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ARESTAS

ARESTAS

O reino dos peixes

sombras.JPG
o olhar virado para cima evocando o impossível pássaro contido no peixe medieval
o corpo adquiriu apenas aquele significado perdido
as entranhas já não são entranhas
as espinhas despidas da carne apenas evocam um movimento fluido, algo líquido e ondulante irremediavelmente fixado pela luz do sol
é o reino do peixe seco na areia

Para seguir... “Abrigo-me”, Escultura de André Banha

Cópia (2) de andrebanha 023.JPG
Depois da auto-reflexão, depois da auto-legitimação teórica da obra, o que resta constrói-se simplesmente ao encontro do seu próprio fim. Mas, não é um fim com uma finalidade bem delimitada, trata-se apenas daquele fim contido naquilo que acaba; o fim que revela a transitoriedade, a passagem pelo tempo. Aqui, dentro deste tempo já existe o tempo do fim e neste tempo há dois lugares, o lugar da exposição e o lugar da construção, ambos passageiros do tempo, ambos igualmente temporários. Depois da exposição na Galeria Violeta, resta-nos o abrigo que nos ofertou André Banha. Resta-nos o registo da memória ou da imagem. O abrigo legitima-se só por ser, em si, um abrigo, uma estrutura com um nome, elaborado com um determinado material, aqui a madeira, e construído de determinada forma, pois cada peça de madeira está colocada lado a lado, semelhante aos traços de um esboço numa folha de papel. É um abrigo efémero à imagem das nossas carapaças protectoras, à imagem dos nossos disfarces moldáveis, onde se abrigam as nossas fraquezas, os nossos sonhos mais inocentes, mais ingénuos e mais irrealizáveis. Houve na Galeria Violeta, uma exposição dedicada a uns avós e intitulada “abrigo-me”. À partida parece simples e sugestivo, mas cuidado abrigar-se não significa fechar-se! Não. Aqui, o abrigo, como qualquer outro com as características de abrigo, deixa filtrar a luz, os sons e os cheiros do dia. No abrigo descortinam-se os sentidos. Entra-se num espaço nu e branco de um apartamento que em si já é um abrigo. Uma casa já é um abrigo para o corpo e para a alma, isto é, quiçá para a alma também. Aparece um painel de madeira tosca colocado contra as paredes formando uma ângulo obtuso de 150 graus com a parede nua. A inclinação não pode ser inocente, a inclinação do anglo delimita um espaço quase fechado e quase todos os ângulos desta construção efémera são agudos, cortantes e penetrantes, contrastando de forma irremediável com os sentimentos de sossego, aconchego e tranquilidade que povoam o interior da construção. entra-se por uma abertura de 40 graus que apenas se revela pela persistência e curiosidade do espectador. Esta fenda acaba por despertar e atrair a curiosidade do visitante, que finalmente se aventura na entrada oblíqua e descobre um caminho, semelhante a um labirinto, atrás de um dos painéis inclinados. Aparece então um corredor que esconde um beco como num jogo de labirinto, onde se deve descobrir o caminho até ao queijo, à flor, à luz, conforme os casos. Aqui o caminho que leva ao ponto de chegada não importa, porque pode não haver um verdadeiro ponto de chegada. Alguns poderão preferir ficar no corredor como numa passagem, outros no ponto de chegada fictício que poderia ser num cubículo situado nas águas furtadas da construção, ou no primeiro beco, logo à direita depois da entrada, perpendicular ao painel de entrada deixando o espaço por vir colocado como num espaço de ficção. A obra de arte não salva, nem redime, agora a obra protege temporariamente, apenas o tempo de uma exposição. Não estão aqui presentes ideias eternas ou primordiais, não há vontade de poder possível, o material é efémero, degrada-se e a construção apenas relembra a de um abrigo, como aqueles que inventamos em criança. Mas dado que não há salvação possível, o perigo reside dentro de nós e inscreve-se no material em que se marca o tempo, assim como se inscreve nos nossos corpos. Entretanto, esperamos. É na Arte “sem rastos”, ou nesta Arte “pontual” que se revela o efémero como sendo o conceito principal da criação. Não há promessas possíveis a longo prazo, tudo se centra no momento. É de facto algo de totalmente desumano não poder pensar no tempo por vir. Entretanto, abriguemo-nos!
(Ana da Palma, Gazeta das Caldas 28/04/06)

Interlúdio (3)

Sentei-me no banco do jardim e continuei a ler o texto encontrado num autocarro que me levara de Panamá a Colón algum tempo antes de chegar a Lisboa. Não sei o que hei de fazer com este manuscrito, não sei a quem pertence, mas a leitura tem me dado algum prazer. Peguei num lápis e comecei a numerar as páginas soltas. Um rapaz passou com um cão. Puseram-se a brincar com um pau. Chegou uma mulher com o filho. O miúdo reclamou o baloiço, depois o escorrega, a seguir a abelhita e novamente o baloiço, o escorrega e o baloiço, como se esta ordem fosse absolutamente necessária ao frágil equilíbrio entre o desejo de preencher o tempo, a necessidade de brincar e o medo de serem já horas de partir. Chegaram outras crianças e invadiram o jardim. O cão aproximou-se e assustei-me de tal maneira que deixei cair o manuscrito. As folhas ficaram dispersas pelo chão. Uma voz autoritária, quase rouca, emergiu da boca do rapaz “Bolas! Pára. Senta.” Levantei-me para apanhar as folhas. Recolhi-as num molho, sentei-me novamente para limpá-las da terra e juntei-as lenta e desordenadamente. Durante o curto instante, entre o meu grito de surpresa e as palavras do rapaz, todos tinham olhado para o cão, para mim e para o rapaz, mas agora os miúdos continuavam a aplicar-se no escorrega, no baloiço e na abelhita suspensa no ar por uma mola meia verde e meia ferrugenta. Depois de recolher as folhas esparsas, levantei-me para ir para casa. Passei pelo supermercado para comprar água e café. Ao virar a esquina dei de caras com o dono do cão. Ele passou, eu passei, sem uma palavra, sem uma expressão no rosto. Não há nada a dizer. Vivemos mundos separados. Vivemos todos mundos separados, não temos tempo. Nem que seja um simples movimento, um olhar, ou um sorriso cansa-nos. Apenas um gesto é de mais. Ouvimos a nossa própria voz a falar da nossa própria vida que preenche o espaço todo e esquecemo-nos dos outros. Abri a porta do prédio. Subi as escadas. Pus a chave na fechadura, quando de súbito tive uma estranha sensação, como se houvesse uma presença inquieta atrás de mim. Virei-me surpresa e um pouco assustada. O rapaz parara no patamar com uma folha na mão. -“Espere, ficou esta no jardim.” Sorri, estendi a mão, agradeci, fiquei confusa, sem saber se devia de convidar o rapaz a entrar, pois durante um momento, que pareceu uma eternidade, a folha permaneceu na sua mão sem que ele a largasse. - “Obriga...obrigada...Desculpe...eu...ainda bem...” - “Não é nada, pensei que lhe faria falta.” Despedimo-nos e entrei finalmente em casa. Feliz por ter recuperado algo que nem sabia que tinha perdido. Fiz um chá e sentei-me à secretária para continuar a leitura:
Por fim tenho um pedaço de terra. Por fim, tenho um corpo onde deitar as minhas sementes. Um corpo que me alimenta e me entranha. Também descobri uma parte de mim, num texto do escritor belga, Eugène Savitzkaya. Como ele, sinto com estranheza as minhas mãos, depois de remexer a terra, mas também não me convenço em usar luvas! Construí jardins de ervas e de cheiros fictícios. Combinei em sonho o hissopo com as couves, o rabão rústico com as batatas, a borragem com os morangueiros, a hortelã sempre perto das roseiras, a nêveda dos gatos ou erva gateira, assim como a valeriana, à volta da horta. Programei jardins eruditos, onde a convivência de cada planta fora estudada para servir de alimento ou de protecção à outra. Assim, foram imensos os canteiros em forma de patamares, escadarias de cheiros, cascatas de ervas medicinais, assombrosa combinação de infusões futuras, tudo orquestrado num conjunto caótico, quase natural. Construí autênticos palácios de paraísos odoríferos, moldados e inspirados no jardim de Alkinoos, no paraíso terrestre tão perdido, nos jardins imaginários e outros mais reais. Já me via alimentando as minhas noites de chás, loções e poções maravilhosas. Há sempre tanto a fazer com as mãos! Depois de semanas a remexer, a medir o calor do estrume, o grau de acidez, a consistência da terra, etc., a caneta, o lápis e o teclado resistem, como se já não houvesse espaço possível para outro instrumento a não ser a mão e os dedos. Depois de um tempo, é impossível escrever com as reminiscências da terra pegadas às mãos. Os dedos tornam-se mais lentos, mais espessos e desajeitados e a pele insensível.
(Ana da Palma, Gazeta das Caldas, 21/04/06)

Récit de E.Jabès

50- Elle, immobile.
Lui, si étrangement mobile.
51- Jamais le silence
ne se réfère au silence.
Jamais l’aurore à l’aurore
52- Lui, ses pas dans les siècles.
Elle, fidèlement figée
Dans l’instant.
54- Jamais, à l’absence,
ne se réfère l’absence.
Jamais, au crépuscule, le crépuscule.
(E.Jabès, Récit)

Noites com teatro no cinema – Dogville de Lars Von Trier - A representação do mundo enquanto cruelda

Há um espaço rectangular, delimitado no chão do palco, que permanece um espaço vazio, apenas preenchido nos últimos minutos do filme. Este espaço, que fica perto de uma casa, situada do lado direito, em segundo plano, do campo de visão do espectador, é preenchido pela representação onomatopeica que ganha corpo com a presença final de um cão. Assim começa, com o cão imaginário, guarda e guia, que se ouve ladrar e a quem se roubou um osso, e acaba com o cão verdadeiro, a quem se corta as amarras, representado em carne e osso no fim do filme: Dogville. A estrutura e o agençamento da narrativa fílmica, em Dogville, apresentam-se da seguinte forma: um prólogo e 9 capítulos (quiçá com a carga simbólica que o número carrega consigo). As palavras que se inscrevem no ecrã anunciam a presença de um texto subjacente, mas é no metatexto, inscrito no ecrã, como uma súmula dos acontecimentos a seguir, que se revela o texto. É desta forma que se inscreve a história do cinema surdo. Digo surdo para fazer eco às palavras de Virilio, anunciando o “acidente do visível como sendo o audiovisual”, e referindo assim que os primeiros passos do cinema não eram mudos, mas surdos. Esta linguagem remete para um narrador omnisciente e omnipresente, aquele que é voz e que narra os interstícios da trama, da intriga e os pensamentos das personagens, mas também remete para um espectador semi-omnisciente, o espectador de um filme ou de uma peça de teatro, por lhe ser dado a ver o que as personagens não vêem. Na relação que este filme estabelece com o publico podemos verificar uma riqueza extremamente complexa que mereceria uma atenção particular e mais pormenorizada. Pois, por um lado, há o palco ou a cena que se assemelha a um palco de teatro e, como tal, remete para um mundo que, metaforicamente, também enquadra o mundo concentrado da intriga, isto é, um espaço reduzido de uma pequena aldeia, um espaço limitado que constrange e determina os actos e os sentimentos humanos. Neste tão pequeno espaço, esboça-se toda uma geografia humana. Esta apresenta-se de forma crua e nua e torna-se autoritária, pelo significado metafórico que estabelece com o espectador, remetendo para o ser profundamente DES-humano. Por outro lado, o palco ou a cena assemelha-se a um barco num oceano e remete para uma concepção do espaço praticamente medieval, o espaço é o mundo e o mundo é plano. Nos confins deste mundo cai-se num inferno que evoca a vida noutros espaços cerrados, mas também a um jardim dos pecados, onde é consumado o pecado da carne, sob a forma de abuso de sensibilidade e violação do corpo. Encontramos na construção deste espaço fechado prolongamentos do cinema de Pasolini, mas aqui o que fere mais profundamente, não é tanto o corpo assaltado, não é a visão da carne branca e macia violentada, mas o autêntico atentado aos sentimentos, à sensibilidade, à compreensão e ao profundo desejo de ser querido, de ser grato, útil e conciliador, tudo isto alimentado por tantos discursos, tantas palavras e o desejo de alcançar o significado das palavras juntas. Os espaços abertos das casas permitem a compreensão da intriga para o espectador, mas são autênticos muros para os actores que devem desempenhar o seu papel até ao fim, como uma espécie de crueldade irremediável. Não há luz possível para os actores e a luz que os ilumina é despojada de névoas. É uma luz autêntica, apenas feita de contrastes que ferem tanto quanto o trabalho de tentativa de comunicação entre as personagens. Abrem-se e fecham-se portas e da consistência real das portas fica apenas o ruído e o movimento ilusório de uma mão na maçaneta da porta, de todas as portas. Através das paredes, o espectador é forçado de conhecer a intimidade de cada um e as mentiras tecidas pelos actores/personagens por não terem essa capacidade de ver através das inexistentes paredes. O cinema interroga-se sobre as formas de organização social, mas também sobre si próprio e a sua representação do mundo. A autoreflexividade apresenta-se sob a forma de ecos através dos quais se faz a luz e se dá vida. É esse o trabalho do encenador, procurar a luz que faz de Dogville, o teatro da crueldade (ver A. Artaud) de um filme. (A ver quarta-feira, 19 de Abril, às 21:30, Sala estúdio do Teatro da Rainha) (Ana da Palma, Gazeta das Caldas do próximo dia 14/04/06)

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