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ARESTAS

ARESTAS

Interlúdio (2)

250px-Boreas_Oreithyia_Louvre_K35.jpg
Desci lentamente a escadaria da colina de San Giusto em direcção ao teatro romano. A Bora, um vento do norte, frequentemente representado como um cavalo e com um passado mitológico importante, soprava violentamente à beira do Mar Adriático e percebi porque é que o associavam à loucura. O vento forte pode provocar todo o tipo de desordem, tanto no mapa da natureza, como na paisagem interna de cada um de nós. Cheguei à estação e apanhei o último comboio que partia ao fim da tarde de Trieste para Veneza. Depois da cidade dos canais e dos pombos, dormi o tempo todo, não me lembro das estações por onde passei, não me lembro dos rostos à minha volta. Mudei de comboio várias vezes. Quando cheguei finalmente a Lisboa, já tudo estava muito verde, já o ar estava carregado de humidade e chapéus-de-chuva apressados desciam as ruas escorregadias e desapareciam no metro, nos prédios e nos carros. Fetos e musgos cresciam nos telhados das casas antigas. Senti-me diferente. Desde Janeiro que não me via ao espelho. Não me apercebi que a minha pele tinha mudado. Não me apercebi que já não era apenas eu, mas que éramos dois. Passávamos as tardes nas estações de comboio. Em primeiro, no Rossio, depois mudámos para Santa Apolónia. Era maior. A partida, tal como a tínhamos concebido em sonho, durante anos, aquele outro, ainda por vir, e eu, ganhava em significado. Não dei importância à mudança. Desprendi-me para apenas considerar tudo aquilo que era exterior ao meu corpo. Durante vários dias, tive o mesmo terrível pesadelo semeado de imagens de horror. Batalhões de crianças suspensas e petrificadas com um esgar aterrorizado, o corpo tenso e aninhado na opacidade do ar, os olhos esbugalhados e injectados de sangue, os rostos brancos e os lábios roxos semi-abertos povoavam as minhas noites. Não havia explicação para tanta dor, mas o corpo permanecia o local do crime. Escrevi uma carta, muito longa, para me libertar das noites assustadoras. Funcionou, pois, por vezes, procurar as palavras para identificar o que nos parece inexplicável, acaba por resolver uma parte do problema e afastar os fantasmas, as angustias, as culpas ou projecções, mas não me lembro nem do conteúdo da carta, nem a quem a mandei. Melhor assim. Desprendemo-nos. Continuei sem saber aquilo que era para vir. Como sempre. Como todos nós! Não há mistério nessas coisas. Concordei com uma seita gnóstica que dizia que o passado estava à nossa frente, porque o conhecíamos, enquanto que o futuro ficava atrás de nós, porque não sabíamos o que iria ser. Pensando assim todas as perspectivas de vida mudavam, porque o futuro já não se distinguia por ser algo com uma duração indeterminada, mas ilimitada, como se fosse uma fonte de possibilidades, como se fosse algo que abrisse um caminho, onde o tempo, enquanto duração, predomina. O futuro acabava por tecer-se sobre algo conhecido e identificável, que não dependia do tempo, mas apenas do conhecimento. O presente fazia a ponte entre dois momentos, um com uma duração destorcida, porque vivia da memória e outro feito apenas de instantes que se sucediam a uma velocidade vertiginosa. O conhecimento do passado só podia dar uma vaga ideia do que seria o futuro. Isto trouxe-me algum reconforto. Acabei por despir as paredes dos mapas e dediquei-me atentamente a observação das nuvens. Nunca pensei que o céu dava origem a tantas palavras, mas faz sentido, porque os Homens sempre procuram um nome para todas as coisas. Identificar o que nos rodeia facilita a sua compreensão. Neste caso, antes de procurar um nome, houve um registo, houve uma imagem. Foi assim que comecei um relatório nefelibata, para me obrigar a olhar para cima. Foi assim que registei o aparecimento quotidiano das nuvens. Post-scriptum: fora apenas outro pequeno interlúdio para repousar da “cultura”. (Ana da Palma, Gazeta da Caldas 24/02/06)

O quadro na parede

o cuadro na parede.JPG
nunca pendurar nada que deixe rastos
como buracos na parede... Depois do quadro,
depois do objecto
pendurado
o espaço que ocupa o quadro torna-se fixo
rígido.
Depois do quadro, fica um buraco na parede...como um espaço vazio onde eventualmente existiu algo que caiu e que se partiu, ou por extravio do martelo, falta de pregos adequados, fica à espera com o olho à vista
expomo-nos na parede do espaço que habitamos.

Antes das consequências da curiosidade de Eva

Excertos do diário de Adão e Eva de Mark Twain
NOTA
Traduzi uma porção deste diário há alguns anos, um meu amigo imprimiu umas poucas cópias de forma incompleta, mas o público geral nunca teve acesso a esses textos. Desde então decifrei mais alguns dos hieróglifos de Adão, e penso que ele se tornou suficientemente relevante como figura pública de forma a justificar plenamente esta publicação.
Excertos do diário de Adão
Segunda-feira
Este novo ser de cabelo longo é um valente empecilho. Anda sempre À minha volta e segue-me para todo o lado. Não gosto disto; não estou habituado a ter companhia. Preferia que ficasse com os outros animais. (...) Está enevoado hoje, vento do Este; acho que nós ainda vamos ter chuva. (...) NÓS? Onde apanhei esta palavra? – o novo ser usa-a amiúde.
Domingo
Aguentei-me. Este dia está a ser cada vez mais desgastante. Tinha sido seleccionado e posto de parte em Novembro passado como dia de descanso. Esta manhã fui dar com o novo ser a tentar deitar ao chão maçãs daquela árvore proibida.
Segunda-feira
O novo ser diz que se chama Eva. Tudo bem. Não tenho objecções. Diz que é para o chamar quando queira que ele venha. Eu disse que, nesse caso, era supérfluo. Esta palavra fez-me subir na sua consideração e é, de facto, uma longa e boa palavra capaz de suportar a repetição. O novo ser diz que não é um ser, mas uma Ela. Duvido, mas tanto me faz, O que Ela seja não me faria diferença se Ela se metesse na sua vida e não falasse.
Terça-feira
Agora deu-lhe para uma serpente. Os outros animais estão felizes da vida porque ela estava sempre a fazer experiências com eles, sempre a incomodá-los; eu estou feliz da vida porque a serpente fala e isto permite-me ter algum descanso.
Sexta-feira
Ela diz que a serpente a aconselha a provar o fruto da árvore e diz que daí vai resultar uma grande e bela e nobre educação. Eu disse-lhe que também haveria outra consequência: que isso introduziria a Morte no mundo. Isto foi um erro, mais valia ter ficado calado. Só serviu para lhe dar uma ideia: ela podia salvar o bútio doente e arranjar carne fresca para os desalentados leões e tigres. Pelo meu lado aconselhei-a a manter-se afastada da árvore. Ela disse que não. Acho que vai haver problemas. Vou emigrar.

Interlúdio (1)

mapa.JPG
Interlúdio (1) Durante aquele Outono, em Berlim, passeando pelas ruas de Kreutzberg, no céu, as nuvens tinham um nome...só estratos sobrepostos a estratos, um céu branco-acinzentado que se prolongava no céu escuro das longas noites. Eram dias tão frios que me entorpeciam os sentidos. Depois das quatro da tarde, diante da salamandra, na cozinha, falava-se do falecimento do muro, comia-se pão, queijo e bananas por mimetismo... Andava por Berlim, sozinha, sem ter alguém para pôr um nome nas coisas. As coisas com um nome perdem todo o verdadeiro sentido na memória dos sentidos. É preciso saber deambular numa cidade, perder-se nela, encorpar-se dela para guardar qualquer lembrança. Lembrei-me de Walter Benjamin que dizia que Paris lhe tinha ensinado a arte de se perder. Ainda tinha quatro tabletes de chocolate, uma moeda de um marco, umas luvas enormes multicolores e um sorriso maior que a distância entre Berlim e Paris. Acabei por apanhar uma boleia num camião espanhol. O condutor era da Estremadura, vivia numa aldeia da Serra Morena e seguia para França. Falámos muito do sol, da serra, das saudades que tinha da mulher e partilhámos o chocolate até aos subúrbios de Paris. Foi por causa dele que me apeteceu a luz do mediterrâneo. Pensei na luz e lembrei-me dos quadros que Zurbarán tinha feito de São Francisco. A luz que emanava dos rostos. Havia um quadro, em particular, não se via o rosto todo de São Francisco, toda a luz estava no nariz. Percorri mentalmente todos os narizes de que me lembrava. O nariz do meu avó no qual reconhecia o da minha mãe, o nariz perdido de um texto de Gogol, o nariz em gesso pintado de Giacometti, o nariz do meu pai no qual me reconheci, o nariz de Dorian Gray, o nariz de um amigo que contava, cada vez que conhecia alguém, que lhe tinham dado a alcunha de ‘napias’ , no liceu francês de Madrid, a importância que Goethe deu ao nariz, como sendo pilar que suporta a abóbada formada pela testa, o nariz que incomoda de Cyrano, a máscara nariz do teatro, a outra dum filme...Fiz um esboço do meu roteiro do nariz que acabei por perder num autocarro entre David e Panamá. Lembrei-me da Serra Morena descrita no manuscrito de Potocki. Por causa do apelo que o mar mediterrâneo produz, lembrei-me da Andaluzia, do ‘jamón de Jabugo’, Sevilha e de uma rua estreita: ‘calle del beso’. Quando cheguei a casa, olhei para as paredes do muro do quarto atapetadas de mapas e rotas imaginárias. O norte de América até ao Panamá era uma dama muito apressada. Tinha um pé levantado que quase não se distinguia, estava perdido no Mar de Bering. Um braço curvado perdia-se no Oceano Árctico, o outro segurava as rendas de uma saia cuja ponta terminava e constituía, por um lado, a Baia do Hudson, por outro o Mar Lavrador. O outro pé terminava à fronteira entre Costa Rica e Panamá. Notava-se a sua pressa pelo movimento que fazia a sua saia. A América do Sul e o continente Africano eram duas máscaras viradas para o mesmo lado e com a mesma inclinação. Ambas olhavam para baixo com uma espécie de tristeza. A dama apressada continuava a sua corrida no sentido oposto ao olhar das máscaras. O resto do mundo era simplesmente o que se via no mapa. Voltei a pôr chocolate na minha mochila. Chocolate e livros. Levei uns quantos para ler em Trieste, onde me queria encontrar com Joyce, Via San Nicolo, como para ter a certeza que fora aí que tinha escrito The Exiles, a sua única peça de teatro. Cheguei a Trieste no dia 16 de Junho, dia de Bloom. Comemorei com os gatos, perto do canal. Post-scriptum: fora apenas um pequeno interlúdio para descansar da “cultura”. (Ana da Palma, Gazeta das Caldas, 10/02/06)

Macbeth no cinema

visoesMac.jpg
Depois da morte da Rainha, as belíssimas palavras de Macbeth:
“ Life’'s but a walking shadow, a poor player
That struts and frets his hour upon the stage,
And then is heard no more; it is a tale
Told by an idiot, full of sound and fury,
Signifying nothing”
Macbeth no cinema de Orson Welles e com ele! Um trabalho de génio, uma proeza do teatro no cinema.

Daumier e o Teatro(2)

daumier french theater c.1856.jpg
Porque será esta lentidão do movimento tão evidente?
Pela postura e atitude dos espectadores?
Pela aparência de espectadores educados devido aos chapéus, às roupas e à postura das mãos? O olhar e o rosto dirigido para um lado do palco indica o movimento dos actores, indica que algo se passa do lado esquerdo do palco de forma temporária, pois lentamente o rosto haverá de se virar novamente.


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