ou mais ainda! Quem sabe!) de obras para os que trabalham nas Caldas e vivem nas aldeias/freguesias dos arredores. Obrigando a longos e perigosos desvios. A segunda permanece uma interrogação. Pois, no sítio onde estão a substituir a, assim referida, Obra de Arte, isto é, a ponte, quase despercebida que provocava esporádicas inundações, dado que se situa numa cova, da estrada, no final do Imaginário,  há outra ponte mais antiga... lembro-me dela quando cheguei na região. Pois, curiosa e fervente ciclista com muitos anos de prática parisiense, um dia apercebi-me que havia ali uma bela pequena ponte de pedra, estreita e com um arco redondo, agora não posso dizer que tipo de ponte é, só permanece na minha memória o vestígio sem registo, pois não pensei que poderia vir a ser necessário registar...mas de longe dado que o acesso está totalmente cortado uma ponte em arco de pedra...essa ponte mais antiga parece estar a ficar totalmente soterrada...ou destruída? Alguém sabe? Alguém tem memória da Ponte? Será que termos de organizar um comité de salvaguarda da ponte? (da cova do  Imaginário)

 

Fascínios (6) Exercício de estilo?

“No nosso corpo, algumas coisas são feitas para fins de utilidade, como as vísceras, outras tanto para a utilidade como para a Beleza, como a vista do rosto, e os pés, e as mãos, membros que são de grande utilidade e aspecto decentíssimo. Algumas são feitas só para ornamento, como os peitos nos homens e o umbigo em ambos os sexos. Algumas são feitas para discrição, como nos machos os órgãos genitais, a barba prometida e o amplo peito; e nas fêmeas, as gengivas suaves, o peito pequeno, e os rins e as ancas amplos para poder conter o feto.” (Isidoro de Sevilha, Etimologias, XI, 25)

“ A luz é a natureza comum que se encontra em cada corpo, tanto celeste como terrestre. (…) A luz é a forma substancial dos corpos, que possuem tanto mais real e dignamente o ser quanto mais nela participam.” (Boaventura da Bagnoregio, Comentários às sentenças, II, 12, 1; II, 13, 2)

 

Ainda não sei bem por que razão escolhi esta imagem. Por vezes, há escolhas que não conseguimos justificar completamente. Há escolhas que são completas, no sentido em que tudo se constrói harmoniosamente, outras vezes, apenas são o resultado de um pormenor que tomou dimensões mais consistentes, mesmo que hesitantes. Presumo que foi isso, um pormenor, algo quase insignificante, que me levou a escolher esta fotografia. Há qualquer coisa de insólito, qualquer coisa de inesperado nesta imagem datada de 1883. São dois corpos separados e indiferentes um ao outro. Não há um centro explícito, visível e bem definido na composição da postura dos dois corpos parados à beira da água. O centro da imagem permanece vazio, para oscilar lentamente entre um corpo e outro, seguindo a mesma inclinação dos corpos. Deve de ser por estarem dois homens nus numa situação de pausa e pose, como se estivessem diante de um jovem pintor renascentista à procura das formas dos corpos, ou então, como se estivessem a pousar para um escultor grego atento a todos os pormenores dos contornos dos músculos, relevos dos ossos e tensões corporais. Fico surpreendida com a planura e com a falta de perspectiva desta imagem. A água tem a função de um pano de fundo, semelhante a um lençol mais claro no último plano, que apenas parece realçar e pôr em evidência a luz que emana dos corpos. Por um efeito oposto, a planura da paisagem imprime relevo aos corpos expostos, separados e ao mesmo tempo unidos pela nudez, pelo olhar dirigido para o chão e o joelho em flexão, ambos os corpos com um joelho flectido. Precisamente na posição indicada para mostrar os músculos das nádegas, a torção dos corpos, a rotação da cintura e os ossos das costas. Não são posições totalmente naturais, mas têm prolongamentos em quase todas as representações iniciadas pelos gregos, como as do Mestre de Olímpia, de Doríforo, de Diadumeno e de Apolo. Daí o efeito de distanciamento criado entre o objecto observado e os observadores. O que não incomoda nada na imagem está terrivelmente ausente. O que vemos quando corpos nus estão expostos? Assim desta maneira, tão límpida, tão evidente. Uma prova? Um exercício? Uma prova para ser estudada? Uma prova ao tempo? Será que nesta imagem o corpo constitui um indício? O testemunho da nossa existência, da nossa nudez e, de alguma forma, sempre a nudez da nossa presença enquanto ser? A nudez da nossa existência apesar dos artifícios? Podemos olhar para um corpo qualquer sem peso, ou com todo o peso, tudo depende do que procuramos, daquilo que motiva o nosso olhar, ou daquilo que desejamos encontrar. Um olhar pode existir sem o outro, independentemente do outro, separados. Podemos facilmente abstrair-nos da imagem nua, e na imagem da nudez, assim como na presença de “Thomas Eakins T.E. and John Lauri Wallace at the Shore”, ver a indicação espacial como um indício. A simples indicação do espaço, no título da fotografia, implica necessariamente outra abordagem.

Não diria que esta imagem me inspira algum fascínio pelo que representa, isto é, dois corpos nus, mas, sim, pelo que ela não apresenta, ou seja, pelo que evoca. Vejo dois corpos num estado latente, numa desenvoltura encenada, num estado de espera, não só pela postura dos corpos esperando a exposição, mas por estarem fingidamente ausentes. Corpos infimamente observados observando algo de inexistente, permanentemente cientes de serem observados na postura de pose em pausa. O que se espera desta imagem? Se podemos esperar algo? Podemos? Há algo de semelhante à nobre sinceridade e simples grandeza das estátuas do mundo antigo, contudo aqui apenas permanece a vaga reminiscência das estátuas.

(Ana da Palma, Gazeta das Caldas 3/11/06)

Posso entrar?

e...

às vezes procurei entrar

nunca

sempre muito vago

um mistério fabricado

depois passei à prova do

fazer

estar

volto sempre ao mesmo

então...

nada

nada a dizer

então…

 …

então…

fica pouco

não fica nada

a dizer

e a palavra saudade

não é

nunca foi minha

nunca a utilizei

mesmo no final das cartas à família longínqua

para quê?

de que serve?

só a disse pela primeira vez ...

... pensei ter percebido isso da saudade

 

mas fica

e permanece

... a maior lamúria

...a maior ilusão

 

tudo e nada

mas definitivamente nada

a não ser o facto de não ter tradução

o que lhe dá algum encantamento

um encantamento gasto

e

ainda bem que não tem tradução

porque é uma palavra inútil

 

 

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